Depois de 25 anos de sucesso chega ao Brasil a categoria dos carros monstro, com público entusiasmado.

Dá para dizer sem medo de errar que a primeira picape com suspensão elevada e pneus grandes que apareceu no Brasil foi na televisão, no seriado “Duro na Queda” (The Fall Guy), onde uma equipe de três dublês caçadores de recompensas se deslocavam numa picape Chevrolet que era algo de outro mundo naqueles anos de 1981 a 1986, período de produção do seriado.

Nos Estados Unidos, porém, a moda de modificar as caminhonetes começou na década anterior, e o mais clássico e famoso desses carros foi a Ford F-150 feita por Bob Chandler, com pneus de 48 polegadas. O carro foi batizado de BigFoot (pé grande), em alusão ao mitológico gigante que habita montanhas americanas, e passou a definir o tipo de modificação.

Ele mesmo resolveu, em 1981, passar por cima de alguns carros velhos para ver o que acontecia. O feito foi filmado e chegou às vistas de produtores de eventos, que já no ano seguinte organizaram uma prova no Pontiac Silverdome, estádio da cidade homônima, em Michigan.

Lá, picapes com pneus de até 66 polegadas de diâmetro se apresentaram, e estava criado o termo Monster Trucks (picapes monstro, já que o americano fala coloquialmente o termo pick-up truck apenas como truck).

Encontrei esse vídeo, que pode ser visto abaixo.

Se no início a apresentação se destinava a passar por cima de carros sucateados, os obstáculos foram sendo elaborados para permitir manobras mais desafiadoras, e os carros evoluindo para serem mais estáveis, rápidos e fáceis de dirigir. Deixaram de ser carros de rua modificados e passaram a ser protótipos com chassis tubulares, vestidos com carenagens de alumínio, material plástico ou compósito de fibra de vidro, imitando carros antigos, picapes ou criações livres de estilo, não empregando hoje em dia nenhuma única peça de carros normais. Mesma receita de algumas classes de dragsters, da Nascar e Nascar truck, por exemplo, e da Stock Car brasileira. Para os preocupados com a destruição de relíquias, portanto, nenhuma preocupação.

Essa mistura evoluída ao longo dos anos 1980 e parte dos 1990, forma agora a categoria Monster Jam, oficialmente batizada assim em 1995, sob a tutela da United States Hot Rod Association (USHRA), depois desse período de mais de uma década de atividade organizada em nível local e não nacional.

A promoção da categoria é bastante reforçada e constante, e há veículos com patrocínio de estúdios de cinema, canais de televisão, marcas de carrinhos miniatura, oficinas de modificação, bebidas energéticas, óleo lubrificante, entre outros.

Tudo evoluiu muito nesse quarto de século de vida da categoria, tecnologia e habilidade de condução dos pilotos, e os carros então, são notáveis.

 

Tecnologia

Um pequeno resumo de algumas coisas muito legais nos Monster Trucks.

Chassis completamente em tubos de aço soldado, formando o alojamento para a mecânica e uma gaiola de proteção para o piloto, que senta no centro do carro, com o corpo o mais longe possível do metal, preso por cinto de cinco pontos. Além de roupa antichama e capacete, há um extintor que pode ser manuseado por ele, e mais dois direcionados para o motor e tanque de combustível, acionados por alavancas. Há desligamento de emergência de motor e de eletricidade por chaves de acionamento rápido. Externamente, os fiscais de pista podem desligar o motor e também acionar extintores do carro, caso o piloto esteja incapacitado.

O pedal do acelerador tem uma alça que segura o pé sobre ele, evitando que este saia do pedal. Esse gancho permite que o pedal seja puxado, desacelerando o carro, em caso de travamento.

Usa-se peças em acrílico transparente na parte inferior da gaiola, permitindo enxergar o solo por baixo e os componentes do carro, mas não deixando entrar excesso de terra.

Os pneus da marca BKT, um dos patrocinadores da categoria, tem 66 polegadas de diâmetro e 43 de largura (1.676 x 1.092 mm), e são inflados com pressões baixíssimas de 8 a 10 libras por polegada quadrada. Cada um pesa entre 360 e 408 kg, e trabalham em conjunto com as molas helicoidais e quatro amortecedores a gás reguláveis por roda, para absorver as pancadas dos saltos e evitar sobrecarga no corpo do piloto. Eles são preenchidos com óleo e nitrogênio, tem curso de 28 polegadas (711 mm) e são ajustáveis.

Os eixos rígidos dianteiro e traseiro eram antigamente de veículos militares, mas se mostraram muito pesados e frágeis em algumas manobras, e a categoria desenvolveu materiais específicos. Não são eixos compráveis no mercado para outras aplicações. Têm bloqueios ativados todo o tempo para manter a força por igual nas quatro rodas, e mesmo com apenas uma delas no solo há tração de sobra para mover o carro.

As árvores de transmissão (cardãs) ficam alojadas dentro de gaiolas de aço feitas de tubos e anéis muito resistentes, que evitam que no caso de soltura ou quebra dos cardãs eles caiam no chão, o que poderia ser muito perigoso para os espectadores e fiscais de pista, que são quatro dentro da arena, um em cada canto. Também as rodas são presas por cabos de aço, que as seguram em caso de soltura da manga de eixo.

Os freios a disco estão junto dos diferenciais, evitando linhas de freio longas e mais peso junto das rodas.

O trem de força é superlativo. Motor Merlin V-8 de 540 polegadas cúbicas (8,85 litros), montado no centro do carro, sendo os cardãs de mesmo comprimento. Com compressor e queimando metanol (álcool metílico), chega hoje a 1.500 cv e apresenta durabilidade elevada quando comparado a um motor de dragster, de onde se tira muito mais potência. O fabricante é a World Products, que criou o Merlin a partir dos Chevrolet de bloco grande. Quase todos os carros do Monster Jam utilizam esse motor. O câmbio é um Powerglide de duas marchas, automático, com primeira apenas para sair da imobilidade. A marca de quase todos eles é Coan Racing. Curtíssimo, faz o giro subir rápido e o urro do motor ser ouvido e sentido de longe. A terra treme!!!!

No total são cerca de 5.500 kg de massa, que se movem de forma impressionante, parecendo leve. Não se fala sobre consumo, mas meia hora de apresentação requer reabastecimento.

As fotos abaixo são da revista Popular Mechanics, e mostram alguns desses detalhes.

Dinâmica do show

Há uma apresentação uma corrida em duplas onde se marca tempo individualmente e o freestyle, onde as manobras de cada piloto são o verdadeiro show. É preciso andar em duas rodas, empinando a dianteira ou traseira, fazer os zerinhos, saltar sobre os obstáculos. A meta maior é saltar e parar com o carro em pé no topo de uma rampa.

São dois minutos de freestyle no máximo, e o público pode dar suas notas via smartphone no site divulgado no início da prova, que junto com as notas de seis juízes, compõe a média de cada competidor.

No Brasil, a apresentação foi em padrão de show, espetáculo puro, não contando pontos para o campeonato. Foram oito participantes, a saber:

• Grave Digger – Morgan Kane
• Maximum Destruction (Max-D) – Neil Elliot
• El Toro Loco – Mark List
• Monster Mutt Dalmatian – Cynthia Gauthier
• Alien Invasion – Chad Tingler
• Zombie – Tyler Groth
• New Earth Authority (NEA)  – Travis Groth
• Scooby Doo – Brianna Mahon

Vieram duas mulheres na turma de oito pilotos, e são muitas mais na categoria, sempre um atrativo interessante. Os pilotos são sempre relações-públicas das categorias, e seu desempenho ao aparecer e falar em entrevistas é pensado para cativar a torcida. Cynthia Gauthier, por exemplo, é das mais dedicadas a essa atividade, acenando o tempo todo ao público quando não está pilotando, e fazendo brincadeiras ao ser entrevistada.

Há também carros em duplicata em cada equipe, necessários devido ao enorme número de eventos de campeonato e outros beneficentes, muitos deles em causas a favor das crianças, parte importante do público. No Brasil não foi diferente, e a Arena Corinthians teve a presença de crianças de todas as idades, desde bebês que vieram nos carrinhos e nos colos, até adolescentes. Claro que há também crianças crescidas (eu), que se empolgam por esse tipo de máquina que se parece com brinquedo, tem tamanho de caminhões, e roncam forte como monstros de verdade.

Esperamos que devido ao bom público, divulgado como acima de 30 mil pessoas, faça a organização colocar o Brasil como etapa constante do calendário do Monster Jam.

O vídeo abaixo tem um resumo de manobras de todos os oito participantes.

JJ

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