Olá, leitores e leitoras.

Depois de ser apresentado pelo AUTOentusiastas e de me dirigir vocês pela primeira vez, vou começar a série de matérias sobre minha vida e atividade profissional.

Um dos temas que quero explorar com vocês é a história da minha carreira que culminou com a posição de Diretor de Design, membro do “Design Group” da maior fabricante do mundo, o Grupo Volkswagen.

Este tema vou chamar de “História de Vida” e se desenvolverá em vários capítulos quinzenais.

Também vamos ter “Como se Desenha um Automóvel” e assuntos diversos relativos a design de automóveis que chamarei de “Miscellaneous”.

Para começar a minha História de Vida, aí vai o primeiro capítulo.

Espero que agrade.

LV

 


 

 

 

FASE PRÉ-DESIGNER – Capítulo 1

Desenho desde os dois anos de idade, talvez antes, mas meu pai tinha guardado desenhos meus desta época apenas.

Meu pai fazia “bicos” de “desenhos de arquitetura” (plantas) em casa e eu, bem pequenino, tinha meu lugar ao lado esquerdo na sua prancheta de trabalho. Ele, o sr. Luiz Augusto Veiga, e meu tio, Afonso Herbert Stoebbel, trabalhavam em posições executivas na GM, meu pai como gerente de Planejamento de Fábrica, desenhando e projetando fábricas (o maior trabalho foi a implementação da fábrica da GM em São José do Campos), e o sr. Afonso, chefe de Produção da GM em São  Caetano do Sul. Eles foram as duas grandes influências na minha fase infantil e adolescente.

Morávamos a três quadras da fábrica da GM em São Caetano do Sul. Era frequente, na nossa garagem comunitária, Belairs, Impalas e outros importados americanos, assim como um Simca 8, Fusca, Veraneio, etc. Com 14 anos decidi, em consenso com meu pai, largar a escola (ginásio) e fazer o Senai, no curso de modelador técnico, financiado dela GM, no bairro do Ipiranga.

Ali recebi uma boa base técnica que me seria útil durante toda minha vida, especialmente na interpretação de Desenho ortogonal, construção de ferramentas e processos industriais.

Durante o período em que eu passava na fábrica (o curso era seis meses na escola e seis meses na fábrica, durante três anos) trabalhei principalmente na Ferramentaria, mais especificamente na modelação técnica, construindo dispositivos de montagem e modelos de ferramentas e moldes diversos, mas também trabalhei como aprendiz nas linhas de montagem e lde prensas.

Com dez anos de idade meu pai me levou para conhecer a área de Estilo da GM, e após aquela visita eu decidi que era aquilo que eu queria fazer na minha vida. Demorou mais de uma década, depois daquele dia, para me tornar um “Estilista de Automóveis”, mas a visão daquele estúdio, o aroma dos materiais lá usados e os fantásticos boards com desenhos incríveis são inesquecíveis e foram decisivos na minha vida.

Depois da GM, estudei na Escola de Belas Artes de São Paulo, onde me especializei em história da arte e pintura.

Foi um momento muito importante para lapidar meu bom gosto, conhecer técnicas diversas e conhecer a história dos grande pintores.

A música também sempre esteve presente, também vinda de meu pai, que era um sanfoneiro de primeira.

Estudei muitos anos piano clássico e fiz regência na Fundação das Arte de São Caetano do Sul.

Vacilei muitos anos para escolher entre o desenho e a música, mas no fim o desenho me ofereceu um cenário mais promissor em termos financeiros. Na Júlio & Bahr Propaganda trabalhei como “pastup” montando páginas de catálogos de produtos industriais durante um ano e meio. Também, por esta época fui por curto período professor de Desenho da Escola Panamericana de Arte.

Luiz Alberto Veiga, primeiro lugar em Desenho, Gislaine Mari Veiga, minha irmã, segundo lugar em Pintura, e Luiz Augusto Veiga, meu pai, segundo lugar em trabalhos em madeira, no concurso/exposição GMarte; ao fundo, meus desenhos

Foram muitas aventuras de Fusca nas estradas do Brasil, especialmente pelo Litoral Norte de São Paulo, onde morei nove meses em uma barraca, os únicos que eu não trabalhei desde os 14 anos. Na foto de abertura, um banho de cachoeira nesse tempo! Foi uma aventura que me trouxe experiências que marcaram toda minha vida.

Meu primeiro trabalho realmente profissional na área automobilística veio no departamento de Ilustração Técnica, que pertence à Engenharia de Produto na GM, e depois na Volkswagen, onde a ilustração técnica pertencia ao planejamento industrial. Nesta função conheci profundamente os automóveis, pois acabei me tornando “layout man”.

Os desenhos em perspectiva, feitos com canetas Nankin, nasciam por interpretação de desenhos ortogonais da Engenharia de Produto, ou diretamente na linha de montagem, onde eu compunha desenhos feitos à mão livre da sequência de montagem de todas peças do veículo.

Depois meus companheiros instrumentavam os desenhos finais, feitos em papel vegetal de qualidade, com canetas Nankin, 0,2, 0,4, 0,6. A “arte final” era um desenho instrumentado, porque você usa gabaritos de elipses, curvas francesas e esquadros para realizar os desenhos em perspectiva exata.

Estes desenhos tinham a função de orientar a montagem final das peças do carro seja na linha de montagem ou em área específicas de montagem de subconjuntos, assim como ajudando fornecedores e a rede de revendedores das marcas.

Na VW, o processo era mais avançado, pois desenhávamos todas peças individuais
separadamente, mas todas em uma perspectiva fixa, única, portanto quando se montavam todos os desenhos tínhamos o carro completo em um só conjunto. Este processo antecedeu à tecnologia digital, que viria somente uma década mais tarde.

Tudo era feito à mão, pois não havia nenhum computador ou outro recurso eletrônico para nos auxiliar. As cópias eram heliográficas ou sépia. Fiquei nesta função durante aproximadamente 6 anos, metade na GM e metade, na VW. Foi uma época de muitas aventuras e loucuras, típicas de um jovem brasileiro da época.

Um dia, porém, um colega e vizinho de prancheta me veio com um anúncio de jornal no qual a Chrysler do Brasil estava à procura de um Estilista com experiência — coisa que eu não tinha, pelo menos nesta especialidade.

Tentei a vaga e a princípio me saí bem, porém como o Designer-Chefe da Chrysler, Celso Lamas, me explicou, eu não tinha experiência, pois o trabalho de um ilustrador é muito diferente do de um Estilista.

Um parêntese: uso a palavra estilista porque era assim que nos chamavam e assim está escrito na carteira de trabalho. A diferença entre um Estilista e um Designer eu comento mais tarde — desafio alguém que tenha uma carteira igual…

Minha carteira de trabalho, onde em cargo lê-se Estilista

O Celso acabou optando por um Estilista da GM. Mas passados três meses ele me chamou para um papo, e lá vou eu de novo, com as esperanças renovadas, ao seu encontro.

Disse-me ele:
— O estilista que contratei é um moloide, até já o peguei dormindo na prancheta. Portanto, você estaria disposto a arriscar sua posição segura na Volkswagen por uma aventura comigo?

É claro que não titubeei nem um segundo para a resposta: Sim! Este é meu sonho é não vou deixar passar.

E começava assim uma grande aventura, muito além do que eu poderia jamais sonhar.

LV

 

Próximo capítulo: O Estúdio da Chrysler do Brasil, em São Bernardo do Campo

Como bônus para vocês, uma ilustração técnica, feita à mão, no estilo das que eu fazia  quando era “layout man”, ilustrador.

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