Vem fim de ano, vêm férias, vêm viagens, e lá vamos nós para a estrada, normalmente com a família, situação em que o cuidado deve ser redobrado, uma porque é natural, instintivo, que sejamos ainda mais cuidadosos quando vai a bordo quem mais se ama, e outra que família inteira viajando significa carro carregado, e carro carregado é dinamicamente inferior em todos os aspectos.

Dirigir nessas situações faz com que motoristas de longa data — como eu, que tirei minha habilitação em 1974 — aplaudam mais uma grande evolução dos automóveis nas últimas décadas: eles ficaram bem menos susceptíveis às mudanças de comportamento quando carregados. Hoje eles “sentem menos o peso” que antigamente. O leitor mais vivido há de lembrar de como as peruas, como a Caravan e a Belina, por exemplo, e sedãs, como Galaxie e Monza, ficavam arriados quando “prontos” para as férias — isso lá pelos anos oitenta —, com molecada, malas, cachorro, sogra, bicicletas, etc., etc., a bordo: a traseira afundava e os faróis apontavam para o céu.

E ia você ter coragem de tirar uma coisinha daquilo tudo ali! Ia você! O sujeito podia até ter essa valentia toda, podia até não ligar de ser taxado de carrasco, mas depois essa coragem haveria de lhe custar caro, pois teria as férias inteiras para volta e meia tomar um cutucãozinho do tipo: “Viu só? Você não quis trazer a tal coisa e agora olha só a falta que faz, olhe só como o menino está triste…”, um cutucão feito em voz alta e com a aprovação geral, inclusive da circunspecta sogra, que, mesmo calada fazia questão de erguer uma só sobrancelha, o que significava uma reprimenda das boas, do tipo: “Como é que minha filha foi se casar com um tonto desses?!”.

Então a gente explicava à família que com muito peso o carro não acelerava bem, não freava bem, não desviava tão rápido e seguro, não fazia curva bem, etc., e todos entendiam e a gente ficava contente por sermos compreendidos. Mas essa compreensão era fugaz. Bastava que iniciássemos o processo de aliviar a bagagem que logo aquela harmonia ia para o espaço e a revolta vinha pesada. Então topávamos carregar o máximo possível, desde que não comprometesse a segurança, e aguentávamos a bronca. Difícil dosar.

Dirigir com a família a bordo é algo emblemático, uma situação específica onde o sujeito mostra ser um mau ou um bom pai de família. Representa ser irresponsável, inconsequente, insensato, intolerante, irascível, impaciente, e outra série de ís a listar, ou ser o que todos nós sabemos o que nos cabe ser, o oposto de tudo isso. E esse exemplo vale, lógico, também para as mães de família e mães motoristas.

E antes dos anos oitenta, minha época tendo filhos pequenos, era pior ainda. Quando era eu o molecote, anos 60, viajávamos de Fusca 1200 e olhe que íamos em cinco, além de sempre um ou dois cachorros acalorados e babões. Hoje, quem não usou o Fusca como usávamos, e os vê em encontros de carros antigos, acha que o quebra-vento e o basculante do vidro traseiro são só interessantes detalhes. Meros detalhes??? Está maluco? Sem eles desmaiaríamos de “hipertermia abafamentícia”! Fora que o banco era de plástico, no qual grudava a roupa empapada de suor. Você levantava e brrip!…, a calça e a camisa iam se desgrudando do banco e deixando suas marcas úmidas de pano amarrotado.

Viajávamos num Fusca 1200 como este (Foto: carro. mercadolivre.com.br)

Nos porta-malas dianteiro e traseiro do nosso Fusca ia coisa espremida numa taxa de compressão semelhante à do motor. Minha mãe era — e ainda é — especialista em criar taxa alta no porta-malas, então ela dava um jeito de driblar meu pai para que ele só chegasse ao carro na hora da partida, com o carro já carregado, quando já era tarde para ele reclamar. E assim ia, ela enrolando direitinho o meu distraído pai, até que certa vez, saindo da fazenda, o Fusca estava tão carregado que ganharia prêmio de rebaixamento num concurso de carro tunado. Mal se passava uma faca por baixo.

Após poucos quilômetros o coitado do meu pai perdeu a paciência, parou o carro numa descida, puxou na bruta o freio de mão, saiu do Fusca, e, com as orelhas em chamas, foi abrir o porta-malas. Nessas, minha mãe foi falando “Ai meu Deus! Ai meu Deus!” e foi se afundando no assento…, e só sei bastou ele levantar o capô dianteiro que foi um mundaréu de laranja pulando que nem pipoca e rolando estrada abaixo… Parecia uma corrida de laranjas amarelinhas naquele asfalto preto. A molecada caiu na gargalhada, o cachorro latiu, e isso foi o que salvou a situação.

Fomos em silêncio até o primeiro posto de combustível, onde os frentistas ganharam o equivalente a mais de uma caixa de laranja da boa, além de abóboras, leite gordo de vaca Zebu e sei lá mais o que. Os caras ganharam a feira do mês.

Logo meu pai teve condições de comprar uma Veraneio (como a da foto de abertura) e essa fantástica mistura de perua com caminhão foi o que deu conta do recado. Essa aguentava e era um show para viajar. Ia devagar, cruzando entre 90 e 110 km/h. Viajar a 120 km/h, velocidade que então já era permitida em algumas estradas, era forçar um pouco. Na estrada fazia algo como 5 km/l de gasolina, mas não arriava com o peso e o torcudo motor — também usado nos caminhões Chevrolet — sempre tinha resposta consistente a dar ao acelerador, mesmo estando próximo da marcha-lenta.

E tinha janelas, muitas e amplas janelas!, e tinha quebra-vento!, e tinha espaço para todo mundo!, e o porta-malas era tão grande que nele trouxemos um bezerro de raça que meu pai ganhara de um amigo. Peruão! Nas estradas de terra passava macia por costelas de vaca e só escutávamos o brrrip! dos grandes pneus as penteando. No largo banco inteiriço dianteiro ia minha irmã, a caçulinha, dormindo estendida com a cabeça no colo de minha mãe e com os pezinhos no de meu pai.

Inseguro? Mas claro que era inseguro! Imagine só uma leve batidinha com um bezerrão de 150 kg solto dentro do carro… Mas não se espante tanto, pois a vida era assim para todo mundo. No futuro também haverão de se assustar com, por exemplo, os paulistanos terem convivido por tanto tempo com dois esgotos – Rio Tietê e Rio Pinheiros – a céu aberto e nenhum governador tranquilo-tranquilo, apesar de ambicioso, tomar providências. Também haverão de se assustar com a passividade com que encaramos as corriqueiras mortes e aleijamentos de jovens motoboys em nossas cidades. Um dia nos daremos conta de nossa atual realidade e esses exemplos, e outros, serão vistos como são: verdadeiras calamidades.

Pista simples, mal conservada e mal sinalizada, carro carregado, uma subida forte e na frente um caminhão lento “Fenemê” (FNM) soltando um tufo de fumaça de diesel. Subidão longo. Eta negócio demorado! Comparando-os a hoje, os caminhões eram pouco potentes e os carros também, então tudo era mais lento e calorento, já que ar-condicionado era coisa só de alguns carros importados e do Landau, carros de ricaço que fumava cigarro longo tipo Hilton dourado.

As Veraneio que meu pai teve não tinham ar frio nem quente. Então as pessoas tinham cheiro. As famílias se conheciam pelo cheiro. E cheiro é algo que nunca se esquece. Meu pai cheirava bem, minha mãe estava sempre cheirosa de perfume de grã-fina, minha irmã com cheiro de menina, sempre bom, mas nós da turma de trás éramos meio fedorentos, sendo que o menos fedorento era o Zorro, o meu Dálmata, porque ele não usava tênis Bamba.

Não somos nós na foto, mas dá para ter uma ideia de como viajávamos (Foto: contosautomotivos.wordpress.com)

Viajar com a família não era coisa para um bom piloto. Era coisa para um bom motorista. O bom piloto que desvestisse o macacão e se vestisse de paciência. Nada de afoitezas, nada de pressa em chegar. Prudência antes de tudo. Não havia cinto de segurança, não havia bolsa inflável, não havia estrutura estudada para deformar absorvendo impactos — achávamos que quanto mais bruto fosse o para-choque mais seguro seria o carro —, a árvore de direção era uma lança inteiriça apontada para o peito, não havia cadeirinha de bebê… Segurança passiva, nenhuma, portando o negócio era atuar na segurança ativa. Era impensável se arriscar a qualquer batidinha.

Os carros de hoje estão mais seguros, estando vazios ou carregados. Maior potência, em boas mãos, é fator de segurança. Maior estabilidade, maior poder de frenagem, melhores pneus, etc., também melhor segurança passiva, mas todas essas grandes melhorias não eximem o motorista da mesma prudência que nossos antepassados tiveram, pois essas melhorias trouxeram só uma diminuição do perigo, não sua eliminação. O motorista ainda é o maior fator na complexa equação da segurança.

Portanto, palmas para a evolução do automóvel, e muitas palmas para esses excelentes motoristas que lidaram com tantos perigos e souberam proteger suas famílias. Se estamos vivos aqui é porque eles cuidaram da gente. Façamos com que no futuro, no distante dia em que abandonarmos o volante, também sejamos merecedores desse respeito. Eu cá, do meu lado, bato palmas para o meu pai, mesmo sabendo que ele nunca quis de mim qualquer agradecimento. Ele dizia que o que fazia por nós era a paga pelo que recebera de meu avô, e que era assim que a coisa funcionava. Também acho.

Paciência e cuidado na estrada. Fique atento. Concentre-se no que está fazendo. Sinta o carro. Preveja e evite possíveis perigos. Espere dos outros motoristas as mais impensáveis burrices – tipo, imagine a Dilma Rousseff dirigindo todos os outros carros. Tenha sempre o total controle da situação, pois com certas coisas não se brinca.

E façam todos uma boa viagem!

AK

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Sobre o Autor

Arnaldo Keller
Editor de Testes

Arnaldo Keller: por anos colaborador da Quatro Rodas Clássicos e Car and Driver Brasil, sempre testando clássicos esportivos, sua cultura automobilística, tanto teórica quanto prática, é difícil de ser igualada. Seu interesse pela boa literatura o embasou a ter uma boa escrita, e com ela descreve as sensações de dirigir ou pilotar de maneira envolvente e emocionante, o que faz o leitor sentir-se dirigindo o carro avaliado. Também é o autor do livro “Um Corvette na noite e outros contos potentes” (Editora Alaúde).

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