Dez dias após o início dos anos 1980 eu completava 11 anos de idade. Apenas alguns meses depois, naquele mesmo ano, com a indispensável ajuda do meu irmão Omar, eu já conseguia dirigir automóveis e motocicletas. Ao longo daquela década a paixão por automóveis aumentava exponencialmente à medida que o tempo passava. Na minha percepção, o tempo naqueles dias corria lentamente, os minutos no relógio pareciam ter mais do que 60 segundos e as tardes pareciam intermináveis.

Muitas dessas tardes, entre outras brincadeiras típicas da idade, eu passava no interior da Caravan Comodoro 1980 dourado Palha do meu pai, ouvindo rádio FM no TKR, simulando corridas, passeios e aventuras; ou lendo as revistas Quatro Rodas ou Motor 3, ávido pelos testes, comparativos e demais novidades; ou ainda ajudando o meu irmão a lavar seu impecável Chevette 1976 branco, com rodas de liga leve e para-brisa com faixa degradê.

Contudo, ao final da “década perdida”, denominação atribuída aos anos 1980, devido à estagnação econômica que abarcou o Brasil naquele período, o menino havia se transformado em praticamente um adulto, com Carteira Nacional de Habilitação, Título de Eleitor, Certificado de Reservista, Carteira de Trabalho, além de muitas outras responsabilidades. Em dez anos a vida se modificou profundamente. Não me importo muito se pela análise de alguns economistas e intelectuais, a década de 1980 foi considerada como “perdida” nas esferas políticas, sociais e artísticas, pois independente de perdas financeiras e dificuldades econômicas as quais quase todos nós passamos naquele período, nós sobrevivemos e para mim aqueles foram os anos os mais incríveis da minha vida.

Talvez todo esse cenário turbulento e fascinante que eu vivenciei durante aqueles anos tenha despertado em mim um forte vínculo afetivo com tudo que se refere àquela época, tais como músicas, filmes, seriados, brinquedos, estilo de vida e, especialmente, os carros e motocicletas.

Nesse sentido, o texto muito interessante “Esportivos de ‘verdade’”, do leitor Lucas de Biazzi Neves publicado no mês passado, despertou boas memórias daquela época e me inspirou a também escrever sobre os esportivos daquela década, porém, diferentemente do Biazzi, neste texto eu procurei explorar as versões esportivas do início da década de 1980, as quais não eram tão “esportivas” e muito menos “pocket’ rockets”, mas sim, na sua essência, versões com alterações estéticas e/ou pequenas modificações mecânicas, as quais deixavam os carros muito mais interessantes aos nossos sentidos.

Uma classe de carros, que mesmo não tão rápidos e/ou viscerais, ainda assim eram divertidos e agradavam aos olhos. Talvez tenha sido justamente devido às respectivas características desses esportivos, produzidos quando o presidente da República era o General João Baptista Figueiredo, que os tornaram tão sedutores ou até mesmo “cult” ao longo do tempo.

Dessa forma, plagiando, no bom sentido, o MAO (editor do AE) que escreve suas famosas listas de início de ano, elaborei uma lista com os “Dez melhores esportivos do início dos anos 1980”. Para isso, utilizei alguns critérios, como, por exemplo, que esses “esportivos” fossem derivados de modelos fabricados no Brasil ainda na década anterior (assim na lista ficaram excluídos os clássicos Escort XR3; Gol GT, GTS, GTi; Monza SR; Kadett GSi e Uno 1.5R e 1.6R); também considerei apenas os carros das quatro grandes fabricantes: Fiat, Ford, GM e VW — assim foram excluídos os modelos fora de série e de compósito de fibra de vidro.

Também só considerei o carros quatro-cilindros para deixar a lista mais equilibrada e, finalmente, o critério final, puramente subjetivo e passional: selecionei as versões que permaneceram por décadas como as minhas preferidas, independente do desempenho e valor de mercado.

Em tempo, a ordenação numérica da lista não é uma classificação, foi apenas um recurso cronológico para organizar os carros de cada marca. As fontes para os dados de desempenho e características técnicas foram obtidas em revistas especializadas da época e/ou sites. Então, para despertar discussões e paixões, segue a lista:

Fiat 147 Rallye 1980:  (foto de abertura) cilindrada de 1.294,7 cm³, movido a gasolina, 72 cv a 5.800 rpm, boa potência líquida auxiliada pelo carburador de corpo duplo Weber 34 e sistema de escapamento duplo. Pesando apenas 831 kg, apresentava desempenho de 0 a 100 km/h em 15,8 segundos e velocidade máxima de 144 km/h. O Fiat 147 GLS era 3 segundos mais lento nessa aceleração e 5 km/h menos veloz. Particularmente eu considero o primeiro Fiat 147 Rallye (1979) frente Brio e com faixas laterais pretas muito mais bonito do que o Rallye 1980 Europa.

Fiat 147 Racing 1982: configuração do motor idêntica ao do Fiat 147 Rally 1980, o baixo peso, apenas 831 kg ajudava no bom desempenho: com o 0-100 km/h em 16,1 segundos e velocidade máxima de 152 km/h, era mais rápido do que o Fiat 147 Top 1982 com mesmo motor do Racing, porém com carburador de corpo simples, ou seja, 0,5 segundo mais rápido na aceleração 0-100 km/h e 6 km/h mais veloz. O interior do Racing era muito bonito e as fotos da campanha do lançamento, muito interessantes.

Fiat Spazio TR (Touring Racing) 1984: configuração do motor idêntica ao do Fiat 147 Rallye 1980, fazia de 0 a 100 km/h em 15,9 segundos e velocidade máxima de 150 km/h. O desempenho do Spazio TR era inferior ao Fiat Spazio 1,3 álcool, atingia 100 km/h partindo da imobilidade 1,1 segundo mais lento e que apresentava velocidade máxima 10 km/h inferior ao TR. Seguindo a tradição dos pequenos Fiat esportivos, o TR tinha um belo volante e que combinava muito bem com o painel de instrumentos.

Fiat Oggi CSS (Comfort Super Sport) 1985: cilindrada de 1.415 cm³ álcool, com potência de 78 cv a 5.600 rpm, peso de 810 kg, fazia de 0 a 100 km/h em 15 segundos e velocidade máxima de 155 km/h. Em relação ao Oggi CS 1,3 1985 era 2,9 segundos mais rápido e 7 km/h mais veloz. Versão limitada, apenas 300 unidades, para permitir que o carro fosse homologado para o Campeonato de Marcas e Pilotos.

Opala SS-4 (Separate Seats ou Super Sport) 1980: motor 151-s de 4 cilindros a gasolina, cilindrada de 2.474 cm³, carburador de corpo duplo, 98 cv (bruta SAE) a 4.800 rpm, peso 1.204 kg, a aceleração de 0 a 100 km/h em 16,2 segundos e velocidade máxima de 150 km/h, desempenho levemente superior ao Opala com motor 151 do mesmo ano que era 0,8 segundo mais lento na aceleração e 3 km/h menos veloz.

Caravan SS-4 (Separate Seats ou Super Sport) 1980: configuração do motor idêntica a do Opala SS-4, peso 1.148 kg. Aceleração de 0 a 100 km/h em 17,6 segundos e velocidade máxima de 145 km/h. A versão Standard da perua era 2,4 segundos mais lenta na aceleração e 6,5 km/h menos veloz. A Caravan SS reúne qualidades raras nos dias atuais: wagon, câmbio manual, visual esportivo e muita personalidade. O ano de 1980 foi o último da fabricação das versões SS da linha Opala/Caravan, de acordo com as fontes da época, poucas unidades foram comercializadas no respectivo ano.

Chevette SR (Sport Racing) 1981: cilindrada de 1.599 cm³ com potência de 80 cv (bruta SAE) a 5.800 rpm, peso de 898 kg, fazia de 0 a 100 km/h em 16,5 segundos e velocidade máxima de 148,8 km/h. Em relação ao Chevette Hatch SL 1,4 1980 era 3 segundos mais rápido e 10 km/h mais veloz. A personalidade visual desse modelo do Chevette era um dos seus grandes atributos, bem como a tração traseira como nos outros esportivos da GM.

Corcel II GT (Gran Turismo) 1980: cilindrada de 1.555 cm³, gasolina, carburador de corpo duplo, com potência de 71 cv a 5.600 rpm, peso de 950 kg, desempenho de 0 a 100 km/h em 17,1 segundos e velocidade máxima de 146,6 km/h, desempenho igual ao Corcel LDO. Mesmo com desempenho igual ao LDO chamava a atenção pelas ruas.

Corcel Série Os Campeões 1983: cilindrada de 1.555 cm³, álcool, com potência de 69 cv a 4.800 rpm, peso 944 kg, desempenho de 0 a 100 km/h em 19,5 segundos, e velocidade máxima de 146 km/h. O desempenho idêntico ao Corcel II LDO 1983. De todos os carros da lista, a esportividade do Corcel da Série os Campeões era essencialmente estética.

Passat TS (Touring Sport) 1980: cilindrada de 1.588 cm³ com potência de 80 cv a 5.600 rpm, peso de 906 kg, fazia de 0 a 100 km/h em 16,3 segundos e velocidade máxima de 155,8 km/h, em relação ao Passat LS 1,5 era 2 segundos mais rápido e 11 km/h mais veloz. Sem dúvida, um esportivo que deixou saudades. Porém, em minha opinião, o visual da versão da década de oitenta é menos interessante do que a primeira de 1976.

(Foto: fugeti.word.press.com)

Com certeza eu ficaria muito feliz com apenas um ou todos esses dez automóveis em minha garagem, são modelos inesquecíveis independentemente da esportividade ou dos números de desempenho. A propósito, ao escrever sobre esses esportivos é impossível não se lembrar de que um dia todos os carros dessa lista foram protagonistas em nossas ruas e estradas, reinaram triunfantes como sinônimos de esportividade antes da chegada dos esportivos mais modernos ou aprimorados como Escort XR3; Gol GT, GTS, GTi; Monza SR; Kadett GSi e Uno 1.5R e 1.6R.

Hoje é cada vez mais raro encontrar esses esportivos que fizeram parte da nossa história de vida. Por outro lado, não é raro nos surpreendermos ao constatar que todos os modelos e versões citados nesse nessa lista atualmente são considerados Carros Antigos, afinal, contrariamente à década de 1980, o tempo passou rápido demais nos últimos 30 anos.

Marcelo Conte
Jundiaí – SP

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