Como muitos sabem, Henry Ford foi meu “patrão espiritual”, já que faleceu em 1947 aos 83 anos, quando eu tinha apenas 1 ano e meio. Todavia, seus ensinamentos, aprendidos nos meus 40 anos de Ford, permanecem mais vivos do que nunca.

Henry Ford, empresário e inventor americano, fundou a Ford Motor Company em 1903, revolucionou a indústria automobilística americana com o sistema de produção em série com linha de montagem móvel, imortalizando o Ford  modelo T lançado em 1908 e transformando-o num ícone mundial.

Também era filósofo e ficou conhecido por suas frases de efeito didático, envolvendo o dia a dia das pessoas e dos meios empresariais. Henry Ford era chamado de “O Patrão” pelos seus funcionários, que o viam como personalidade marcante e genial. Sua fama não veio de graça e sim de sua capacidade de gerenciamento de seus negócios incluindo o bom trato com seus funcionários.

Dizia ele:

“Pensar é o trabalho mais difícil que existe e talvez por isso, tão poucos se dediquem a ele”.

“O insucesso é apenas uma oportunidade para um melhor recomeço”.

“Corte sua própria lenha. Assim, ela aquecerá você duas vezes”.

“Obstáculos aparecem quando desviamos os olhos de nossas metas”.

“Reformador nocivo é aquele que estraçalha a camisa só porque o botão do colarinho não entra na casa”.

“Não há maior absurdo do que pretender a igualdade entre as pessoas, pois a natureza as faz desiguais”.

Henry Ford, filho de uma família de fazendeiros, nasceu dia 30 de julho de 1863, onde hoje é a cidade de Dearborn, estado de Michigan, nos Estados Unidos. Dearborn é vizinha a Detroit.

Com alma de mecânico, educou-se a si mesmo praticando e fazendo com suas próprias mãos. Cultivou desde cedo o desejo por entender o funcionamento de equipamentos e máquinas, fazendo da oficina seu mundo à parte.

Quando a mãe faleceu em 1879, recusou-se a assumir a fazenda da família e, em vez disso, começou a trabalhar como aprendiz de mecânico em Detroit, então fervilhando de fábricas, onde mais tarde seria conhecida como a capital automobilística dos Estados Unidos.

Aos 23 anos , Henry Ford admirava com saudável inveja aquela máquina inovadora criada por Karl Benz em 1886, o primeiro automóvel da era moderna.

O Benz Patent Motorwagen de 1886, o primeiro

A partir de 1891 o destino mudou completamente a sua vida. Ford conheceu o gênio inventor Thomas Alva Edison, trabalhando em sua companhia, a Edison Illuminating Company, onde fez carreira meteórica, atingindo o alto posto de engenheiro-chefe. Foi este o grande impulso para que Henry Ford fizesse inúmeros experimentos e projetos em veículos automotores e então fundasse a sua própria fábrica de automóveis.

Thomas Alva Edison e um de seus inventos, a lâmpada elétrica.

A Ford Motor Company continha nos mínimos detalhes a alma de seu fundador, com soluções inteligentes e progressistas como a linha de montagem de seus veículos sequencial em série a partir de 1913. Este método especializava os operários em poucas funções para que eles pudessem exercê-las com qualidade e precisão, valorizando o produto. Como não havia o deslocamento dos trabalhadores além de suas áreas de atuação, o veículo ficava pronto em menos tempo, aumentando consideravelmente a produtividade.

Linha de montagem seriada e móvel do Ford modelo T

 

Submontagem das rodas

 

Guerra ao peso

“Excesso de peso nos automóveis é inútil e representa apenas um desperdício de energia”.

A diminuição do peso intrínseco aos seus automóveis era quase uma obsessão. Fazia pesquisas de novos materiais, como o aço vanádio, por exemplo, que permitiam peças resistentes e mais leves, melhorando a relação peso-potência do veículo, resultando em melhores acelerações e sensação de desempenho.

Exemplificava que uma das poucas aplicações onde o maior peso é necessário é o rolo compressor, pois sua função é  compactar o solo valendo-se de seu elevado peso.

Repudiava ouvir “aquele é um homem de peso” como significado de progresso, e inteligência.

 

Valorização do trabalho

“A lei natural é a lei do trabalho e somente por este caminho honesto haverá prosperidade em todos os meios”.

“Quando ganhamos nosso pão honestamente, temos o direito sagrado de possuí-lo. É o direito de cada um sobre a sua propriedade e que faz do roubo um crime”.

“Dinheiro e trabalho são sinônimos. Ganhar sem trabalhar, é tão nocivo quanto trabalhar sem ganhar”.

“Nada pior do que chegarmos a casa após um dia de trabalho e encontrarmos nossa lareira apagada por falta de carvão”.

Henry Ford fazia questão de valorizar a vida de seus funcionários: criou o sistema de participação dos lucros, edificou escolas técnicas, clinicas e hospitais sem qualquer auxilio governamental. Pagava maiores salários aos funcionários e desta maneira eles conseguiriam adquirir o veiculo que ajudaram a construir, gerando ambiente favorável ao crescimento dos negócios e a valorização da empresa, num verdadeiro círculo virtuoso.

O ponto mais alto da fabrica era a torre da caixa d’água (water tower) e lá era colocado, com muito orgulho, o nome ‘Ford’ em escrita cursiva (foto de abertura). Ainda hoje nas diversas fabricas da Ford Motor Company no mundo inteiro as torres são valorizadas, o “Oval Azul” colocado no mais alto destaque.

Torre da caixa d’água na fábrica da Ford em General Pacheco, Argentina, região da Grande Buenos Aires

Visão

Quando os Estados Unidos se encontravam em plena Depressão, desencadeada pela quebra da Bolsa de Nova York em 29 de outubro de 1929, negócios parados, desemprego em massa, num dos piores cenários imagináveis, com investimentos a zero, Henry Ford teve a coragem  de lançar um carro de baixo preço com motor V-8 em 1932. Era o que faltava para acordar o consumidor e, principalmente, a indústria. O homem comum tinha acesso a um carro cuja motorização era associada a veículos de alto preço.

O motor Ford V-8 flathead, de cabeçote plano, um fenômeno quando lançado em 1932

O patrão, mais uma vez, estava certo, e a Ford até hoje se beneficia desse ato pioneiro, com sua imagem indelevelmente associada ao motor V-8.

A mesma visão de Ford manifestou-se na expansão da empresa para outra regiões do mundo, como iniciar operações na Argentina em 1913 e no Brasil, em 1919.

Lenda urbana

Dizem que Henry Ford era antissemita e idolatrava Adolf Hitler. Conversa fiada, na realidade Henry Ford somente apreciava a maneira rígida de gerenciamento e produtividade das indústrias na Alemanha, que gerava orgulho, qualidade e função de primeira linha, incluindo obviamente os veículos automotores lá fabricados. Henry Ford abominava a supervalorização do dinheiro que os judeus mantinham como regra, às vezes em detrimento do produto, somente isso.

Hitler (e Ferdinand Porsche) admiravam Henry Ford, que lhes abriu as portas da fábrica  de River Rouge em 1937 para Porsche entender como devia ser uma fábrica de alta produção com vistas à construção da fábrica do carro do povo.

Não foi por acaso o vidro traseiro dividido e nem a roda de cinco parafusos do Volkswagen, ambas influências do Ford 1937.

Henry Ford deixou um legado positivo indiscutível na indústria e na sociedade  americana. Grande parte de sua fortuna é administrada pela Fundação Ford que continua investir em pesquisas científicas, em tecnologias e principalmente na área educacional.

Deixou como prática usual, abandonar os erros e valorizar os acertos de uma maneira contínua. Assim é, que as empresas do grupo Ford Motor Company, sem exceção, mantém os procedimentos e métodos, muitas vezes vindos de experimentações e que são atualizados passo a passo com as lições aprendidas no dia a dia.

Nos 40 anos em que trabalhei na engenharia da Ford posso afirmar que os procedimentos, os métodos e os processos são a base para um trabalho em equipe, com todos falando a mesma língua e gerando o melhor resultado.

A alma de Ford se mantém presente em todos os instantes como um guia e ainda hoje é venerado pelos funcionários da companhia, que continuam carinhosamente se referindo a Henry Ford como “O Velho Patrão”.

Na realidade esta matéria é uma total homenagem a este gênio da indústria que deixou um rastro de progresso para todo o sempre.

“O Velho Patrão” e sua obra- prima, o Ford modelo T

CM

Referências e créditos: Publicações de Henry Ford – “Minha Vida e Minha Obra”- “Hoje e Amanhã” – “Minha Filosofia da Indústria” – seriouswheels.com

(2.176 visualizações, 39 hoje)


  • Ivan Miotto

    Por favor, mais matérias inspiradoras como essa!

  • Mr. Car

    Meccia, se hoje “todo mundo” pode ter um carro, este cara colaborou muito para isto, e por isto…tem meu respeito, he, he! Um empreendedor, um visionário. Ousado a ponto de ser o mentor de uma história épica e absolutamente fascinante, a construção da Fordlândia, ainda que por vários motivos, esta ousadia tenha se tornado um fracasso. Eu tenho loucura para passear pelas ruínas daquele lugar como um arqueólogo escarafunchando o passado. Doloroso saber dos saques e depredações que ocorrem por ali. Você teve oportunidade de conhecer?
    Abraço.

  • ene

    Esta frase é específica para a grande maioria dos políticos do Brasil!
    “Quando ganhamos nosso pão honestamente, temos o direito sagrado de possuí-lo. É o direito de cada um sobre a sua propriedade e que faz do roubo um crime”.

    • Gosto muito dessa aqui também: “A lei natural é a lei do trabalho e somente por este caminho honesto haverá prosperidade em todos os meios”.

      O problema é que as pessoas insistem em fazer o contrário.

    • Lorenzo Frigerio

      Ao ler a frase, pensei não nos políticos, mas no Estado brasileiro.

  • Mr. Car

    Cerutti, me inclua totalmente fora desta turma, he, he! A minha turma abomina Marx.
    Abraço.

  • Belíssima matéria que vai entre o depoimento e a história contada por fatos. Não deixa de ser inspirador nesses dias tão conturbados e tão controversos. E, ainda mais legal, entender que o legado da indústria automobilística vai muito além dos carros.

  • Luiz Felipe Mello

    Baita matéria, e quão revolucionário foi Henry Ford. Onde quer que esteja, deve se orgulhar de suas criações, embora deva se revirar no túmulo algumas vezes ao observar os rumos de sua filial brasileira.

  • Lorenzo Frigerio

    Muito bom.

  • Lorenzo Frigerio

    Fale isso para a mão-de-obra brasileira típica…

  • Marcionilio, que bom ter noticias suas. Lembro-me da nossa entrevista quando você foi contratado para trabalhar na engenharia da Ford. Um grande abraço.

  • ene

    Pior são aqueles que odeiam o comunismo, mas amam a China.
    São os que odeiam a Coreia do Norte, odeiam Cuba, não sabem quem são os outros países comunistas, mas amam a China.
    Chegará o dia em que se arrependerão amargamente disso.

    • ene, não creio que se ame a China, mas que se a respeite. É um país comunista, mas acharam um caminho para se inserirem na economia mundial, o comuno-capitalismo.

      • ene

        Eles não estão apenas se inserindo na economia mundial, eles já estão perto de dominá-la. O risco é tê-la como dominante, e para sobrevivermos, seremos forçados a nos submeter aos seus caprichos.
        A ex-União Soviética surgiu para “libertar” os oprimidos e para dar de comer a quem tem fome e veja no que deu.
        Alimento a quem tem fome e agasalho para quem sente frio é um de meus lemas, mas contanto que o comunismo esteja fora disso.
        Abraços.

        • ene, o cenário hoje é diferente daqueles tempos.

  • RoadV8Runner

    Sempre achei estranho esse fato que começou a aparecer mais recentemente de que Henry Ford era a favor do nazismo e antissemita. Bom saber que isso não passa de lenda urbana, pois sempre tive grande admiração por ele.
    A contribuição de Henry Ford para a industrialização em geral foi inegável, mas não sabia que tinha também esse lado filosófico. E interessante notar que ele já pagava um salário melhor aos empregados, justamente para ter mão de obra de melhor qualidade. Tem uns por aí que até hoje não aprenderam isso e depois reclamam da alta rotatividade de funcionários em suas empresas…

    • Lorenzo Frigerio

      É verdade, mas às vezes os funcionários não são bons e o empregador acha que não é responsabilidade dele investir em treinamento de qualidade. É como um “sistema em equilíbrio”. Se a economia brasileira girasse mais, seria diferente, creio.

  • Renato Mendes Afonso

    Mas o erro não foi o Powershift em si, mas sim alguns componentes que prematuramente apresentavam problemas aliado a uma falta de instrução (por parte de concessionárias e do fabricante) do uso correto do cambio, principalmente em rampas.

    http://www.autoentusiastas.com.br/2017/12/a-embreagem-e-o-necessario-deslizamento/

    A alteração foi bem além do nome, agora se essa mudança convencerá ou não o mercado, só o tempo poderá dizer.