Volta e meia a notícia de um automóvel antigo encontrado num celeiro corre a internet, os famosos “barn finds”, mas, e se o veículo antigo for encontrado no meio do mato, seria um “bush find”? E se for um trator raro? E se carregar o nome Porsche? E se tiver sido uma exclusividade para o Brasil? Pois bem, é tudo isto e mais um pouco.

Eu soube da existência deste trator em especial por uma reportagem sobre o XIX Encontro Nacional de Pick-ups, Trucks e Carros Antigos, em Águas de São Pedro, SP, realizado de 7 a 10 de setembro de 2017. Uma foto de um flamante Coffee Train P312, ano 1954, fabricado pela Allgaier-Porsche especialmente para o Brasil, não tinha como deixar de ser notada. Aí começou a busca por informações que levou ao nome de João dos Anjos Duarte, mais conhecido por João Tratores.

 


 

1º Momento Histórico

A Allgaier foi fundada em 1906 e produzia com sucesso peças de estamparia, bem como ferramentas para essa finalidade. Curiosamente, a Allgaier produziu no verão europeu de 1935, por encomenda da empresa de Porsche, várias peças estampadas em chapa para o protótipo V1 do “carro do povo”, fazendo com isto parte da evolução do Fusca!

Depois da Segunda Guerra Mundial, Erwin Allgaier, juntamente com seu irmão Oskar, proprietários da Allgaier, uma empresa familiar, tentaram sua sorte no mercado de tratores.

Maturando uma ideia de 1945, depois dos trabalhos de projeto, desenvolvimento e testes, surgiu o R 18, um robusto trator equipado com motor Diesel de um cilindro.

Um Allgaier R18, motor Diesel monocilindro — daí a necessidade do pesado volante (Fonte: fahrzeugseiten.de)

Depois do grande sucesso de vendas obtido na Feira da Sociedade Agrícola Alemã de 1950 — tradicionalmente realizada em Frankfurt, com mais de 15.000 encomendas, a sede da Allagaier passou a ocupar os galpões que tinham sido da fábrica de aviões Dornier, próximo ao Lago de Constança no sul da Alemanha, onde em setembro de 1951 começou a fabricação em série de seu sucesso de vendas, o modelo AP 17 – System Porsche“.

O Allgaier AP17 foi produzido sob licença da Porsche e também era conhecido como Porsche-Diesel AP17. Ele trazia muitas inovações técnicas, como motor Diesel bicilindro  arrefecido a ar, acoplamento motor-câmbio hidráulico, e construção leve.

Esse modelo foi precursor do P312, objeto desta matéria,  e no decorrer dela veremos, por exemplo, a semelhança do motor de dois cilindros arrefecido a ar, com a diferença do combustível, que passou de diesel para gasolina.

O AP 17, precursor do P312 (Fonte: Site Wikiboos.org)

Tanto a Porsche quanto a Allgaier tentou abocanhar o mercado brasileiro de tratores, inicialmente em incursões separadas, depois ambas as empresas juntaram esforços para desenvolver um trator customizado para as exigências do nosso mercado, em especial em plantações de café.

O trator tomado por base para o P312 foi o AP 17. Seu motor Diesel, que era derivado de um motor a gasolina, voltou a ser a gasolina no P312 (para não estragar a qualidade do café devido ao odor dos gases de escapamento do Diesel). O P312 recebeu uma vistosa carenagem para proteção tanto dos pés de café como dos tratoristas. Depois de estudos do tipo de solo a ser trabalhado, se definiu que o P312 receberia uma enxada rotativa como implemento, em que para o seu acionamento havia uma tomada de força na traseira do trator.

Como dito mais acima, o acoplamento motor-câmbio do P312 é hidráulico. Na matéria “Sua excelência o conversor de torque“, publicada há menos de um ano, há um desenho logo no começo que mostra as quatro peças básicas de um conversor de torque: o acoplamento hidráulico nada mais é que um conversor de torque sem o estator, o elemento encarregado de fazer a multiplicação de torque mediante alavancagem hidráulica. O sistema do P312 inclui uma embreagem destinada a separar o motor do câmbio que permite trocar marchas, que são cinco, já que o acoplamento hidráulico é permanente.

Para dirigir o trator, liga-se motor e com este em marca-lenta aperta-se a embreagem e engata-se a primeira, soltando-se o pedal, mas o trator não se move. Então acelera-se como se fosse um carro com câmbio automático epicíclico e o trator arranca. Para engatar outra marcha, aperta-se o pedal de embreagem e faz-se a troca.

É a mesma lógica do câmbio semiautomático Stick Shift de Fusca, com a diferença de que este tem conversor de torque e o desacoplar a embreagem é eletromagnético com sinal vindo de interruptor na base da alavanca de câmbio.

 


 

João Tratores

João dos Anjos Duarte, 48 anos, da cidade de São Carlos (SP), nasceu numa fazenda. Ele se envolveu com o conserto de tratores desde seus 15 anos de idade, pode-se dizer que ele foi criado no meio deles. Hoje ele possui uma empresa, a João Tratores. Ele trabalha tanto com tratores novos quanto com antigos, sendo que estes ocupam 80% dos trabalhos da empresa; ele tanto os restaura para venda quanto para clientes. Muitas vezes, colecionadores compram tratores que ele encontra e que ainda estão sem restauração e os deixam com o João para que “voltem à vida”. E esta é a grande especialidade do João. Ele mesmo tem quatro tratores de estimação, sua pequena coleção particular.

Num coberto de sua empresa ficam guardados os tratores, tanto os seus de coleção, quanto os que estão prontos e alguns esperando restauração.

Vista geral do coberto dos tratores: está cheio de máquinas das mais diferentes procedências, uma grande diversidade, o que torna o trabalho de suas recuperações mais complexo ainda (Foto: João Tratores)

Estes são os quatro de sua coleção particular (Fotos: João Tratores):

 

A diversidade de tratores que ele restaurou é incrível, e o colecionismo de tratores está em alta no Brasil. Ele tem uma grande experiência com estas máquinas, mas quando a coisa aperta ele procura se basear em outros tratores, conversa com pessoas de mais idade que vivenciaram a época destas máquinas, pesquisa em livros antigos e na internet.

Com o passar do tempo ele se tornou uma referência em matéria de tratores antigos e as pessoas passaram a dar dicas de onde estão tratores antigos, na maioria das vezes abandonados, e alguns deles são resgatados pelo João.

Uma das vitrines onde o João mostra as suas restaurações é exatamente nos encontros de Águas de São Pedro. Tanto que já existe uma expectativa para ver que “novidade” ele vai trazer para mostrar no próximo evento.

Por volta do dia 20 de março de 2017, o Pedro, um amigo do João da cidade de Cambé (PR), enviou uma foto de um trator para resgate que estava na cidade vizinha de Arapongas. De início o João não reconheceu o que era. Foi seu filho, o João Vítor, então com 17 anos, que é bom de marcas e já se interessa por tratores há algum tempo, que “descobriu” a origem nobre deste trator.

Abrindo um espaço para falar de pai e filho (foto abaixo), hoje em dia é raro o filho seguir o ofício do pai, mas o João Vítor se interessa por tratores desde os seus 10 anos de idade. Hoje ele trabalha com seu pai e foi graças ao interesse dele e seu amplo conhecimento de tratores de várias marcas que este resgate efetivamente veio a ocorrer.

Voltando para o P312

A primeira foto recebida na qual o para-lama traseiro (flecha vermelha) e a suspensão dianteira (flecha amarela) foram os indícios que levaram o João Vítor a descobrir que se tratava de um P312 (Foto: Pedro, de Cambé, PR)

Este P312 foi originalmente comprado usado em 1975 pelo Sr. José, em Maringá (PR). Ele veio rodando para Arapongas (64 quilômetros), pouco trabalhou e foi encostado, tendo sido coberto por uma lona. O tempo foi passando e o mato foi crescendo em volta e em cima dele. E o João acredita que se não tivesse sido a lona não teria sido possível resgatar este trator e colocá-lo em funcionamento novamente.

Parece incrível, mas nas fotos que seguem, embaixo do mato está um P312 (Fotos do Pedro, de Cambé,  PR):

 

O resgate do que sobrou do trator foi difícil, pois ele já tinha sido tomado pelo mato e muitas peças, em especial de sua peculiar carenagem, já não existiam mais, certamente devido ao calor ao qual o tratorista era submetido pela carenagem original que por isso acabava sendo descartada pelos usuários.

 


 

2º Momento Histórico

Por outro lado, sem a carenagem, estes tratores já não eram mais adequados para trabalhar entre os pés de café ou abrindo caminho no mato fechado, como era a sua função de projeto. Conforme mostram as fotos de uma das páginas do livro “Porsche-Schlepper-1937-1966” (Tratores Porsche – 1937-1966) escrito por Armin Bauer, editora Schwungrad, cópia do capítulo referente ao P312 recebida do Arquivo Histórico da Dr. Ing. h.c. F. Porsche AG:

A legendas das fotos dizia: “No Brasil este trator com uma enxada rotativa acoplada foi utilizado sob as mais difíceis condições” (Fonte: livro “Porsche-Schlepper-1937-1966”)

O risco de se ser atingido por galhos, dado o tipo de serviço que estes tratores realizavam, era muito grande, tanto que havia uma versão que tinha uma grade acima da borda superior da carenagem do habitáculo, aliás como é mostrado no P312 da esquerda na foto abaixo:

Duas versões do P312, uma com a grade adicional de proteção, à esquerda, e a outra sem, como a do P312 do João (Foto: Pinterest)

 


 

O sr. José

Vamos conhecer o Sr. José, o proprietário anterior deste P312:

Este é o Sr. José que vendeu o que sobrou do P312 para o João, trabalhando na liberação do trator do mato; à direita da foto vê-se o que restou da lona que cobria o trator (Foto: Pedro, de Cambé, PR)

 

Mais algumas fotos do resgate deste P312 do mato (Fotos do Pedro, de Cambé, PR):

 

Incrível; apesar de tantos anos de abandono, a manivela de dar partida manual no trator (neste caso com uma haste bem longa para atingir o encaixe na polia do virabrequim) ainda repousava sobre o banco do tratorista!

Agora se consegue reconhecer um trator, e o detalhe da manivela para dar arranque manual é incrível (Foto: Pedro, de Cambé, PR)

O trator estava com rodas de Fusca aro 15 na dianteira, eram rodas aro 12 originalmente. Na foto abaixo o trator, já liberado do mato, está sobre o caminhão-plataforma, pronto para a viagem de 500 quilômetros até São Carlos (SP). Nesta foto não dá para reconhecer como o trator realmente era, o que se vê na foto é um trator aparentemente comum, como tantos outros. O P312 “nu” mostra a sua alma de um trator convencional, a carenagem é que faz toda a mística deste modelo, mas o “miolo” do P312 tem a tecnologia Porsche que era um diferenciador na época.

O P312 totalmente irreconhecível para leigos, pronto para ser transportado para São Carlos (SP) (Foto: Pedro, de Cambé, PR)

No dia 6 de abril de 2017 o que sobrou do P312 chegou à empresa do João e os trabalhos de levantamento de como o trator estava começaram.

Depois de uma boa lavada o P312 começou a mostrar os seus detalhes. Até a sua cor original, se bem que maltratada pelo tempo, reapareceu.

Apesar de ter sido recentemente resgatado da mata, muitos detalhes estavam milagrosamente preservados, como a bomba de gasolina, o distribuidor, a bobina, a capa da turbina de arrefecimento acionada diretamente pelo motor, o coletor de escapamento, o filtro de ar, o carburador, o sistema de direção, etc. (Foto: João Tratores)

 

Até o relê do dínamo de 12 V estava lá. Os pedais estavam íntegros, na foto o acelerador e o pedal de freio. Uma das luzes de freio teve que ser modelada, pois a original estava faltando. As rodas dianteiras originais tinham sido trocadas por rodas de Fusca, aro 15, mas isto foi revertido com rodas de aro 12, e com o miolo transplantado (Foto: João Tratores)

 

A carenagem das rodas traseiras, bem como as outras peças da carenagem do trator, tinham se perdido e tiveram que ser refeitas (a tampa do motor foi encontrada como veremos adiante). Mas estas fotos mostram os detalhes que sobreviveram, embaixo de uma lona, e cobertos por mata cerrada (Foto: João Tratores)

A grande surpresa foi o motor. O João tirou o cabeçote e os pistões e, simplesmente, fez uma boa limpeza. Ele conseguiu um reparo correspondente para a bomba de gasolina (!) e, com o auxílio da manivela de partida manual (pois o motor de partida ainda não tinha sido revisado, mas uma bateria foi instalada — sem ela, para alimentar a ignição, o motor não parte) o motor pegou e funcionou redondinho. O filtro de ar estava bom, foi necessária somente uma boa limpeza. Depois o dínamo e o motor de arranque foram limpos com todo o cuidado, o João não se atreveu a trocar peças nestes componentes, mas eles estão funcionando a contento.

O motor a gasolina do P312 é baseado no motor a Diesel do AP17, e nas fotos abaixo se pode ver sua semelhança com o motor do AP17 que pode ser visto na sua foto no 1º Momento histórico:

 

Os trabalhos com o motor, aqui com sua tampa aberta e o eixo de balancins desmontado. O cilindro abaixo do tanque é um filtro de gasolina que pode ser retirado para limpeza através da tampa do tanque. Olhando de relance lembra uma metade de um motor de Fusca, o DNA Porsche está presente. Tanto o distribuidor, a bobina e a bomba de gasolina aparecem nesta foto (Foto: João Tratores)

 

Olhando do lado direito do motor, se destaca a carenagem da ventoinha que é acionada por uma engrenagem ligada à distribuição do motor. Abaixo do regulador de tensão do dínamo está a plaqueta de identificação deste trator, que veremos adiante (Foto: João Tratores)

 

Plaqueta de identificação do P312, indicando que ele foi fabricado na unidade de Friedrichshafen no Lago de Constança; esta plaqueta está num estado impecável. É difícil ler, mas o modelo é 1954. Um único deslize na tradução para o português: VAZIL em vez de VAZIO (Foto: João Tratores)

Com a parte mecânica sob controle foram iniciados os trabalhos de funilaria que neste caso foram um enorme desafio pela falta dos componentes da carenagem deste P312.

Mas, como o trator estava no Paraná, João acionou seus amigos de lá informando que ele precisava da lataria do trator Porsche e logo veio a surpresa: ele foi informado pelo Sivaldo (um farejador de peças raras) da existência de um capô jogado no meio de uma oficina de motos da cidade de Terra Rica (PR), pois seu dono pretendia fazer um triciclo utilizando este capô!

Como veremos adiante, este capô foi cortado na área próxima do habitáculo, possivelmente para melhorar a visibilidade dianteira do tratorista e a ventilação; esta peça recebeu um enxerto que a retornou às dimensões originais. O João viajou 600 quilômetros para buscar esta peça:

 

Encontrando uma agulha no palheiro, o João, à direita, e o Sivaldo seguram o troféu! O capô do P312 com os raríssimos letreiros “ALLGAIER” e “Porsche Design”, um grande achado na cidade de Terra Rica (PR) (Foto: João Trator)

Como a esperança é a última que morre, o João decidiu voltar para o local onde o P312 tinha estado por tantos anos, mais uma viagem, e esta de 500 quilômetros. Mas nada mais existia naquele local, onde, segundo o Sr. José, seu proprietário anterior, o trator foi parado e ali permaneceu por todos estes anos.

 

Este é o local onde o P312 ficou parado por muitos anos até que o mato acabou por cobri-lo; mas nada mais foi encontrado lá, frustrando as esperanças do João (Foto: João Tratores)

O João comentou o seguinte sobre a propriedade do Sr. José: “Aquilo lá é um ‘shopping para quem gosta de ferrugem’, tem caminhonete da década de 20, caminhão, bicicletas, Kombi, sem esquecer que o rancho está a cair por cima das coisas que ele abriga.” Se pode dizer que o Sr. José é um acumulador de coisas antigas.

 


 

Chegamos ao fim da Parte 1, e o suspense fica para a Parte 2 para descobrir como foi que a falta da carenagem tão especial foi contornada. Também vamos ter o 3º Momento Histórico com fotos incríveis e alguns fatos históricos muito interessantes. Vamos incluir um vídeo com o P312 do João rodando e sendo apresentado ao público! Ou seja, será uma parte muito especial desta matéria, não deixem de lê-la também.

AG

Registro aqui o agradecimento à senhora Sarah Pelters do departamento de atendimento ao público e à imprensa do Centro Histórico do Porsche Museum da Dr. Ing. h.c. F. Porsche AG., pelo envio de documentação sobre o P312; cópia do capítulo sobre este trator do livro “Porsche-Schlepper-1937-1966” (Tratores Porsche – 1937-1966) escrito por Armin Bauer, editora Schwungrad-Verlag.
Ressalto aqui o excelente trabalho conjunto com o João dos Anjos Duarte, que colaborou com as informações que eu fui solicitando para poder formular toda esta história. Este foi mais um trabalho tipo “voo cego” no qual o texto foi criado do zero, a partir de fotos que o João enviou e das perguntas que fui formulando no decorrer, inicialmente, da análise das fotos, depois da redação do boneco da matéria. Somando-se a introdução do conceito de “Momentos Históricos” que transmitem os conhecimentos necessários para ir entendendo o contexto do artigo.
Agradeço ao João e o parabenizo pelo que tem feito na preservação destas interessantes e pouco conhecidas máquinas.
NOTA: Nossos leitores são convidados a dar o seu parecer, fazer suas perguntas, sugerir material e, eventualmente, correções, etc. que poderão ser incluídos em eventual revisão deste trabalho.
Em alguns casos material pesquisado na internet, portanto em regra de domínio público, é utilizado neste trabalho com fins históricos/didáticos em conformidade com o espírito de preservação histórica que norteia este trabalho. No entanto, caso alguém se apresente como proprietário do material, independentemente de ter sido citado nos créditos ou não, e, mesmo tendo colocado à disposição num meio público, queira que créditos específicos sejam dados ou até mesmo que tal material seja retirado, solicitamos entrar em contato pelo e-mail alexander.gromow@autoentusiastas.com.br para que sejam tomadas as providências cabíveis. Não há nenhum intuito de infringir direitos ou auferir quaisquer lucros com este trabalho que não seja a função de registro histórico e sua divulgação aos interessados.
A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
(4.989 visualizações, 2 hoje)