Muitas vezes escuto que eu não posso dizer isto ou aquilo em relação a crianças porque não tenho filhos. Minha resposta? Você também nunca foi presidente da República, mas isso não te impede de ir à rua pedir o impeachment de um ou apoiar outro, certo? Nem de opinar sobre o desempenho do mandatário. Nem de votar. Também nunca fui atriz nem dirigi um filme, mas posso achar “Velozes e Furiosos 5” um horror. Ou “Invictus” uma obra-prima, como de fato acho. Todo mundo opina sobre cinema, televisão, jornalismo, mas por algum motivo tem gente que acha que somente quem tem filho pode falar sobre educação de crianças mas dá palpite sobre todos os outros assuntos, desde futebol (embora nunca tenha jogado bola) até política econômica (embora nunca tenha administrado nada além da própria casa e às vezes nem sequer controle a conta bancária). Curioso é que só ouço em relação a filhos. Felizmente, cada vez menos.

Ainda assim, tenho muita experiência com crianças e gosto muito, muito delas. Sobrinhos, filhos de amigos, afilhados, são sempre bem-vindos em casa e passo temporadas com eles até hoje. Inclusive sozinha mesmo quando eram pequenos. Na boa. Meu recorde foi um mês inteiro com um sobrinho de 10 anos e apenas meu marido e eu. Um dia tivemos que pôr ele de castigo. Paciência. Mas não houve traumas de nenhuma parte. Sou uma pessoa extremamente amorosa e carinhosa com crianças, mas não permito, por exemplo, que pulem no sofá da sala. E já tirei o medo de tempestade de uma sobrinha de 3 anos de idade que estava em casa comigo, só nós duas passando um final de semana de Luluzinhas, ensinando a contar o tempo entre o trovão e o raio para saber que a tempestade estava se afastando.

E por que uma autoentusiasta fala disso? Pois bem, recentemente testemunhei uma conversa surreal. O tema era a falta de respeito à velocidade máxima dentro de um condomínio fechado por parte de motoristas, moradores e visitantes, e alguém disse que havia visto inclusive crianças ao volante. Sei que dentro desses lugares há entre algumas pessoas uma espécie de entendimento tácito de que se pode fazer quase qualquer coisa, como se as normas e as leis que vigoram fora pudessem ser descumpridas dentro. Besteira, é claro. Mas tem gente que pensa assim. E para minha surpresa uma mãe disse que ela colocava, sim, o filho no colo, mas que era ela quem estava dirigindo. “Ele tem 10 anos. E eu estou no controle. Agora, moleque sozinho não dá.”

E tem gente qua acha tudo bem (Foto:www.noespacovip.com.br)

Não conheço a pessoa mas fiquei estarrecida com o raciocínio. Não sei como alguém pode achar que está no controle de um carro com uma criança de 10 anos no colo. Não está. Criança ou mesmo cachorro (não estou colocando no mesmo nível, por favor, apenas para ilustrar) no colo atrapalham, tanto que carro de autoescola tem comando duplo, para que o instrutor tenha realmente o controle do veículo. Talvez a criança em questão não alcance os pedais do carro, mas a troco de que alguém faz isso? Sei que alguém vai dizer “meu pai fazia isso” ou “meu avô fazia isso”, mas, convenhamos, décadas atrás a noção e os conhecimentos que tínhamos sobre segurança, assim como o trânsito eram outros. Não podemos comparar.

Claro que a maioria dos carros hoje são mais seguros, mas justamente por isso, para que correr o risco de imprensar uma criança entre a bolsa inflável e a mãe em caso de acidente? Neste caso, trata-se de um lugar com bastante trânsito, aliás. Não é um lugar ermo. Imaginem se uma dúzia de pais decide fazer a mesma coisa. Pessoalmente acho que dirijo bem, mas desconfio dos outros. E acho que os demais deveriam pensar da mesma forma já que são tão autoconfiantes. Criança ao volante só é fofa (e admissível) quando o carro está parado, desligado, sem chave nem por perto e com adulto supervisionando, como na foto de abertura. E sem força para destravar o freio de estacionamento.

Imagino que a criança tenha pedido e a mãe não tenha querido dizer não. E me lembrei de um texto que li em O Globo, na coluna do Ancelmo Góes faz uns dois meses que contava o caso de uma mãe que pediu à escola do filho que tirassem da porta do estabelecimento um pipoqueiro pois ela não queria que o filho comesse pipoca e não conseguia negar isso à criatura quando ia buscá-la. Assim, o sujeito perderia seu honesto ganha-pão e qualquer outra pessoa que passasse na rua e quisesse (e pudesse) comer pipoca estaria impedido de fazê-lo apenas porque uma mãe não quer dizer “não” ao filho. O que é isso?? É terceirizar qualquer tipo de responsabilidade.

Certamente escutei muito “não” na minha infância e sou uma pessoa não apenas muito feliz, mas também extremamente civilizada. Não tenho nenhum tipo de trauma por isso e, aliás, sempre gostei muitíssimo dos meus pais que foram os que mais “não” me disseram na vida. Mas isso também se aplica a tios e avós — claro que negaram menos coisas, mas ainda assim, negaram.

Aliás, sempre achei o “não” algo extremamente criativo, pois obriga a pessoa a buscar uma solução. Quando minha mãe não me deixava ver televisão por algum motivo eu era obrigada a buscar algum tipo de brincadeira. E sempre achava. Pegava meus brinquedos ou lia um livro. Se sempre se ouve “sim” não exercitamos a criatividade. É tudo muito fácil pois alguém sempre resolve por nós e não há necessidade de buscar alternativas.

Anos atrás vi uma entrevista na televisão que acho era do Içami Tiba. Se era dele, era um psiquiatra fantástico, cheio de bom senso. Enfim, a pessoa explicava como dizer não a um filho menor de idade que pedisse as chaves do carro aos pais. Segundo ele, era bem simples: basta dizer que se o filho fosse pego pela polícia ou se sofresse um acidente, os pais é que seriam responsabilizados e cumpririam pena — pagando fiança, sendo presos ou qualquer outra coisa que o juiz decidisse. Especialmente nos casos em que os pais, deliberadamente, entregaram as chaves do veículo a menores de idade.

Então era somente explicar que enquanto eles não pudessem responder pelos próprios atos os pais não emprestariam o carro porque não queriam ser responsabilizados por algo que não lhes cabia, já que a lei é bem boazinha quando se trata de menores de idade e considera o que eles fazem “ato infracional”. Simples assim. De quebra, para progenitores que terceirizam a responsabilidade de dizer que não aos filhos é uma ótima desculpa. “Filho, não sou eu, é a lei que diz isso.” Pronto.

Dá para dizer “não” (Foto:auto.bfmtv.com)

Tem ainda a questão do exemplo. Como cobrar cidadania se na própria casa se ensina a violar as leis? Dar as chaves do carro a um menor de idade é dizer: OK, a lei existe, mas você não precisa cumpri-la. Conheço uma pessoa que deu de presente um carro ao filho quando ele fez 16 anos. Qual é o recado que se dá ao indivíduo? Não estou falando de alguém que roubou as chaves do carro do pai (não estou justificando isso, OK?). Falo de alguém que conscientemente foi a uma concessionária, escolheu um carro e o comprou para dar de presente ao filho menor de idade. E, evidentemente, já haviam lhe ensinado a dirigir.

Menor de idade quer dirigir? Tem kartódromo e outros lugares para isso, como parques com carrinhos tipo bate-bate e outros. Aliás, ideais para isso. Ruas, ainda que de condomínios, não são os locais apropriados. Assim como carros de verdade com pessoas de verdade que podem se machucar de verdade. Simples assim.

Podemos discutir se poderia ou não ser reduzida a idade mínima para obter habilitação, mas o fato é que enquanto for 18 anos dar de presente um carro a alguém no seu 16 aniversário é transmitir a mensagem errada. Se não concorda com isso, mande e-mail, telefone, vá até o gabinete de alguns deputados e senadores pedindo alteração na lei e argumente para isso. Escreva aos jornais. Detone a questão no Facebook. Forme um grupo para batalhar por isso. Brigue para que a legislação mude. Mas não desrespeite as leis e não dê esse exemplo a seus filhos.

Mudando de assunto: Agora a televisão resolveu fazer levantamento do número de atropelamentos. OK, acho pertinente e se bem feito pode servir para melhorar a segurança e a mobilidade, mas que tal também apurar as causas? Alguém ser atropelado na rua é muito diferente de ser atropelado na calçada, pois não? Ou que o seja na faixa de pedestres, mas com o sinal fechado para travessia? Aff, quanta preguiça dos jornalistas!

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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