Roberto Agresti recomenda:

Consegui colocar o pé na estrada, etapa fundamental quando se trata de avaliar um carro como este Aircross, cujas características o tornam plenamente digno da definição “carro familiar”.

Razoavelmente espaçoso, com um porta-malas bom (403 litros) e “altinho”, como muitos (e principalmente muitas) gostam, este Citroën tem versatilidade para ser o carro único de muitas famílias que não podem ou não querem ter mais de um veículo. E, fora isso, tem o por muitos apreciado visual aventureiro, exaltado pelos adereços off-road e ele, o estepe externo.

Capacidade do porta-malas é adequada: 403 litros

Lotar o porta-malas e colocar quatro adultos a bordo foi fácil, assim como determinar que para fins de teste o velho e bom percurso até o litoral norte paulista seria o ideal. Uma viagem que adicionou mais de 600 quilômetros ao hodômetro, feita em caminhos conhecidos e bem variados.

Nas boas rodovias do planalto, o Aircross mostrou a que veio seu novo câmbio de seis marchas, que a 120 km/h faz o motor girar a 3.000 rpm, mais do que o anterior de quatro marchas onde a rotação a esta velocidade era pouco menos de 2.500 rpm.

Soa estranho o câmbio com mais marchas resultar mais “curto”, o que na teoria pode ter como consequência maior consumo. Mas não foi isso o que aferi: no trecho plano e mais fluido da viagem a marca registrada foi de 15,1 km/l de gasolina, excelente considerando o carro estar lotado e o ar-condicionado ligado a pleno. No trecho final da viagem, incluindo a descida da serra e a zona litorânea da rodovia, tortuosa, acidentada e cheia de lombadas, a marca se reduziu a ainda bons 13,1 km/l.

Neste mesmíssimo trajeto realizado com um Aircross com o antigo câmbio AT8 de 4 marchas resultou em uma marca de consumo de 11,5 km/l, o que confirma a vocação para a economia de combustível do câmbio mais fracionado, apesar da rotação maior a 120 km/h.

Acontece que no antigo Aircross qualquer necessidade de desempenho exigia afundar mais o pé no acelerador. Agora, com mais marchas, as retomadas de velocidade acontecem com menor pressão no acelerador pois o câmbio não fica “dormindo” em 4ª, exigindo mais pé no acelerador para buscar a 3ª.

Mal se percebe, mas em velocidade  de cruzeiro, entre 100 e 120 km/h, o câmbio joga com 5ª e 6ª sem que seja preciso usar mais do que ¼ do acelerador e isso não só se traduz em menor consumo, como verificado, mas também em mais esperteza do monovolume disfarçado do suve da Citroën.

Foi impossível deixar de lembrar o que assisti pela tevê na última Indy 500, os pilotos alternando entre 6ª e 7ª na mesma volta em função do vento…

É claro que o Aircross ainda está longe de merecer o adjetivo de carro ágil, mas não é absolutamente borocochô como verifiquei na mais do que íngreme chegada à casa de praia (que de fato fica na montanha). A rampona (foto de abertura) meio terra, meio concreto, meio cascalho que de do nível do mar leva a mais de 100 metros de altitude em meros 700 metros de percurso —uma gradiente média de nada menos que 14%! — exigiu, claro, usar a plena potência do 1,6 litro que equipa o Aircross. Em nenhum instante a sensação foi de falta dela: basta apenas acelerar que ele vai.

Outros méritos do Aircross nestas condições de off-road brando vêm das suspensões de curso razoável, da boa altura em relação ao solo e dos ângulos de entrada e saída adequados, que fazem deste carro um modelo nada propenso a raspar suas partes no solo. Ah, e tem também os pneus Pirelli Scorpion ATR, que neste ambiente quase de off-road se mostram em casa…

Bom ângulo de entrada permite essa “proeza”

Passageiros do banco de trás elogiaram a sensação de amplitude oferecida pelo teto alto, todavia o encosto do banco poderia ser levemente mais reclinado ou, ideal, ter dois estágios de inclinação. O ângulo de abertura das portas traseiras também foi objeto de comentário por não ser exatamente generoso. Outro aspecto pouco feliz vem do inevitável contato com a panturrilha que o apêndice plástico aplicado na base das portas proporciona: se o carro estiver sujo, tal contato é inconveniente. Para evitar que a perna roce ali ao sair do carro é preciso dar um pulinho do banco direto ao solo.

Coisa de carro alto, é preciso lançar os pés direto ao solo para não sujar a calça

Mesmo não tendo controle de tração nem assistente de partida em subida, o Aircross fez bonito no piso íngreme de baixa aderência, conseguindo superar os aclives desnivelados sem perder tração. Outra qualidade nesta condição foi a maciez do sistema de direção, que em baixa velocidade é sempre fator positivo. No entanto, na rodovia em velocidades elevadas, o sistema dotado de assistência elétrica indexada à velocidade poderia ser ajustado de modo a oferecer mais firmeza pois, especialmente  nos trechos retos a 120 km/h, a precisão direcional seria beneficiada.

Para a volta a São Paulo, em vez da SP-99 rodovia dos Tamoios (Caraguatatuba-São José dos Campos) optei pela subida da Serra do Mar mais radical, a SP-125 rodovia Oswaldo Cruz (Ubatuba-Taubaté). No íngreme trecho de serra o Aircross se desvencilhou das rampas de modo razoável, mas exigiu uso intenso do câmbio em modo manual, ou seja, antecipando as reduções em vez de deixar a tarefa toda para o câmbio em modo automático. Mesmo assim, levando as rotações às alturas em muitas ocasiões, a média de consumo “porta a porta” (244 km dos quais ao menos 30 urbanos) foi de excelentes 13,3 km/l.

Números que não mentem!

Ao cabo desta viagem de quase quatro horas a “tripulação” estava satisfeita com o padrão de conforto oferecido pelo Aircross assim como o motorista idem com relação ao aspecto dinâmico. Não é certamente um carro ao qual possa ser aplicado um estilo esportivo na tocada, mas a sensação de segurança oferecida é razoável, assim como a resposta de itens como freios e direção. Apesar de alto, não é um carro que se dirige temendo a necessidade de uma rápida  mudança de trajetória e a direção “comunica” bem o que acontece entre pneus e o piso.

O Aircross sai desta viagem confirmando bons dotes rodoviários que se somam à boa impressão das semanas anteriores, quase 100% rodadas em trajetos urbanos. Agora o que falta é o clássico “gran finale” de nossos testes de 30 dias, a visita à Suspentécnica para a análise do especialista Alberto Trivellato.

RA

Veja os relatórios anteriores:  1ª semana  2ª semana

 

Citroën Aircross 1,6 Auto Shine

Dias: 21
Quilometragem total: 1.472 km
Distância na cidade: 822 km (56%)
Distância na estrada: 650 km (44%)
Consumo médio: 9,5 km/l (gasolina)
Melhor média: 17,2 km/l (gasolina)
Pior média: 5,8 km/l (gasolina)
Média horária: 33 km/h
Tempo ao volante: 44h46minutos

 

FICHA TÉCNICA NOVO CITROËN AIRCROSS 1,6 AUTO SHINE 2018
MOTOR
Denominação do motor 120 VTi Flex Start
Tpo de motor Otto, arrefecido a líquido, flex
Material do bloco/cabeçote Ferro fundido/alumínio
Nº de cilindros/disposição/posição Quatro/em linha/transversal
Diâmetro x curso (mm) 78,5 x 82
Cilindrada (cm³) 1.587
Taxa de compressão (:1) 12,5
Nº de com. de válvulas/localização Dois, no cabeçote; fase variável no de admissão
Acionamento dos comando de válvulas Correia dentada
Nº de válvulas por cilindro Quatro
Potência máxima (cv/rpm) (G/A) 115/118/5.750
Torque máximo (m·kgf/rpm) (G/A) 16,1/4.000 // 16,1/4.750
Formação de mistura Injeção no duto
SISTEMA ELÉTRICO
Tensão/alternador (V/A) 12/55
TRANSMISSÃO
Tipo Transeixo dianteiro automático Aisin de 6 marchas + ré, tração dianteira
Relações das marchas (:1) 1ª 4,044; 2ª 2,371; 3ª 1,556; 4ª 1,159; 5ª 0,852; 6ª 0,672; ré 2,455
Relação do diferencial (:1) 4,066
Relação do par de saída (:1) 1,104
SUSPENSÃO
Dianteira Independente, McPherson, braço triangular transversal, mola helicoidal, amortecedor pressurizado e barra estabilizadora
Traseira Eixo de torção, mola helicoidal, amortecedor pressurizado e barra estabilizadora integrada ao eixo
DIREÇÃO
Tipo Pinhão e cremalheira, assistência elétrica indexada à velocidade
Diâmetro do volante de direção (mm) 375
Diâmetro mínimo de curva n.d.
FREIOS
Dianteiros (Ø mm) Disco ventilado, 266
Traseiros (Ø mm) Tambor, 229
Operação Servoassistência a vácuo, ABS, EBD e assistência à frenagem de emergência
RODAS E PNEUS
Rodas Alumínio, 6Jx16
Pneus 205/60R16H (Pirelli Scorpion ATR)
CONSTRUÇÃO
Tipo Monobloco em ação, crossover, 4 portas, 5 lugares
DIMENSÕES (mm)
Comprimento 4.307
Largura sem espelhos 1.767
Altura 1.742
Entre-eixos 2.542
CAPACIDADES E PESOS
Compartimento de bagagem (L) 403 (1.500 com banco traseiro rebatido)
Tanque de combustível (L) 55
Peso em ordem de marcha (kg) 1.328
Carga útil (kg) 400
DESEMPENHO
Aceleração 0-100 km/h (s) n.d.
Velocidade máxima (km/h) n.d.
CONSUMO DE COMBUSTÍVEL INMETRO/PBVE
Cidade (km/l) (G/A) n.d.
Estrada (km/l) (G/A) n.d.
CÁLCULOS DE CÂMBIO
v/1000 em 6ª (km/h) 39,6
Rotação a 120 km/h em 6ª (rpm) 3.000
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
Intervalo de revisões/troca de óleo 1 ano ou 10.000 km
Garantia Três anos
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