Hoje vou voltar 45 anos no tempo para contar algo que me aconteceu em 1973. Isto sim é tirar um fato “do fundo do baú”!

Como já é de conhecimento do leitor, sou paulistano e cheguei ao Rio de Janeiro em janeiro de 1972, transferido pela Volkswagen do Brasil para atuar no escritório regional da empresa na função de representante de assistência técnica. A região era grande, começava em Resende/Volta Redonda e acabava na divisa do Espírito Santo com a Bahia, mais precisamente na cidade de São Mateus. Eram ao todo 77 concessionárias que tínhamos como função visitar e dar assistência, tanto técnica quanto administrativa.

Minha vida, em resumo, era estrada, concessionária, hotel, e depois outra visita, o roteiro não mudava, estrada, concessionária, hotel…

Em agosto de 1972 conheci aquela que viria a ser minha mulher, a esposa que esperava um paulista chegar ao Rio de Janeiro e por ele se apaixonar. Foi realmente um achado e, modéstia à parte, de ambos os lados — uma união já dura 44 anos.

Casamo-nos no Rio de Janeiro, cidade onde a Lúcia nasceu, e para não decepcionar ninguém, amigos cariocas e paulistas, havíamos feito duas festas de noivado, uma no Rio e outra, em São Paulo.

Tudo isto já era 1973, casamento foi em outubro.

Tudo pronto, não vou entrar nos detalhes do casamento, mas vou lhes contar o que ocorreu durante a viagem de lua-de-mel.

Programação feita, roteiro democraticamente selecionado, hotéis reservados e certidão de casamento provisória à mão. “O que é isto?” o leitor pode se perguntar. É que naquela época era pedida comprovação de que a mulher que acompanhava o viajante era, de fato, sua esposa, vários (bons) hotéis tinham essa exigência. Veja a reprodução da certidão provisória abaixo:

A democracia que imperava entre nós, recém-casados, era bem diferente daquela que o país experimentava com o regime militar em plena vigência, regime que talvez você não tenha vivido, mas que tomou conhecimento ao estudar a História do nosso Brasil.

 

Roteiro

Saímos do Rio com pernoite programado em São Paulo. Para quem estava acostumado a rodar mais de 5.000 km por mês, uma vinda a São Paulo era um agradável passeio, com uma grande diferença agora, tinha companhia e estava em lua-de-mel.

De São Paulo fomos para Curitiba e em cada uma das capitais tínhamos programado alguns dias de estada para realizar passeios turísticos e aproveitar ao máximo aquela nova vida.

Ponte levadiça sobre o rio Guaíba, no Rio Grande do Sul

Até agora não comentei, mas você já deve ter-se perguntado, “Será que ele vai contar toda a viagem da sua lua-de-mel? O que será que virá que justifique o título dado a esta história?”

Então vamos lá. De Curitiba seguimos para Foz do Iguaçu, Florianópolis, Porto Alegre e deixamos por último o famoso e lindo Balneário de Camboriú e, lógico, como descendente de alemães não poderia deixar de levar minha esposa para conhecer duas das mais alemãs das cidades do Brasil, Blumenau e Joinville.

Já tínhamos rodado mais de 3.000 km, fotos então nem se fala quantas tiramos, e não eram digitais, a ansiedade por revelá-las era muito grande (e o custo também era).

Sim, tudo isto de carro, e que carro seria este? Aí vem a razão do título desta história, era um VW TL duas-portas de cor azul Pavão, meu carro de serviço. Carro confortável, seguro, econômico para a época e tudo de bom com ele e conosco também.

Como estávamos em pleno regime militar, encontramos ao longo desta grande viagem muitos comboios do Exército, mas nenhum problema de segurança. Havia algumas blitze no caminho, mas os educados soldados pareciam saber distinguir quem era do bem ou do mal. A perseguição para quem se lembra era aos homens de cabelos compridos e barbudos, na época símbolo dos terroristas, ou seja, os antigoverno. Mas, vamos deixar a política de lado que este não é nosso tema.

Saímos de Blumenau numa manhã espetacular, muito sol e uma temperatura agradável. O destino era o Balneário de Camboriú, onde tínhamos feito uma reserva de mais dias, uma vez que a minha mulher, carioca, precisava recarregar suas baterias tomando banho de mar e muito sol. O hotel escolhido foi o Marambaia Cassino Hotel, que existe até hoje.

O bom mesmo foi ao nos dirigirmos à recepção para pagar a conta: surpresa, nada tínhamos a pagar. Sabíamos, mas não foi proposital, que o hotel pertencia ao tio da minha mulher, cunhado da minha sogra. Havia na recepção uma carta a nós dirigida dando-nos ciência de que a estada era o seu presente de casamento. Ele estava em viagem ao exterior.

Mas, voltemos ao TL e a viagem Blumenau-Balneário de Camboriú, pouco mais de 60 quilômetros. De repente, depois de rodarmos uns 20 quilômetro, vemos uma grande blitz à nossa frente, só que desta vez não nos mandaram seguir e deram ordem de parada. Encostamos e soldados, uns três ou quatro, vieram em nossa direção.

Um chegou ao meu lado e pediu documentos, os outros educadamente pediram para que a minha mulher descesse do carro porque eles teriam que fazer uma completa vistoria — na época estavam à procura de armas, não drogas.

Fiquei muito preocupado com a nossa segurança, pois os militares eram jovens que tinham seguramente entrado para o Exército há poucos dias. Percebia-se que eles estavam inseguros, até preocupados em como segurar suas pesadas armas.

Documentação em ordem, me foi devolvida, fiquei em pé no acostamento bem ao lado da minha mulher enquanto os jovens militares faziam a varredura no interior do veículo.

O que vou contar agora, espero que não seja motivo de risos, mas um dos “meninos” perguntou ao outro, “onde fica o motor deste carro? Abri o capô do motor e só achei malas.” O outro respondeu, “aqui atrás não é, abri o porta-malas e só encontrei o quê? Malas Onde será que está o motor desse carro???”

Os jovens não conheciam o TL. Gentilmente lhes mostrei onde estava o motor e depois de verem a vergonha pela qual haviam passado, agradeceram a nossa paciência e gentileza e nos desejaram boa viagem.

Isto foi mesmo incrível. Já imaginou o que poderia ter acontecido se uma arma daquelas devido ao nervosismo do “garoto” militar disparasse na nossa direção? Você não teria tomado conhecimento do acontecido porque seguramente a história “oficial” a ser apresentada seria outra.

Para quem acompanha há tempos os “reclames”, ou comerciais de tevê, da Volkswagen, pode se lembrar de um utilizando este mesmo argumento para o saudoso ator Rogério Cardoso (1937-2003) explicar que a Variant era um veículo de muita capacidade de bagagem, que em função do seu motor de construção plana tinha espaço para bagagem na frente e atrás.

Esta foi a nossa viagem de lua-de-mel, este foi o nosso carro, um TL azul Pavão que é mostrado em algumas fotos. O que não tenho — por razões óbvias — são fotos dos militares procurando armas em nosso carro.

De volta ao Rio de Janeiro, já estávamos em novembro e as férias haviam acabado. Fui para o escritório e minha mulher começou a cuidar das malas, roupas, da casa, etc.

Divertido mesmo foi contar o ocorrido aos amigos e parentes.

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusastas.
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Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

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