Há dias que são perfeitos para curtir uma estrada, dias que reúnem as condições ideais para celebrar o prazer em dirigir. E foi exatamente assim algumas semanas atrás: manhã de domingo, céu de brigadeiro, e temperatura amena. Nesse cenário impecável, o Fiat 147 GLS 1979 foi escolhido para me levar para um breve passeio solitário.

O trajeto selecionado não foi extenso, por volta de 70 quilômetros utilizando as rodovias dos Bandeirantes (SP-348) e Dom Gabriel Paulino Bueno Couto (SP-300). Sem dúvida, para nós autoentusiastas mesmo apenas poucos quilômetros podem proporcionar muito prazer. Esses momentos são constituídos de fragmentos sensoriais aparentemente insignificantes, porém capazes de liberar dopamina o suficiente em nossos receptores cerebrais para não nos deixar esquecer o quanto é bom viver.

O GLS sempre pronto para um passeio

E nessa atmosfera das boas sensações que nossos companheiros automóveis nos proporcionam, compartilho com os leitores e leitoras do AUTOentusiastas esse agradável passeio, através de uma abordagem sensorial.

De fato, os nossos sentidos, constituídos por sensíveis receptores que nos conectam ao ambiente onde estamos inseridos, é mais um exemplo da engenharia precisa e complexa que a Natureza nos dotou ao longo da nossa evolução.

Dessa forma, naquela manhã a experiência sensorial do passeio se iniciou antes mesmo do motor ser acionado, mais precisamente ao abrir a porta do carro. O olfato já foi profundamente ativado pelo “perfume” típico do interior do Fiat 147 GLS. De fato, as interações entre a via olfativa e os sentimentos foi tema de uma matéria muito interessante publicada pelo Bob Sharp no AE sete anos atrás.

Ainda com o carro estacionado o sentido da visão foi contemplado pelas formas simples do painel, com o conta-giros à direita, velocímetro apenas com hodômetro total, à esquerda, e ao centro o medidor de combustível e o termômetro da água do sistema de arrefecimento do motor. Acima de cada um dos principais mostradores um conjunto de três luzes-espia.  Mais à direita no painel, o manômetro de óleo e um charmoso relógio analógico.

A pequena dimensão dos mostradores e do relógio, bem como do singelo rádio AM-FM, sempre chamam a atenção não somente pelo tamanho, mas também pela estética peculiar. Ainda no campo visual o volante esportivo de três raios, revestido em couro, hospedando ao centro o emblema do logotipo da Fiat 1925-1929 aflorava ainda mais a atividade desse sentido.

O sentido da visão bem-explorado

Por outro lado, o tato também era explorado pelo o conforto dos bancos em veludo, pelo suave acionamento da manivela para baixar o vidro da janela direita, bem como pela sensibilidade ao revestimento do volante. Finalmente, ao dar a partida o som limpo do motor de pequena cilindrada, mas bem regulado, era apreciado pela audição.

Contudo, as experiências sensoriais mais significativas foram percebidas com o pequeno carrinho em movimento, em especial ao alcançar a estrada. Vale lembrar que o nosso sistema sensorial é dividido em Sentidos Especiais (visão, olfato, audição, paladar e equilíbrio) onde os receptores sensoriais então restritos à cabeça, e o Somestésico, responsável pelas experiências detectadas em órgãos que não pertencem aos sentidos especiais, ou seja, está associado às sensações táteis, térmicas, nociceptivas, químicas, pressóricas e a propriocepção.

Em outras palavras, temos muito mais do que apenas cinco sentidos. De fato, é propriocepção que informa ao nosso sistema nervoso central sobre sensações muito mais complexas do que as táteis, como, por exemplo, as forças e pressões às quais os nossos músculos e articulações são expostos enquanto nos movimentamos. Sem dúvida que o ato de dirigir exige ativamente a nossa propriocepção.

Assim, as informações sensoriais proprioceptivas detectadas pelos músculos e articulações dos nossos membros inferiores e superiores, bem como do nosso tronco que estão em contato com os pedais, volante, câmbio e ao banco do automóvel, são enviadas através dos nervos sensoriais diretamente ao cerebelo e ao córtex motor. Desse modo estes interpretam o ambiente ao mesmo tempo em que recebem os comandos das áreas corticais conscientes para enfim possibilitar o controle perfeito das diversas ações motoras que realizamos ao dirigir.

Dessa forma, o sistema nervoso central atua como um maestro coordenando os nossos músculos de forma precisa para acionar de forma sincronizada os pedais, o volante e a alavanca de câmbio, bem como para aplicar a força e velocidade necessárias para cada manobra, frenagem, aceleração ou troca de marcha. Por isso que alguns carros nos dão mais prazer ao dirigir, mormente são os mais esportivos e/ou viscerais que nos fazem sentir integrados ao automóvel e esse, por sua vez, à estrada. Nessas situações percebemos todas as impressões não somente das condições da superfície, mas de todos os componentes mecânicos do carro. Nesse estágio entramos em estado de “transe” sensorial conectados ao automóvel, não somente através dos sentidos especiais e pelo tato, mas sobretudo pela propriocepção.

Exemplo de integração sensorial (Foto: Original Motors)

E nada mais proprioceptivo do que um automóvel fabricado muitas décadas atrás, sem “filtros” entre o homem e a máquina. Naquela manhã era exatamente isso que eu sentia. Sensação maximizada pela disposição com que o valente Fiat 147 GLS, com quase 40 anos de idade, percorria cada quilômetro da rodovia.

O passeio seguiu até o Shopping Serra Azul, e após uma breve parada para um café e para apreciar outros veículos no local, o retorno à estrada a caminho de Jundiaí, e ao ligar o rádio a audição naquele momento foi tomada, além do ronco suave do motor de 1.297 cm³, de uma grata surpresa: Christopher Cross com Ride Like the Wind, uma trilha sonora perfeita para aquele momento. O Universo conspirava a favor de um final de passeio marcante.

E após mais alguns minutos de asfalto, lá estávamos nós (eu e o Fiat 147) mais uma vez de volta à garagem e prestes a nos desconectarmos, mas não sem antes de uma última sensação olfativa poderosa: o leve e estimulante odor de gasolina, que quase me impedia de desligar o carro e me tentava a acelerar sem rumo por mais algumas horas.

Ao sair do carro e fechar a porta ainda houve tempo para agradecer o Fiat 147 GLS, não apenas pela experiência sensorial daquela manhã, mas por todos os outros inúmeros momentos de bem-estar e prazer proporcionados ao longo de 12 anos de parceria.

De volta à garagem

Marcelo Conte
Jundiaí – SP

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