Uma história paralela ao automóvel que sempre me fascinou é a dos acessórios. Na minha cabeça sempre foi importante preservar esses itens porque eles contam a história de como os carros mantêm a originalidade de fábrica e passam a ter a personalidade dos donos pelos acessórios. Itens que transformavam o carro em sinônimo de perfil do dono.

A imagem acima, de abertura, é uma propaganda da SR Carrocerias especiais, ou simplesmente Souza Ramos, uma das maiores e mais competentes na arte de transformar carros ainda novos.

Cartaz da Rodão, que era uma das lojas de acessórios mais badaladas de São Paulo; carros normais entravam ali e saíam ao gosto do dono (Imagem: arquivo do autor)

Os acessórios na maioria das vezes ganham o público justamente por terem utilidade e ajudarem em alguma coisa, seja condução do veículo, na dirigibilidade ou apenas para conferir uma nova estética. Vale lembrar que acessório é diferente de opcional: enquanto o acessório é um produto de mercado de autopeças, o opcional é uma possibilidade de fábrica ao adquirir o carro zero-quilômetro.

A Envemo, além de fornecedora da Chevrolet, também realizava projetos que eram vendidos como kit nas concessionárias ou transformações mais radicais na oficina própria; na propaganda de época vê-se uma Caravan Envemo, com tudo o que poderia ser instalado nela (Imagem: arquivo do autor)

No universo do carro antigo os acessórios estão ganhando admiradores. Alguns carros têm tantos desses itens que eles chegam a ficar em segundo plano no meio de tantos enfeites. Em outros os acessórios parecem estar na medida certa, uma vez que representam o que uma pessoa, provavelmente, teria num veículo na ocasião em que esse tipo de carro era vendido. Mas os acessórios que particularmente me fascinam são aqueles que fizeram a história do carro.

Entre as transformações mais radicais da Envemo, o Monza conversível e o Monza “perua”; esse último poderia ser aplicado em modelos de duas ou de quatro portas (Imagem: arquivo do autor)

Nos carros da minha família, que eram populares e surrados Fuscas e Brasílias, o que mais lembro eram das calhas acrílicas, achava fantástico como aquele “treco” tão simples impedia que a chuva  entrasse e os vidros, embaçassem. Claro, estou usando o lado emotivo da lembrança, porque na verdade a água continuava respingando em que estava no banco traseiro, o vidro ainda embaçava (menos, mas embaçava). Esse acessório está tão presente em minha memória que todos os meus carros tem calhas.

Tenho claro na memória ver os carros da Rodão, oficina tradicional de São Paulo, que “transformava máquinas comuns em carros de boy”. Painéis eram cortados sem mínimo dó para que recebessem rádios/toca-fitas TKR, equalizadores Tojo e tweeters do tipo corneta. Meus primos de Campinas me pediam folhetos da Rodão para copiar os acessórios e “customizar” os carros dos pais.

Um rádio/toca-fitas TKR “cara preta” e um equalizador Tojo; nas décadas de 1970 e 1980 esses eram os passos mais importantes para um som de qualidade (Foto: Lucas Vane)

O que nunca tivemos em casa, mas sempre via na televisão, eram as persianas no vidro traseiro dos carros oficiais. Um item simples que faz, com um leve movimento, um vidro ficar indevassável aos olhos de algum curioso. Na prática atrapalha um pouco a retrovisão do motorista, ao vento faz algum barulho, mas em alguns carros confere um ar charmoso. A primeira vez emque dirigi um carro com esse acessório foi em 2007, durante uma matéria sobre os 40 anos do Galaxie, ocasião na qual fui a Brasília e dirigi o Landau presidencial que está com nosso amigo e colunista Roberto Nasser, no museu da Fundação Cultural dos Transportes.

No início dos anos 2000, ao estudar a primeira carta da Federação Brasileira de Veículos Antigos (FBVA) sobre como proceder para a vistoria de certificação de originalidade, passei a questionar o porquê de alguns itens tais como “rodas” serem impeditivos de avaliação, caso não fossem as originais. Meu pensamento é que ninguém compraria um Maverick GT ou um Charger R/T e ficaria com as pacatas e simples rodas de aço. Os motivos da época da criação das regras era impedir que rodas modernas fossem consideradas no mesmo patamar das rodas originais ou de época.

Dois modelos Engerauto que foram sinônimo de “carro para quem chegou lá” e que não teriam como ser certificados por não terem homologação de época (Foto: Arquivo do Autor)

Em 2014, na ocasião da troca de diretoria e presidência da Federação, quando entrou Roberto Suga, foi feita uma reunião para definir novas regras para as avaliações de certificação de originalidade. Sendo assim, resolvi que seria hora de montar um documento para apresentar e nele constariam acessórios de época que seriam impeditivos, mas que ao ver de muitos representam a época do automóvel e merecem certificação.

Bancos, rodas, vidros e até modificações de carroceria puderam ser possíveis. Isso abriu um leque para que veículos modificados, ainda 0-km, pudessem ter a mesma condição de coleção dos automóveis que foram mantidos conforme saíram de fábrica. Uma atitude que poderá ser a definição entre a salvação ou o sucateamento de veículos como as picapes de cabine dupla e outros veículos que eram encarroçados ainda novos e eram o sonho de consumo de muitos brasileiros.

Pampa DUO da Engerauto, uma transformação que permitia acomodar cinco pessoas numa picape pequena; a SR também fazia um modelo semelhante de nome XP, tudo ideias que vieram décadas antes da Fiat Strada cabine-dupla (Imagem: arquivo Rogério Ferraresi)

A elaboração desse documento foi o início de uma série de estudos sobre “veículos de concessionária”, aqueles carros que vieram numa ocasião em que o público tinha sede por carros diferentes, mais completos, confortáveis e de novo visual, porém os fabricantes não ofereciam produtos com foco nesse nicho. Foi a ocasião em que empresas como a Sulam, Envemo e Souza Ramos, entre outras, usaram a criatividade para oferecer a um público seleto (de alto poder aquisitivo) o que o mercado de veículos originais não oferecia.

A aceitação de acessórios foi a grande democratização em termos de carros antigos. Hoje admiradores dessa história estão em busca de veículos customizados de época, carros em pleno uso com visual e modificações que retratam um período onde carros comuns ganhavam personalidade e funcionalidade para atender seus donos.

A Brasinca transformava como “original de fábrica” modelos como A20, C 20 e D20 em Blazer e Veraneio; também fazia para seus próprios clientes modelos com a mesma base. Graças às novas regras esses veículos também podem ser certificados (Imagem: arquivo do autor)

Para o próximo capítulo dessa história, alguns carros que ganharam acessórios e, hoje, são raridades.

PT

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