Todo Ano Novo nos faz pensar em mudanças, melhoras, planos, realizações, sucesso, saúde, enfim, coisas boas, sempre. Pensa-se em cenários diferentes que proporcionem felicidade e paz de espírito. Eu, é claro, também tenho minha visão de cenários desejáveis — altamente desejáveis — e compartilho alguns com os leitores e leitoras. Coisa do tipo “eu tive um sonho”.

País sem lombadas

Estrada atravessa bairro e não há lombada, em Barroso, bairro de Mogi das Cruzes, SP (Foto: autor)

Sonho com nosso país sem lombadas. Como seria bom poder voltar a dirigir com se dirigia nos anos 1970, quando estes verdadeiros dejetos viários, invenção de doentes mentais, não existiam.

Quando motoristas de ambulâncias só tinham a preocupação de chegar o mais rapidamente ao destino, o hospital, fundamental para que o doente ou o acidentado grave tivesse mais chance de sobreviver, juntamente com cuidado para transpor esses obstáculos imorais para não agravar o estado de alguém que inspirasse cuidados (qualquer médico confirma isso).

Quando motoristas de carros de bombeiros se preocupavam apenas com os cruzamentos e chegassem a tempo de primeiro salvar pessoas em perigo, e iniciar o combate as chamas o mais cedo possível.

Quando policiais em suas viaturas não precisavam reduzir drasticamente sua velocidade e atendiam as ocorrências com a rapidez na maior parte das vezes necessária e questão de vida ou morte.

Quando criminosos que infestam as comunidades carentes e favelas (não havia tanto quanto hoje)  não tinham oportunidade de assaltar ocupantes dos veículos obrigados a diminuir velocidade.

Um cenário em que nossos carros durassem mais, gastassem menos freio e consumissem menos combustível ao não ser  preciso matar velocidade para em seguida ganhá-la acelerando.

Em que ônibus e caminhões tivessem menos desgaste de suas partes mecânicas, contribuindo para a redução dos custos de transporte.

Em que carros produzidos aqui ou trazidos de fora não precisassem sofrer a nojenta elevação de altura de rodagem só para ficaram incólumes a essa expressão máxima de brasilidade estúpida, para que ficassem mais econômicos com a melhor aerodinâmica e mais estáveis por serem mais baixos. E, por que não, mais elegantes.

Em que não houvesse acidentes, e com mortes, com veículos de quatro e duas rodas, na eventualidade de um desses dejetos não ser avistado e/ou construído fora de norma, com altura excessiva ou abusiva.

Em que prefeituras não precisassem gastar rios de dinheiro do contribuinte construindo e mantendo esses lixos, dinheiro esse que deveria ser gasto na remoção de lombadas  clandestinas feitas por moradores idiotas que veem na lombada diante de suas casas um símbolo de status (“eu sou importante”). E em que esses moradores fossem responsabilizados criminalmente por dano ao patrimônio  público e ameaça à vida.

País com gasolina

Octanagens RON informadas na bomba (Foto: news.err.ee)

Sonho com um passado não tão distante, quando gasolina era gasolina, não essa mistura asquerosa com álcool que só pode ser coisa de débil mental também — mais da quarta parte da gasolina é álcool, verdadeira jabuticaba.

Que a adição de álcool como oxidante e antidetonante se limitasse ao padrão mundial de 10%.

Sonho com nosso país tendo gasolina igual à da comunidade mundial e à de países vizinhos, alguns do bloco comercial a que pertencemos, o Mercosul, uma gasolina que não exigisse nenhum de trabalho de calibração específica dos motores de veículos aqui comercializados.

Que não tivéssemos a ridícula expressão  de octanagem “índice antidetonante”, autêntica macaquice de imitação do método dos EUA nos enfiado goela abaxo pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), mas a informação de octanas seguindo o padrão praticamente mundial — as octanas RON — indicado nas bombas dos postos para que se saiba exatamente a gasolina que se está comprando.

Que fosse uma gasolina que nos permitisse ser visitados pelos nossos vizinhos e que nos deixasse visitá-los sem que os carros fossem afetados em comportamento e consumo, a exemplo o que ocorre nos 27 países-membros  da União Europeia.

Que toda gasolina vendida no Brasil contivesse aditivos detergentes-dispersantes adotados no mundo todo, prometido que fora para 1º/01/2014 e solenemente caído no esquecimento por falta de vontade ou incompetência — ou ambas — da Petrobrás.

 

País sem carros flex

Nada de flex: poderíamos ter continuado a ter carros a álcool altamente eficientes se a indústria do álcool fosse responsável (Reprodução: motor1.uol.com.br)

Sonho que nosso país não tivesse precisado recorrer ao carro flexível em combustível, o flex, se a indústria do álcool tivesse vergonha na cara e se imbuísse da responsabilidade  de jamais deixar faltar um combustível derivado de um vegetal plantado no nosso solo, como ocorreu em 1989.

O carro flex é uma mancha no país, criado exclusivamente para favorecer a desacreditada indústria do álcool com a ideia espúria de “se faltar álcool, posso usar  gasolina”.

A indústria sucroalcooleira continua a prestar um desserviço ao país, dado que precisamos importar álcool.

Com certeza de fornecimento de álcool poderíamos ter carros com motores a álcool altamente eficientes, bem mais que os motores ambicombustível de hoje, como recentemente demonstrado pelo Centro de Tecnologia da Mobilidade da Universidade Federal de Minas Gerais, um motor 1-litro turbo  de 185 cv e baixo consumo.

Com a tecnologia de hoje é perfeitamente possível um motor exclusivamente a álcool rodar em emergência com gasolina numa eventual falta do combustível de origem vegetal; não haveria “risco” em se ter um carro a álcool.

 

Câmbio manual

Indústria automobilística “normal” oferece câmbio manual (Foto:portallubes.com.br)

Sonho com o cenário de um Brasil cuja indústria automobilística como um todo fosse “normal”, isto é, oferecesse modelos de carros em versões de câmbio manual e automático. GM (Onix) e Toyota (Etios) já fazem isso. Há todos os motivos para oferecer os dois tipos, inclusive o sempre sensível preço, lembrando que a indústria ainda se encontra com alta taxa de ociosidade, perto de 70%.

Dois carros que só existem em versão automática e deveriam oferecer manual são o New Fiesta 1,0 EcoBoost e o novo Polo 1,0 200 TSI. O Civic Touring também, um versão manual seria mais que bem-vinda, bem como os Focus 2-litros. A Citroën é que decepcionou ao deixar de importar o incrível C4 Lounge manual.

 

Peruas

Peruas: por que não? (Foto: audi.co.uk)

Sonho com o cenário de modelos não restrito ao atual hatch-suve-sedã, com peruas apreciadas e servindo famílias com sua inerente praticidade. Tal como na Europa quando se põe o pé fora do aeroporto, é perua para todo lado. Acho incrível as fabricantes aqui instaladas não se darem conta que existe mercado para esse tipo de veículo. Acordem, fabricantes!

 

Pedágios

R$ 23 para rodar menos de 100 quilômetros: rodovia dos Imigrantes: assalto (Foto:andre morato/blog meudestino.com)

Sonho com tarifas de pedágios decentes. Tenho certeza de que ninguém é contra pedágios como maneira de sustentar as rodovias mediante pagamento de quem as utiliza. Mas o cenário aqui deveria ser diferente, com tarifas razoáveis, honestas. O que se vê hoje é um nítido abuso das concessionárias de rodovias com total conivência dos governos estaduais, denotando submissão à vontade daquelas, o que é inadmissível.

Há casos de pedágios distantes poucos quilômetros, como no início da rodovia Castello Branco, utilizada frequentemente quando vamos à Estrada dos Romeiros. Um pedágio em Osasco e outro em Itapevi, distantes 1o minutos, correspondente a cerca de 15 quilômetros. Não há quem não se sinta roubado.

São Paulo a Ribeirão Preto, ida e volta, 632 quilômetros: gasta-se R$ 120,8o de pedágio e R$ 195,00 de gasolina (R$ 3,70/l e 12 km/l), um cenário insano. Ou dantesco. Ou ultrajante.

 

Rodízio

Rodízio de São Paulo: vergonha ilegal há 20 anos (Foto: samservicos.com.br)

Permito-me falar da cidade de São Paulo, a única a ter essa mancha indelével. Sonho com uma São Paulo sem rodízio, um abuso —ilegal, diga-se — iniciado com o espertalhão prefeito Celso Pitta em 1997 de olho grande no faturamento com multas, e perpetuado pelos prefeitos Marta Suplicy, José Serra, Gilberto Kassab, Fernando Haddad e João Dória Jr., todos farinha do mesmo saco neste caso. Já são 20 anos com esse martírio, com essa vergonha. Nenhuma dessas “farinhas” teve a honestidade de abrir mão desse abuso contra o direito do cidadão.

Digo que  o rodízio é ilegal com base, pois o Código de Trânsito Brasileiro diz claramente no Art. 24 – Compete aos órgãos e entidades executivos de trânsito dos Municípios, no âmbito de sua circunscrição: (…) “XVIII – planejar e implantar medidas para redução  de circulação de veículos e reorientação do tráfego, com o objetivo de diminuir a emissão global de poluentes.” São Paulo não se encontra ameaçada por poluentes faz tempo, duas décadas, e o rodízio tem o nome oficial de Operação Horário de Pico, para reduzir congestionamentos, nada absolutamente a ver com emissão de poluentes.

Admira-me o Ministério Público Estadual nunca ter obstado tal operação.

 

Velocidade

Velocidade “assustadora” na Argentina (Foto: viagemdemoto.com)

Sonho com o tempo de velocidades das vias naturais, quando não se precisava ficar de olho pregado no velocímetro, como era nos anos ’70 e na cidade de São Paulo quando aqui cheguei há 40 anos.

Que trânsito seja encarado como algo sério, com engenharia, com dedicação, com pessoas interessadas, não com gente que parece mais atrás do salário do fim do mês do que qualquer outra coisa.

Sonho com rodovias com velocidades realistas, não limites ridículos como a SP-99 rodovia dos Tamoios, duplicada mas com limite de 80 km/h.

Sonho com rodovias de 130 km/h de limite, como na Argentina.

Feliz 2018 a todos!

BS

 

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Sobre o Autor

Bob Sharp
Editor-Chefe

Um dos ícones do jornalismo especializado em veículos. Seu conhecimento sobre o mundo do automóvel é ímpar. História, técnica, fabricação, mercado, esporte; seja qual for o aspecto, sempre é proveitoso ler o que o Bob tem a dizer. Faz avaliações precisas e esclarecedoras de lançamentos, conta interessantes histórias vividas por ele, muitas delas nas pistas, já que foi um bem sucedido piloto profissional por 25 anos, e aborda questões quotidianas sobre o cidadão motorizado. É o editor-chefe e revisor das postagens de todos os editores.

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