Há pessoas de quem sempre nos lembramos, que deixaram uma marca em nós com tal intensidade que acabam se tornando inesquecíveis. Vem daí o título desta “Do fundo do baú”. Título que aproveitei, não escondo, da revista Seleções do Reader’s Digest, quem nasceu nos anos 40 ou 50 deve têla lido bastante. “Meu tipo inesquecível” (My most unforgettable character) era uma de suas várias e ótimas seções.

O meu tipo inesquecível é um alemão com quem convivi por oito anos como colega de trabalho — 1972 a1980 — no Escritório Regional do Rio de Janeiro, da Volkswagen do Brasil. Um grande profissional, sério, competente e muito responsável, sobretudo um grande colega. Seu nome: Adolf Grosse (no círculo da foto de abertura).

Foi a ele que fui encaminhado pela recepcionista ao chegar para me apresentar no primeiro dia de trabalho no Escritório Regional que ficava num prédio de escritórios bem no Centro da cidade — na “cidade”, velho hábito carioca de assim chamar o Centro, havia até placas do Touring Club do Brasil assim indicando. Eu encontraria o supervisor de Assistência Técnica, que seria a quem eu deveria me reportar. Ou seja, meu chefe.

A primeira impressão, posso afirmar, não foi lá o que se pode chamar de positiva. Dei de cara com um alemão nos seus 40 anos, com fortíssimo sotaque, e que ali estava — eu logo saberia — por indicação da Diretoria da VW, de São Bernardo do Campo. Ele era há muitos anos o responsável pelo atendimento a Clientes, supervisão e suporte técnico às concessionárias do Rio de Janeiro, uma vez que o interior do estado e o Espírito Santo eram cobertos por representantes lotados na sede da fábrica.

Eu atuava na região do Paraná e Santa Catarina até dezembro de 1971 quando a fábrica decidiu criar vários escritórios regionais nas principais capitais. Eu teria, obrigatoriamente, que me transferir para um dos escritórios regionais e pude escolher qual. Decidi-me pelo do Rio de Janeiro por ser solteiro, ter carro (de serviço), bom salário e moto; o que me faltava, prefiro não comentar. Tinha 24 anos.

No primeiro encontro com o Sr. Grosse conversamos demoradamente sobre nossa atividade, como deveríamos somar nossos conhecimentos e de como melhor aproveitarmos nosso tempo com tanto serviço à vista.

Eis que por volta das 10h30, ao bom estilo germânico que eu conhecia bem por ser filho de alemães, ele abre uma gaveta, puxa de lá uma trouxa feita com um guardanapo, abre-a e de lá sai um belo sanduíche de queijo com pão preto. Sem a menor cerimônia. Oferecer? Que nada, comeu tudo sozinho e, para não incomodá-lo no seu ritual, fui à copa tomar o meu cafezinho. Que início!

Assim se passaram os primeiros dias. Até que estávamos nos entendendo muito bem e eu já pressentia que aquele seria o início de uma boa parceria. Só não sabia que a parceria se transformaria numa grande amizade.

O nosso chefe na Assistência Técnica era o experiente Wolfgang Schuette, um dos melhores representantes em Assistência Técnica de São Paulo que viera promovido para o Rio de Janeiro com a responsabilidade de administrar nossa área.

Seis representantes, um supervisor e um chefe de seção, era a nossa estrutura. Bem semelhante à que havia sido montada para a área de Vendas de veículos e peças, tudo isto administrado pelo Gerente Regional, o saudoso Miguel Carlos Barone — ou simplesmente Barone, como era chamado.

O Sr. Grosse, que com o passar do tempo perdeu o “Sr.” para mim, era o supervisor de assistência técnica, como visto acima. Coordenava as atividades dos representantes de campo e fazia no escritório o primeiro atendimento a clientes em caso de reclamação.

Funcionávamos todos como um relógio, engrenagens bem lubrificadas sem roncos ou ruídos.

O escritório no centro da cidade logo ficou pequeno, nos mudamos para uma excelente casa no bairro de Botafogo, na rua Dona. Mariana nº 56. Só na parte de trás da casa havia espaço para estacionar 12 a 15 carros. Salas amplas até com varanda.

A casa, soube-se, pertencera ao Banco Alemão no período anterior ao da Segunda Guerra Mundial, era a residência de seu presidente. Quando o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália, em agosto de 1942, o bens do banco foram confiscados.

Havia uma recepcionista, a Erika, que atendia e encaminhava os clientes à sala do Grosse para que ele prestasse o primeiro atendimento e depois se fazia o agendamento para que nós, no campo, resolvêssemos a causa da reclamação.

 

Mudanças à vista

O Wolfgang Schuette foi transferido para a chefia do Departamento de Vendas, sua cadeira estava vaga. Quem seria promovido?

A resposta natural, todos tinham na ponta da língua: o mais antigo do escritório, muito capaz como já havia demonstrado por vários anos. Havia chegado a vez do Grosse, promoção mais do que merecida. Eu estava no Espírito Santo quando soube das mudanças internas no escritório. Estava curioso por notícias e, nada. Ninguém sabia de nada.

Voltei ao Rio e nada de novo, o Schuette acumulava as duas funções, Vendas e, interinamente, Assistência Técnica.

Um dia fui chamado para uma reunião com o Schuette na sala do Gerente Regional, o Barone. Foi quando eu soube que o Grosse havia sido indicado, para a sucessão do Schuette, como prevíamos, mas havia declinado. Ela não queria aquela responsabilidade, pois se sentia muito confortável e satisfeito com a sua atividade, a explicação que dera.

O Barone então me perguntou se eu queria assumir a chefia regional da Assistência Técnica em substituição ao Schuette, fora ele próprio que me indicara para sua sucessão diante da recusa do Grosse. Sem pestanejar disse que sim e que ficava muito honrado com a indicação e prometia não decepcioná-los.

“Como você responde assim, sem ao menos pensar?” — perguntou-me o Barone.

Disse-lhe que este pensamento estava “maduro” na minha cabeça e eu me sentia capaz de desempenhar esta função e suas responsabilidades. Ele ainda me avisou esta promoção não teria retorno, gostou, ficou; não gostou, não tem como voltar a ser representante no campo. E assim fui promovido, e o meu superbraço direito não podia ser outro: Adolf Grosse.

Como sempre, um excelente profissional, cumpridor dos seus deveres e tão germânico que até brincadeiras com relação a horário de trabalho eram feitas.

Dizia-se que ao assinar um documento por volta das 17h00, ele com a caneta na mão já havia escrito ‘Adolf’, e que ao tocar o sinal do fim de expediente ele largava a caneta e completava sua assinatura na manhã seguinte, rigorosamente às 8h00, quando oficialmente iniciava-se a jornada de trabalho do escritório. Lógico que isto não é verdade, mas vindo de um autêntico alemão seria bem possível.

Lembro-me da maneira de ele desejar bom fim de semana às sextas-feiras, quando dizia “Bom fim da semana”…

A nossa parceria e amizade só se fortaleceu, tanto que até hoje, passados 46 anos, mantemos contato.

O Bob Sharp conheceu o Grosse bem antes de mim. Quando seu pai comprou o primeiro Fusca em 1953, precisou frequentar o Serviço Autorizado VW Rio Motor, em Botafogo. Era o início da então desconhecida marca no Brasil e a firma tinha como sócios Friedrich Wilhelm Schultz-Wenk, presidente da VW do Brasil e os compatriotas Adolf Bernstein e Harald Gessner, além do brasileiro Euclides de Brito. Havia dois técnicos “importados” da Alemanha, o Buby Kissman e o Adolf Grosse, que tinha apenas 20 anos. Ele era o responsável pela seção de motor e transmissão da oficina da oficina autorizada (havia outra firma dos mesmo sócios, só para vendas, chamada Auto Industrial, perto da Rio Motor). O Bob me disse que era comum ver o Grosse sentado numa cadeira dentro da seção de motores calçando sandálias devido ao calor da cidade. O Bob tinha 11 anos então e sempre ia com seu irmão Rony à Rio Motor sempre que o pai levava o carro lá. Curiosamente, o Grosse nasceu no dia 26 de maio, o mesmo do lançamento da pedra fundamental da construção da fábrica do Volkswagen na cidade então chamada Fallersleben, exatamente cinco anos depois — o Grosse nasceu em 1933 e a cerimônia em Fallersleben, em 1938.

Grosse teve em sua vida pessoal a perda da esposa, mas encontrou outra companheira, a Amélia, que também enviuvara, com quem está casado há muitos anos.

Continua no Rio de Janeiro, mora no Leblon e tem uma casa em Itacoatiara, município da Região Metropolitana de Niterói que tem famosa e bela praia. Seu hobby sempre foi lanchas, teve uma sensacional por ele mesmo construída, em madeira com motor Chevrolet 6-cilindros da época. Seus dois filhos do primeiro casamento moram na Alemanha, sua primeira esposa foi por muitos anos alta funcionária da Lufthansa.

Com esta homenagem quero agradecer a ele por todos os ensinamentos que me passou, para toda nossa equipe, às vezes broncas bem dadas e, para matar saudade, vai uma foto de quando nossa equipe recebeu o troféu itinerante de campeã no desafio do Melhor Escritório Regional em assistência técnica, resultado este medido pelo ISC (Índice de Satisfação do Cliente) das concessionárias da região.

A equipe de assistência técnica do escritório regional com o troféu itinerante que orgulhosamente estou segurando; o Adolf Grosse é o último à direita em segundo plano (Foto: acervo pessoal do autor)

Grosse, hoje com seus 84 anos, merece esta modesta homenagem e que se conserve com muita saúde e paz. Não conheci ninguém no escritório regional tão querido e respeitado por todos colegas de trabalho e concessionários, isto é o resultado de uma conduta irrepreensível em toda sua carreira.

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente o opinião do AUTOentusiastas.
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Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

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