Na inauguração de Brasília, dia 21 de abril de 1960, a cidade estava semipronta, não havia acomodação em hotéis para todos os visitantes, mas os “alemães-brasileiros” da recém-inaugurada oficialmente Fábrica da Volkswagen do Brasil não se apertaram com esta limitação.

Cartão filatélico comemorativo da inauguração de Brasília autografado pelo presidente Juscelino Kubitschek (1)

Especialistas em acampamento há muito tempo, já que na Alemanha muitos já praticavam o campismo, o pessoal de São Bernardo do Campo organizou um acampamento com Kombis preparadas para várias atividades, desde dormitórios até cozinha. Umas 40 Kombis foram dispostas em círculo no terreno onde depois viria a ser construído o Itamaraty e surgiu o legendário acampamento apelidado internamente de “Forte Apache”, se bem que mais parecia uma formação de defesa de uma caravana de desbravadores do Velho Oeste americano preparados para a defesa contra um iminente ataque dos índios…

Na foto de abertura vemos este acampamento, bem como a sua posição em relação aos prédios já prontos para a inauguração. O nome oficial deste acampamento era “Núcleo Volkswagen” como indicado em faixas, se bem que também havia uma faixa que dizia: “Núcleo VW Brasília”; este detalhe poderá ser visto adiante em fotos. Também havia um logotipo VW colocado no alto sobre um tripé – ele tinha iluminação à noite.

Neste acampamento se destacaram as Kombis-Camping transformadas pela Carbruno, estas serviram de dormitórios. Como esta versão não tinha um banheiro, 12 barracas banheiro, com chuveiros, foram instaladas no perímetro externo do círculo formado pelas Kombis, separadas em dois grupos de seis. Aliás, detalhes destas Kombis-Camping da Carbruno podem ser vistas na Parte 1 da matéria “Kombis que levam as casas nas costas”.

No caminho para Brasília o longo comboio de Kombis faz uma pausa para abastecimento (2)

Mas quem acredita que a delegação levou somente Kombis para o Planalto Central se engana. Também foram “Volkswagen de Passageiros” que desempenharam funções que quebraram paradigmas de uma maneira bem ao modo de Brasília, uma capital moderna e pouco convencional. Normalmente as autoridades vão a jantares de gala vestidos de fraque em limusines, carros grandes, condizentes com a festa, mas vejam o que ocorreu há cinquenta e oito anos. Friedrich Wilhelm Schultz-Wenk, o primeiro presidente da Volkswagen do Brasil, à esquerda da foto, devidamente trajado de fraque, não dá para ver, mas ele segurava sua cartola na mão esquerda, esperando para entrar num valente Fusca que o levou para o jantar de gala da inauguração de Brasília em grande estilo Volkswagen!

Pronto para a festa de Gala; Schultz-Wenk aguarda para entrar no banco de trás enquanto o motorista, de costas, puxava o banco dianteiro (2)

Deve ter sido a sensação da noite: presidente da VW do Brasil chega para a Recepção de Gala da Inauguração de Brasília num Fusca! Mas a história estava traçada e esta foi, sobretudo, uma homenagem da Volkswagen a Juscelino Kubitschek de Oliveira — que recém tinha inaugurado, em 19 de novembro de 1959, a Fábrica Anchieta; e que, além do mais, desenvolveu uma grande amizade pelo presidente da Volkswagen do Brasil. Abaixo,† uma foto feita em outra oportunidade:

Acho que o “alemão” contou uma piada daquelas… (3)

Este é o resumo da história, mas vamos dar uma olhada nos detalhes desta grande aventura que hoje já se tornou histórica. Primeiro vamos ser alguns detalhes da viagem do grande comboio de veículos que saiu da Fábrica Anchieta e percorreu os mais de 1.000 quilômetros para chegar à nova Capital Federal.

A chegada à Brasília foi registrada em grande estilo com fotos aéreas, que mostram o longo cortejo chegando por uma cidade que ainda estava em construção, mas que já ia ser inaugurada (Fonte das fotos, vide nota 2):

Chegando ao local destinado paro o mega-acampamento, as Kombis foram sendo dispostas em círculo e as demais instalações foram sendo armadas, mostrando o cuidadoso planejamento feito para esta empreitada:

As Kombis serviram para o dia a dia e também para contatos políticos mantidos ali mesmo nas mesinhas e cadeiras de camping. As fotos se concentram na Kombi do Schultz-Wenk, a de número 5 (Fonte das fotos, vide nota 2):

À noite o Forte-Apache, todo iluminado, brilhava na escuridão do planalto central:

 

Alguns prédios já eram iluminados à noite, mas as avenidas não estavam prontas e, portanto, não tinham iluminação; com isto o Forte-Apache se destacava contra o fundo escuro (2)

 

O logotipo VW elevado com sua iluminação noturna, marcando o seu espaço na inauguração de Brasília (2)

Fazia parte do programa a apresentação da Esquadrilha da Fumaça que ainda voava com os gloriosos T-6 da North American Aviation. Aliás, alguns dos rasantes que foram realizados naquele dia já não são mais permitidos em eventos com público (Fonte das fotos, vide nota 2):

Outra atração foi uma corrida de automóveis numa modalidade para lá de estranha e perigosa, além de não haver proteção alguma para o público: os carros corriam indo e vindo na mesma avenida! A mistura de carros também era grande:

Encerro aqui mais um relato de um evento que marcou a história da Volkswagen no Brasil, envolvendo Fuscas, Kombis e a inauguração da Novacap. Outro capítulo que não é conhecido por muitos, mas que vale a pena contar e relembrar.

AG

 

Créditos & Notas

Crédito das fotos:

(1) – Foto: Mercado Livre
(2) – As fotos da caravana, do Forte Apache e das atividades em Brasília foram originalmente feitas por Alwin Dierkers, já falecido. Ele foi fotógrafo da Volkswagen do Brasil por muitos anos; durante os quais registrou vários eventos memoráveis, como este desta matéria e a Caravana de Integração Nacional, dentre outros. Eu recebi estas fotos num CD que o amigo Val Arraes distribuiu para várias pessoas. Ele resgatou um lote de fotos de dentro de uma lata de lixo na Fábrica Anchieta, onde ele trabalhava. Ele conta que inicialmente guardou as fotos em seu armário e as foi levando, escondidas, para casa em pequenos lotes. Daí ele as digitalizou e montou o CD. Simplesmente ter este CD não representa muito para quem não conhece os acontecimentos nelas registrados, é necessário saber interpretar o que as fotos mostram. No caso das fotos desta matéria, que estavam distribuídas sem uma ordem clara, eu fui garimpando e ordenando as fotos referentes ao episódio do “Forte Apache” para compor a matéria. Assim foi possível resgatar mais uma história do fundo do baú…
(3) – Acervo do autor.

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