Uma visita in memoriam à impressionante coleção de Fábio Steinbruch, que nos deixou prematuramente há cinco anos vitimado por um acidente de motocicleta.

Quase seis anos de um dia incrível, sábado, dia 24 de março de 2012, quando as portas da coleção particular “Automóveis no Brasil” se abriram para mim através do gentil convite do saudoso Fábio Steinbruch e permitiram uma visita a um dos acervos mais significativos do Brasil, de veículos em sua maioria nacionais, existentes até então; a quantidade de veículos desta coleção girava entre 230 e 250. As fotos abaixo são dos anfitriões da festa de comemoração do 51º aniversário do Fábio, completados 12 dias antes:

No hall de entrada das instalações onde ficava a coleção “Automóveis do Brasil”, numa parede um grafite com a caricatura do casal. O detalhe é o reticulado de fundo composto por Fuscas:

Grafite na entrada da coleção, e a mesa do bufê do almoço – uma suculenta feijoada (Foto: autor)

Na época, devido a questões de segurança, nomes e endereços era ocultos para manter a segurança desta coleção. Mas hoje em dia este acervo não existe mais naquele local, um grande galpão na rua Serra da Bocaina, 194, na zona leste.

Esta matéria será uma fotografia congelada no tempo, mas que mostrará algo que certamente deixará boquiabertos aqueles que não tiveram a oportunidade de conhecer aquela coleção.

No galpão havia uma oficina particular com pessoal e equipamento tanto para as complexas restaurações, como para realizar as manutenções rotineiras do acervo.

Um Alfa Romeo Alfetta recebendo um trato (Foto: autor)

Dois motores de Alfa Romeo na bancada (Foto: autor)

A coleção estava disposta em quatro salas, sendo uma delas um galpão gigantesco. A primeira ala visitada tinha ênfase para carros esportivos importados como Ferrari, Maserati, De Tomaso, Porsche, etc., além de alguns nacionais, como raríssimos Brasincas 4200 GT/Uirapuru.

Nesta ala se encontram raridades importados e nacionais, como um Uirapuru conversível (Foto: autor)

Na parede da direita desta sala havia dois grafites que serviram de pano de fundo para o lançamento de seus livros, um trabalho obviamente ligado aos carros da coleção; o Willys Interlagos berlineta amarelo, da foto superior, permite descobrir a localização destes grafites nesta sala.

Alguns dos esportivos nacionais e importados (Foto: autor)

Os raríssimos Uirapuru, sendo um deles conversível (Foto: autor)

A próxima sala é um gigantesco galpão com mais de uma centena de automóveis, em sua maioria nacionais, dispostos em quatro fileiras longitudinais e duas transversais. Uma visão em panorama deste galpão pode ser vista na foto de abertura desta matéria; no centro desta foto, de costas o Fábio, que conversava com o desenhista Anísio Campos e sua esposa Anna.

Nos corredores deste grande galpão os carros estão dispostos deixando entre si dois corredores longitudinais e dois transversais que permitiam a circulação dos veículos no interior do galpão – eram visões inacreditáveis!!!

As longas fileiras de carros foram separadas, dentro do possível, por sua marca (Foto: autor)

Do outro lado do corredor uma quantidade semelhante de carros (Foto: autor)

Entre as fileiras centrais havia um espaço que permitia a passagem para admirar detalhes das partes traseiras dos carros (Foto: autor)

Este era o segundo corredor, com seus exemplares magníficos (Foto: autor)

Destaque para veículos Volkswagen da coleção dispostos nesta fileira (Foto: autor)

Entre todos este automóveis a Gurgel Motores S.A. estava presente também com  uma grande raridade: um Motomachine.

A coleção Automóveis no Brasil tinha espaço para raridades como este Gurgel Motomachine, carro urbano feito quando a empresa já estava prestes a falir (Foto: autor)

 

Indo adiante chega-se a uma sala dedicada aos utilitários brasileiros onde se destacam exemplares da Kombi Série Prata e a comemorativa dos 50 Anos de Kombi no Brasil, e uma outra a seu lado comemorativa dos 50 anos de Kombi.

Entrada da ala dos utilitários, ao centro a Kombi Série Prata que marcou o encerramento da produção de motores VW boxer arrefecidos a ar no mundo (Foto: autor)

Na última ala encontram-se mais algumas raridades incluindo dois SP2 e um Karmann-Ghia TC.

Esta sala fecha a área da coleção com mais um grupo de raridades; ao fundo dois SP2 e um Karmann-Ghia TC – mas observe ao fundo, através da porta, o teto de um carro vermelho (Foto: autor)

Este é o carro cujo teto se via no fundo da foto anterior, um FNM 2150 timb; tudo começou com este carro, com ele o Fábio participou de várias competições (Foto: autor)

 

O Fábio conhecia muitas pessoas do meio esportivo de corridas de automóvel e do antigomobilismo, ele era uma unanimidade nestes meios, e isto de várias gerações, como bem exemplifica a foto abaixo, tirada durante o almoço de aniversário oferecido aos seus amigos.

Da esquerda para a direita: Og Pozzoli, Bob Sharp, em pé a Fabiane Steinbruch, Anna Anapana Martins Ferreira, mulher do Anísio Campos que estava a seu lado, Bird Clemente e sua esposa Maria Luiza Clemente (Foto: autor)

 

Fiz um vídeo da visita, de 19 minutos, que permite a todos passearem comigo por este verdadeiro templo ao automóvel antigo. No vídeo pode-se ver detalhes de muitos dos carros desta coleção. Este vídeo foi gravado numa só passada pelo acervo que eu estava vendo pela primeira vez. Obviamente não é uma produção profissional e tem algumas “engasgadas” de minha autoria, mas hoje é mais um documento de grande valor histórico.

Fazer um levantamento completo do acervo desta coleção seria um trabalho bastante longo, mas certamente teria valido a pena, mas naquela oportunidade não houve tempo para isso e depois não havia mais como fazê-lo. Em todo caso, quem tiver interesse pode ver as fotos que fiz naquele dia neste álbum do Flickr.

O Fábio Steinbruch tinha grandes planos para esta coleção. Ele chegou a construir um galpão em Águas de Lindoia (SP) especialmente para alojá-la, mas não teve tempo para fazer a transferência da coleção para lá.

Hoje em dia, como eu já disse, esta reportagem recupera somente aquele momento, já que com o falecimento do Fábio o futuro deste acervo ainda é incerto. Após do falecimento do Fábio, seu irmão Leo assumiu a coleção.

O acidente do Fábio foi no domingo dia 2 de dezembro de 2012, quando o Fábio estava curtindo sua motocicleta Moto Guzzi de coleção que teve um pneu dianteiro estourado, segundo as informações da perícia. Ele caiu e, mesmo com a fratura numa clavícula, ainda teve tempo de acionar o socorro. Mas a contusão havia perfurado uma artéria toráxica e ele não resistiu à hemorragia interna que silenciosamente se seguiu, vindo a falecer pouco depois de chegar ao hospital.

O Fábio costumava curtir seus carros e motos de coleção. Tanto que ele deixava programada a saída com um determinado veículo e os mecânicos o deixavam preparado. Só que neste infausto caso o problema foi um pneu bem velho, fora de validade, que acabou estourando.

Aqui faço uma singela homenagem póstuma ao saudoso amigo Fábio Steinbruch e coloco abaixo um vídeo da cerimônia israelita do desvelar a Matzseiva, que é a lápide da sepultura, ocorrida no dia 02/06/2013, seis meses após a sua morte.

A viúva Fabiane convidou-me para a cerimônia. Ainda muito abalada, foi amparada durante o ato religioso pelo amigo comum Og Pozzoli, que também nos deixou no dia 17 de novembro último. O ponto mais tocante da cerimônia foi quando a Fabiane recitou um lindo poema em homenagem ao marido:

Como áudio não está muito bom, publico o poema “Me dueles” do poeta mexicano Jaime Sabines, que Fabiane recitou:

ME DUELES

De Jaime Sabines
 
Me dueles.
Mansamente, insoportablemente, me dueles.
Toma mi cabeza, córtame el cuello.
Nada queda de mí después de este amor.

Entre los escombros de mi alma búscame,
escúchame.
En algún sitio mi voz, sobreviviente, llama,
pide tu asombro,
tu iluminado silencio.

Atravesando muros, atmósferas, edades,
tu rostro (tu rostro que parece que fuera cierto)
viene desde la muerte, desde antes
del primer día que despertara al mundo.

¡Qué claridad tu rostro, qué ternura
de luz ensimismada,
qué dibujo de miel sobre hojas de agua!

Amo tus ojos, amo, amo tus ojos.
Soy como el hijo de tus ojos,
como una gota de tus ojos soy.
Levántame. De entre tus pies levántame, recógeme,
del suelo, de la sombra que pisas,
del rincón de tu cuarto que nunca ves en sueños.
Levántame. Porque he caído de tus manos
y quiero vivir, vivir, vivir.

 

Aqui termina este tributo à memória do Fábio Steinbruch, que além de colecionador e importante executivo de suas indústrias, também foi autor de livros sobre o antigomobilismo, um legado que permanece à disposição dos interessados por carros antigos.

Foram quatro livros:
• Automóveis no Brasil – Marcas que o tempo  não apaga
• Alguns aspectos da História do Automóvel no Brasil*
• Memórias Sobre Rodas – O automóvel no Brasil dos anos 1960*
• Memória Sobre Rodas – O automóvel no Brasil na virada da década de 1960 para 1970*

*Traduzidos para o inglês pelo nosso Bob Sharp, que cuidou também da revisão técnica de todos os livros. O Fábio e o Bob eram muito amigos.

Os livros são facilmente encontrados listados nas principais livrarias, basta entrar com o nome do autor, Fábio Steinbruch.

Como amante de carros antigos o meu desejo é que esta coleção tenha sido preservada e se torne de acesso público aos interessados, pois muitos certamente gostariam de continuar a admirar estes raros exemplares.

AG

A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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