Este ano, agosto, o AE completará 10 anos de idade. Esta lista, para quem não sabe, já é uma tradição anual nossa, apesar de não ter 10 anos ainda: começou em 2010. Invariavelmente, é a matéria mais lida do site todo ano que foi publicada, mas desconfio que menos por qualquer mérito que ela tenha por si só, e mais pelo fato de que o título a faz fácil de ser achada pelos mecanismos de busca da rede.

Mas sucesso é sucesso, independente de como ele venha, e então sou compelido a continuar repetindo-a, anualmente. Virou, assim, uma tradição, que tenho o maior prazer em cumprir. Mesmo porque é uma lista altamente pessoal, ligada a meus desejos particulares, como o título já diz. Mas não é algo de sonho, inatingível, como também já denota o título: algumas regras básicas, imutáveis, colocam algum pragmatismo na escolha:

Primeiro, o carro não pode passar do preço de R$ 100.000. Cem mil reais é o máximo que poderia teoricamente pagar em um carro. Nunca paguei cem mil num carro, mas é teoricamente possível, e acredito ser um limite interessante, pois deve ser válido para a maioria da população que compra carro novo. O volume de vendas acima deste teto é comparativamente bem mais baixo, o que confirma esta minha teoria. Durante os anos pensei já em aumentar o valor, visto que cada vez menos carros caem dentro deste limite, mas duvido que a renda da população tenha subido na mesma proporção do preço dos carros. A minha com certeza não, e como este é o motivo da lista, o que posso comprar, ele permanece inalterado.

Segundo, tem que ser algo útil, prático, que possa levar cinco pessoas ou mais, ou duas pessoas e carga, como um terceiro veículo. Hoje tenho uma perua (BMW 328i Touring 1996) e uma minivan (Citroën C4 Picasso 2012) na garagem, uma casa com jardim que produz muito lixo, dois filhos adolescentes, e uma cadela grandona que adora passear de carro comigo. Em casa, carro tem que agradar a todos, e fazer funções variadas. Nada de Caterham Seven, infelizmente. Picapes, furgões, peruas e hatchbacks têm preferência.

E por último, mas não menos importante, tem que ser divertido ao volante. Eu, como todos os leitores deste site, adoro dirigir, e, portanto, o carro tem que divertir o motorista. Câmbio preferencialmente manual, motores potentes, ou no mínimo entusiasmados para despejar qualquer potência que sejam capazes de produzir, e comportamento dinâmico legal são imprescindíveis. Carro para família e trabalho, mas para encher a alma de entusiasmo também. É na verdade o mais importante aqui.

Em 2018, em ordem crescente de preço, são eles:

 

1) Renault Kwid

Sinceramente, não sei se o mercado brasileiro vai aceitar bem o estilo, digamos assim, diferente do Kwid. É um carrinho de proporções estranhas ao meu ver, e obviamente muito alto, e com pneus visualmente muito pequenos para o volume da carroceria.

Mas nada disso importa; o que importa é que ele é mais uma prova de que peso baixo é algo divino. Pesando meros 790 kg, o pequeno tricilindro de apenas 66/70 cv consegue levar o carrinho com vontade e entusiasmo, e com aquele delicioso berro característico da configuração. O carro se move levemente, sem esforço aparente, alegre e faceiro. A suspensão, os freios, a direção e o câmbio manual são corretos, bem dimensionados para o carro, e ajudam a fazer uma experiência ao volante inesquecível, completamente oposta ao que se espera de algo tão básico.

O carro na verdade é uma brisa de ar fresco de originalidade num mar de mesmices. Baixo peso traz um sem-fim de vantagens, em desempenho, economia de combustível, estabilidade e leveza aos comandos, simplesmente impossíveis de se conseguir em um carro mais pesado. Até o nível de ruído e vibração um pouco mais alto que o normal não incomoda aqui, na verdade chega a ajudar dando ao carro uma característica rara hoje em dia: uma personalidade marcante.

Para mim é o herdeiro espiritual do Fiat Mille, um carro onde o baixo peso e a simplicidade são uma vantagem e não um problema, uma declaração clara de que a simplicidade é a maior das virtudes. Podia ser mais baixo na suspensão, claro, mas a necessidade mercadológica de agradar a corrente moda suve impede tal coisa, infelizmente. Mas não importa; do jeitinho que está é exatamente o que precisamos aqui no Brasil, nos tempos de renda comprometida: carros simples, baratos, mas excelentes por trás do volante.

 

2) VW up!

Se o Kwid carece de sofisticação e refinamento em sua opinião, a VW tem uma opção excelente no up!. Em todas as suas versões é um carro extremamente bem-acertado e agradável. Mesmo na versão aspirada básica, o tricilindro de um litro puxa o carro com uma vontade incrível para algo tão pequeno, e acompanhado pelo característico e entusiasmante berro do motor três em linha, chegando a entusiasmar. Mesmo assim, é um carro extremamente econômico, e juntando a isso o espaço interno extremamente bem-aproveitado, e toda a solidez que se espera de um projeto alemão, fazem do up! um pacote altamente desejável.

E a versão TSI, com o seu torcudo e potente motor turbo, torna tudo ainda mais interessante, por pouca coisa a mais em dinheiro na compra.

 

3) Renault Sandero

Quando dirigi pela primeira vez o Sandero da geração corrente uma coisa imediatamente me chamou a atenção, já nos primeiros metros: o ajuste de suspensão. Era um carro que tinha um ajuste que reputo perfeito, firme, mas confortável e com ótima absorção de impactos e estabilidade de primeira em curvas. Na Romeiros, parecia melhor ao rodar até que minha perua BMW 328i 1996. Incrível.

Mas o motor (era um antigo 1,6 litro 8v) e a transmissão, apesar de aceitáveis, não eram nada que merecesse uma ode apaixonada. Mas agora, com novo acionamento de câmbio por cabos, e os novos motores SCe de três e quatro cilindros em linha, duplo comando e quatro válvulas por cilindro, e alta potência específica, se tornaram algo quase irresistível.

(Foto: autor)

E o que falar do Sandero R.S.? Continua depois de dois anos o mais divertido carro para entusiastas que se pode comprar por 63 mil reais. Na verdade, é um peso-pena que dá um trabalho danado para muito peso-pesado por aí, em um circuito fechado…. Um carro esporte disfarçado de hatchback familiar.

Preço justo, e uma experiência memorável ao volante é tudo que um entusiasta precisa, e é algo presente em todo Sandero hoje. Junte isso a uma carroceria hatchback que permite espaço e praticidade suficientes para ser o único carro da família, e temos um pacote difícil de resistir.

 

4) Saveiro Robust CS

Esta é uma escolha bem pessoal que seria perfeita como terceiro carro em casa. Eu adoro picapes, principalmente as derivadas de automóveis, por sua praticidade de carregar muita carga, mas sem parecer um caminhão ao volante.

Mas não compartilho da paixão recente por versões de cabine estendida ou dupla; estas picapes pequenas com cabine maior acabam sendo os patos da indústria: como a famosa ave que anda, nada e voa, mas não faz nenhuma das três coisas decentemente, estas picapes não levam nem pessoas nem carga bem.

Sendo assim, a versão “de trabalho” para mim é sempre a melhor. E a melhor delas a Saveiro, com sua base de Gol e seu excelente (se bem que um pouco antigo) motor de 1,6 litro.

 

5) Honda Fit DX

Pouca gente sabe, mas ainda é possível comprar um Fit com câmbio manual, algo que transforma completamente a experiência ao volante deste pequeno Honda. Dirigir um Fit automático é algo para quando se está cansado e só se quer chegar a algum lugar. O manual, básico, incrivelmente, me faz enxergar o quanto o carrinho é interessante e bem projetado: confortável, comandos levíssimos mas precisos, desempenho bom, incrível economia de combustível, espaço e praticidade ímpares.

E o seu preço bem razoável (R$ 58.700,00) me faz imaginar porque alguém escolheria as versões mais caras, automáticas, com o chato CVT. E muito menos ainda porque alguém compraria algum duvidoso e caríssimo pseudo-suve derivado dele… Simplicidade continua sendo divina.

 

6) Peugeot Partner

OK, concordo que esta não é uma opção normal, aceitável, para muita gente. Mas se muita gente usa picapes como carro do dia a dia, por que não um furgãozinho de carga? Logicamente, com sua capacidade de manter a carga seca e protegida de amigos do alheio, faz muito mais sentido.

E no caso do Partner, existe também outra coisa que me faria ser confundido diariamente com um funcionário de empresa de telefonia sem problema algum. Algum tempo atrás, tive um Citroën Berlingo Multispace 2001, um delicioso furgãozinho de passageiros verde por dentro e por fora que deixou muita saudade. Na verdade, acho que é o carro que mais me arrependo de ter vendido. Era divertido com seu teto solar de lona elétrico, e tinha uma praticidade incrível para levar carga e/ou passageiros. Mas o que me lembro com mais saudade, o que está indelevelmente marcado em minha cabeça, era o fato de que era uma verdadeira delícia para se dirigir. Fazia curvas com alegria, o câmbio de alavanca longa, mas curso curto, era uma delícia de operar, o motor era valente e disposto… Incrível que algo assim fosse tão gostoso, inacreditável que ainda me lembre das sensações com saudade. E que saudade!

Meu Berlingo, no dia em que chegou em casa. Saudade… (Foto: autor)

Mas tirando os bancos traseiros rebatíveis, o tetão de lona, e as cores vivas, tudo isso ainda é possível de se encontrar no furgão Partner. Por mais estranho que pareça, morro de vontade de comprar um. Outro dia passei numa concessionária Peugeot para um reencontro com um velho conhecido, em sua versão de carga atual; só de abrir a porta com aquela maçaneta, olhar aquele para-brisa enorme e vertical, e sentir aquela alavanca trocar as marchas num clique-claque delicioso, que  um arrepio me subiu pela espinha e um sorriso apareceu na minha cara. O amor é cego realmente!

 

7) Ford Focus SE 1,6

Este Focus, junto com o Golf TSI 1,0 básico, é a única opção hoje de um hatchback médio com câmbio manual. Como todo Focus desde o saudoso Mk1 de 1998, prima pelo comportamento de suspensão e comandos com o peso e sensibilidade corretos. É um carro relativamente grande para os padrões brasileiros, e uma ótima opção para famílias mais “espaçosas”, e cujo motorista sabe se divertir ao volante, sem medo, ou preguiça, de trocar as marchas quantas vezes forem necessárias.

 

8) Peugeot 208 GT

Este é o carro mais rápido e veloz da lista. Um hatchback pequeno, mas com alma de carro de rali, um fortíssimo 1,6 litro turbo de 166/173 cv, e acabamento sofisticadíssimo. Devia ser bem mais popular do que é, mesmo sendo bem caro para seu tamanho; ao invés de encará-lo como um carro pequeno caro, pense num MINI bem mais barato.

Um teto de vidro legal, um painel diferente e sofisticado, volante de diâmetro bem pequeno (350 mm), revestimento de teto em tecido preto, a lista de coisas interessantes e diferentes que agradam o entusiasta abundam aqui. Mas é na força e na vontade de subir de giros do motor turbo que o carro realmente impressiona, bem como no seu delicioso câmbio manual de seis marchas e o comportamento impecável ao atacar curvas com vontade.

Não há nada tão divertido ou rápido quanto ele no seu preço, o que na verdade o torna um carro barato pelo que oferece.

 

9) Honda Civic Sport

(Foto: AE)

O Civic Sport é um carro raro nas ruas, o que é uma pena. Com um desenho inovador e belíssimo na minha opinião, é, como todo Honda, agradabilíssimo ao volante.  E o principal motivo de sua raridade relativa é justamente a maior vantagem desta versão básica: o câmbio manual de seis marchas. Apesar de ser triste não existir versão manual para o excelente 1,5-litro turbo da versão Touring do Civic, eu acredito que o 2-litros aspirado desta versão, 150/155 cv, já é forte o suficiente para entreter.

Triste também é a Honda não ter aproveitado o desenho inovador e colocado uma tampa traseira tipo hatchback, mas paciência. Do jeito que está o Civic Sport é o melhor sedã médio para um entusiasta hoje aqui no nosso Brasil.

 

10) VW Golf Variant Comfortline

(Foto: AE)

Este é um carro caro, que passa raspando no limite máximo para entrar nesta lista. Também é o único carro aqui sem um pedal de embreagem, o que diminui bastante o apelo para os entusiastas.

Mas em compensação há muito que gostar aqui. Primeiro é um Golf, um carro excelente em todas as suas versões. Depois, é uma perua, algo que pessoalmente considero uma combinação imbatível de praticidade e diversão ao volante, se for feita corretamente como é o caso aqui. E depois, se o câmbio tem que ser automático, que pelo menos seja um tão bom quanto o dupla-embreagem de sete marchas que equipa a Variant.

Junte-se a isto a construção bem feita e sólida de todo Golf, o torcudo motor turbo de 1,4 litro, e a eficiência germânica no comportamento geral do carro, e se tem uma perua moderna que dará anos e anos de serviços a qualquer família entusiasta, com desempenho, economia de combustível e praticidade ímpares.

MAO

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