Participação maciça de pilotos internacionais traz benefícios para a categoria

Sai caro, mas vale a pena. Assim pode ser resumida a participação de pilotos do cenário internacional na prova de abertura do Campeonato Brasileiro de Stock Car, realizada ontem (10) em Interlagos, São Paulo. Das 33 duplas inscritas, nada menos de 11 foram formadas por nomes com passagem pela F-1 e muitos dos pilotos regulares convidaram colegas que disputam os principais campeonatos internacionais, caso do brasileiro Augusto Farfus (DTM e IMSA). Apesar de alto, o investimento de trazer estrangeiros é considerado positivo por diversos setores do circo, de engenheiros a pilotos; patrocinadores, aqueles que assinam o cheque, fogem do assunto.

200 km de Buenos Aires tem participação regular de pilotos brasileiros (Super TC2000)

A ideia de fazer corridas onde nomes importantes de categorias tradicionais dividem seus carros com convidados especiais não é exatamente nova. Na Argentina a Super TC2000 há anos promove uma etapa de 200 km que é considerada a prova de gala da temporada e brasileiros têm participação regular no evento. Como os carros dos hermanos são modelos de tração dianteira a, adaptação dos convidados é o calcanhar de Aquiles para nomes que almejam participar da festa.

Rachel Loh consultou colegas engenheiros para escolher o suíço Nico Muller (Ipiranga)

Na prova brasileira a escolha das equipes têm padrões diferentes e chegam a requintes altamente técnicos, como explica a engenheira Rachel Loh da equipe Ipiranga Mattheis: “Levamos em conta fatores que vão desde a experiência e performance do piloto até a maneira como ele se comunica e trabalha com sua equipe. No nosso caso, partimos de uma lista básica e no processo de escolha converso com os engenheiros que já trabalharam com esses nomes.”

Rachel lembra que a vinda de um piloto estrangeiro vai além do convite e até mesmo a comunicação dentro do boxe. Ela explica que em situações como a deste fim de semana sua equipe adota o inglês como língua oficial para facilitar o entendimento entre o suíço Nico Muller, o piloto titular Thiago Camilo e todos os engenheiros: “No nosso caso levamos alguma vantagem, pois praticamente todo mundo aqui fala inglês. Aliás, a presença dos estrangeiros tem consequências promocionais positivas: esses pilotos geralmente exploram as mídias sociais e com isso a Stock Car brasileira ganha espaço em páginas pessoais e sites do Exterior.”

Gustavo Camara (E) e Guilherme Salas (D) optaram por piloto argentino (FGCom)

No caso da equipe da equipe Bardahl Hot-Car, esse impacto é mais forte na Argentina, onde o automobilismo tem tradição e importância muito maiores do que acontece com o esporte no Brasil. O bom relacionamento Gustavo Câmara, engenheiro aeronáutico argentino que este ano assumiu a direção técnica da equipe, levou à escolha de Mariano Altuna: “Para fazer dupla com o Guilherme Salas nós optamos por trazer um piloto argentino com experiência na categoria Top Race, que usa carros de concepção muito semelhante ao carro da Stock: o peso total, dimensões, geometria, motor dianteiro, tração traseira são semelhantes aos do nosso carro e até o ano passado a Top Race utilizava os mesmos pneus que nós usamos atualmente.”

Carro de Mariano Altuna, da categoria Top Race, é semelhante ao Stock Car brasileiro (Top Race)

Muito experiente na categoria brasileira, Camara trabalha este ano com uma jovem promessa da Stock Car, Guilherme Salas, que faz sua segunda temporada. O paulista de Jundiaí destaca como fator positivo as diferentes interpretações dele e as de Mariano Altuna: “É sempre interessante essa comparação porque cada piloto tem um estilo próprio e sente o carro de jeito diferente. No caso dos argentinos eles freiam mais dentro da curva, enquanto nós freamos antes.”

Ao lado de Ingo Hoffmann, Augusto Farfus elogiou nível dos pilotos brasileiros (Beepress)

O curitibano Augusto Farfus Júnior, há anos radicado na Alemanha, onde é um dos nomes mais experientes da DTM, enxerga essa comparação de forma diferente e deixa claro que o padrão dos pilotos não deixa nada a dever aos que competem em outras categorias internacionais: “Os tempos na Stock dizem tudo sobre o nível dos pilotos: quem anda bem aqui anda bem em qualquer lugar. Veja o caso do Daniel Serra: no ano passado ele venceu em Le Mans. A diferença maior é no equipamento, que reflete diretamente o capital investido nos carros e a própria realidade brasileira. Os carros são parecidos, mas o custo do carro é bem diferente.”

Segundo Farfus, um carro completaria os 4.309 metros de Interlagos cerca de 15 segundos mais rápido do que um Stock Car. Farfus arrisca até uma comparação com o futebol: “O São Paulo é melhor ou pior que o Barcelona? É pior, mas é porque o mercado brasileiro não tem a mesma grana que tem o mercado europeu. São duas realidades diferentes, mas o show que a Stock Car proporciona é muito bonito, as arquibancadas estão cheias e o carro é o ponto menos importante nesse contexto.”

Falar de dinheiro é assunto proibido e tratado com ojeriza por vários executivos das empresas patrocinadoras. Considera-se que um piloto estrangeiro receba entre € 5 mil e € 10 mil, além das despesas que incluem hospedagem (geralmente uma semana em hotel cinco estrelas), passagem aérea em classe executiva, refeições e outras despesas menores. Tal qual acontece com pilotos brasileiros quando vão correr em Buenos Aires, vários deles criam uma espécie de valor de tabela para correr no Brasil. Exceção feita a Felipe Massa (nome ainda vinculado à F-1 e bastante prestigiado no automobilismo mundial), pilotos que convivem em uma mesma categoria ou são próximos tabelam em determinado valor o preço para competir no Brasil, Acredita-se que os europeus estabeleceram o topo equivalente a R$ 40 mil.

No orçamento das equipes a participação dos estrangeiros chega a cerca de R$ 60 mil reais, quantia que varia entre 2% (no caso das equipes com orçamentos de ponta) e 8% ou mais, em equipes menores. Aquelas com menos recursos acertam com pilotos nacionais ou estrangeiros com cachê mais em conta. O processo de negociação é influenciado também pela possibilidade de retorno que o evento oferece e neste assunto a indefinição sobre qual canal transmitiria a prova ao vivo implicou, e até dificultou, essas tratativas. Normalmente transmitida por canal aberto (TV Globo), este ano a difusão ao vivo ficou restrita ao canal a cabo SporTV, o que diminuiu o impacto do evento. Outro ponto que foi discutido no paddock de Interlagos foi a antecipação da prova para sábado, opção que já foi tentada inúmeras vezes em campeonatos brasileiros e que nunca obteve resultados interessantes.

O resultado completo da prova você pode ver aqui.

WG

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