Roberto Agresti recomenda:

Sim, a clássica viagem ao litoral norte paulista com o Honda Civic Touring  aconteceu. Sem rodeios, vou a um ponto que considerei surpreendente neste trajeto que para mim é uma verdadeira pista de teste: o consumo.

No final do trecho de ida, no qual segui rigidamente os limites de velocidade — muitas vezes ridículos de tão baixos — li no confiável computador de bordo do Civic impressionantes 17 km/l de média de consumo, registro este que incluiu a sempre arrastada saída da cidade de São Paulo em uma tarde de trânsito difícil (qual não é?), quase uma hora para percorrer os cerca de 20 km que separam a garagem de casa do início da rodovia Ayrton Senna.

Estes 17 km/l é uma marca que dá ao Civic Touring um surpreendente 2º lugar no ranking do consumo nesta manjada viagem de pouco mais de 200 km, que sempre que possível é incluída no cardápio servido aos carros testados no “30 Dias”. Com ela o Civic Touring perde por pouco para o recordista desta mesma viagem, o híbrido Toyota Prius, que fez  17,5 km/l no percurso planalto paulista-litoral norte.

A Honda fez um bom trabalho no Civic de décima geração

A Honda fez um bom trabalho no Civic de décima geração

Na viagem de volta, além de um pé mais pesado e da subida da serra, contribuiu para uma marca pior, 15 km/l (!!!), deixar a tecla “Econ” desligada (ela altera diversos parâmetros — ar-condicionado, resposta do acelerador e outros, visando economia). O Civic perdeu de novo para o Prius, conseguindo a média de 15 km/l enquanto o Toyota obteve 16,9 km/l.

Esta “derrota” é assim mesmo, entre aspas pois me parece injusto comparar um automóvel convencional, que explora unicamente a energia derivada da combustão da gasolina (lembremos que o Civic, assim como o Prius, não aceitam o álcool puro), com um carro que, além do motor convencional, térmico, tem motor elétrico.

A brutal capacidade do Civic Touring de aproveitar cada gota de combustível com exemplar eficiência tem nome: tecnologia, e da melhor! O moderno motor de 4 cilindros em linha de comandos de válvula que variam a abertura e fechamento das 16 válvulas conforme a necessidade, tem apenas 1,5 litro de cilindrada e por conta disso, ser pequeno, oferece “meio caminho andado” no sentido da economia, pois quanto menor a cilindrada, menor o atrito interno.  A outra metade do caminho se deve à superalimentação, a excelente colaboração da pequena turbina que se encarrega de movimentar o compressor, que entra em cena nas situações que exigem mais força, e maior mistura ar e combustível nas câmaras de combustão. Ou seja, os 173 cv só saem do estábulo caso haja necessidade. Outro fator de modernidade deste motor é o torque máximo, 22,4 m·kgf, já presente a 1.700 rpm, se esparramar sem declínio até as 5.500 rpm, que aliás é o regime no qual aparece a potência máxima.

Nas vias expressas da cidade, com trânsito normal, o Civic Touring consome pouca gasolina; faixa degradê no para-brisa contribui para a sensação de conforto

O Civic é um carro extremamente suave na tocada branda, mas nas poucas vezes que afundei o pé no acelerador com fé o Civic atendeu à expectativa. Apesar de um levíssimo retardo na resposta, típico dos motores superalimentados, quando preciso o Civic mostra as garras e revela uma potência mais do que o suficiente para progredir rapidamente. Não é um Civic Si mas empolga, mesmo se o câmbio é um CVT, que favorece o conforto mas não exalta o desempenho.

Nas mais de três horas passadas ao volante, o mais caro dos Civic confirmou os excelentes dotes de conforto comentados nos dois relatórios anteriores. As suspensões filtram mesmo tudo sem deixar o carro molenga, o silêncio a bordo é de referência e a ergonomia do posto de condução é exata.

Tanto para ir como para voltar de Ubatuba o Civic teve de encarar chuva, que variou de uma leve garoa à forte tempestade e também muita neblina. Neste clima houve chance de atestar que tanto os limpadores de para-brisa, quanto o sistema de ventilação, climatização são competentes. Ah, e ia esquecendo de dizer: na viagem de ida o ar-condicionado ficou desligado 80% do tempo, deixando assim a tarefa de ventilação do interior à cargo do teto solar, levantado apenas na parte traseira o que provoca uma excelente exaustão.  Na viagem de retorno, o ar-condicionado ficou ligado a maior parte do tempo.

Condições adversas não foram problema

Encarar alguns trechos de calçamento muito irregular e uns 700 metros de estrada de terra batida não se constituiu em problema, mesmo se em mais de uma vez senti o controle de tração atuando para valer, praticamente evitando qualquer patinadinha que fosse. Outro bom aspecto foi ver que no acidentado percurso nas proximidades da casa de praia nada raspou no solo, o que indica que as irregularidades por vezes pronunciadas podem ser encaradas sem muita cerimônia.

Na preparação para o passeio rodoviário, a colocação da bagagem no porta-malas amplo exigiu um pequeno cuidado: as dobradiças da tampa, tipo pescoço de ganso, não permitem vacilar, pois elas invadem bem a área interna do compartimento de bagagem.

As dobradiças da tampa do porta-malas, tipo pescoço de ganso, demandam cuidado no carregamento para não interferirem com a bagagem

Uma boa notícia — ótima, aliás — vem do sistema de iluminação: faróis totalmente em LED, tanto no baixo quanto no alto (e também no par de auxiliares de neblina) garantem uma bem-definida área de luz que praticamente dispensou o uso do facho alto na noite chuvosa.

A iluminação é um dos pontos altos do Civic Touring, graças aos faróis totalmente em LED

Como regra desta viagem-teste, a subida da rodovia dos Tamoios permite explorar as qualidades dinâmicas do carros no trecho de serra, que alterna curvinhas de 60 km/h com as mais excitantes curvões onde seria possível, lei e especialmente o bom-senso permitindo (!!!) explorar os limites do Civic Touring.

Equipado com controle de estabilidade, o Honda se destaca pela segurança e pelas discretas intervenções do sistema que só apareceram de fato quando, propositalmente, exagerei na dose do acelerador e ação no volante. De um modo geral muito neutro, o Civic reage de modo saudável quando provocado naquela que é a pior malvadeza que se possa fazer com um carro de tração dianteira: entrar forte e, no momento do apoio máximo, tirar o pé do acelerador e fechar o volante, quase que implorando para a traseira passar à frente. O Civic não cai no truque facilmente, não demonstra desequilíbrio e a atuação da eletrônica é ao mesmo tempo exata e quase que imperceptível.

O bom teto solar inclinante e deslizante ajuda muito no bem-estar e na exaustão do ar de cabine

Em apenas uma condição percebi alguma possibilidade de o Civic “perder o pé”: em um trecho de asfalto muito irregular onde era necessário passar do apoio extremo de um lado do carro ao outro. Ao fazer isso acelerando fundo, o que é um ponto positivo do Civic — a direção rápida, 2,2 voltas de batente a batente — pode se tornar um ponto negativo, exigindo do condutor precisão cirúrgica no controle do carro e apontá-lo para onde se quer ir. Porém friso: isso só acontece no exagero máximo, ao qual dificilmente o dono padrão de um Civic Touring irá submetê-lo.

Ainda na semana um bate e volta à Indaiatuba pela excelente rodovia dos Bandeirantes comprovou as habilidades do Touring quando o assunto é viajar — e economizar gasolina. Ida com pressa, 13,9 km/l. Volta calma, 14,7 km/l. Silêncio, conforto e sensação de segurança plena.

Encerro o relato tentando lembrar de algo que não faça você, leitor ou leitora, achar que estou babando o ovo demais em relação a este automóvel. Tento, tento e tento lembrar de algo que não me agrada neste carro — e que não esteja relacionado a gosto pessoal — mas não consigo. Me vem à mente apenas bobagenzinhas como, por exemplo, o fato de que talvez preferisse ter o teto forrado com material claro em vez do preto usado no Touring. Ou talvez que a central multimídia fosse menos enigmática para alguns procedimentos.

O Civic Touring parte para a derradeira semana do teste de 30 dias: sabor de fim de festa

Todavia, a uma semana do encerramento do teste, não há mais como não concluir que a Honda fez uma belíssima “lição de casa” ao bolar esta 10ª geração do carro mais vendido de sua história, muito possivelmente o melhor de todos Civic desde sempre.

Para o encerramento do teste, adivinhe? Muito uso urbano e a visita à Suspentécnica, para enfiar o nariz nas partes que este belo e excelente Honda esconde sob o assoalho…

RA

Leia os relatórios anteriores: 1ª semana  2ª semana

Honda Civic Touring

Dias: 21
Quilometragem total: 1.818 km
Distância na cidade: 1.101 km (60,6%)
Distância na estrada: 717 km (39,4%)
Consumo médio: 9,7 km/l
Melhor média: 17,0 km/l
Pior média: 5,8 km/l
Média horária: 25 km/h
Tempo ao volante: 73h49minutos

 

FICHA TÉCNICA HONDA CIVIC TOURING 2017
MOTOR Quatro cilindros em linha, bloco e cabeçote de alumínio, transversal, 16 válvulas, duplo comando no cabeçote acionado por corrente, variador de fase admissão e escapamento, turbocompressor com interresfriador, gasolina
Cilindrada (cm³) 1.498
Diâmetro e curso (mm) 73 x 89,5
Taxa de compressão (:1) 10,6:1
Potência máxima (cv/rpm) 173/5.500
Torque máximo (m·kgf/rpm) 22,4/1.700~5.500
Formação de mistura Injeção direta
TRANSMISSÃO
Câmbio Transeixo dianteiro automático CVT
Relações de transmissão (:1) 2,645 a 0,405; ré 1,858 a 1,264
Espectro das relações (:1) 6,53
Relação de diferencial (:1) 4,81
SUSPENSÃO
Dianteira Independente, McPherson, braço inferior triangular com buchas hidráulicas, mola helicoidal, amortecedores pressurizados e barra estabilizadora
Traseira Independente, multibraço com buchas hidráulicas, mola helicoidal, amortecedor hidráulico e barra estabilizadora
DIREÇÃO
Tipo Pinhão e cremalheira, eletroassistida com pinhão duplo, relação variável e indexada à velocidade
Voltas entre batentes 2,2
Diâmetro do aro do volante (mm) 360
Diâmetro mínimo  de giro (m) 11,2
FREIOS
Dianteiros (Ø mm) Disco ventilado/282
Traseiros (Ø mm) Disco/260
Controle ABS (obrigatório), EBD e assistência à frenagem
RODAS E PNEUS
Rodas (pol.) Alumínio, 7Jx17
Pneus 215/50R17V (Bridgestone Turanza ER33)
Estepe temporário T135/80JC16M
CARROCERIA Monobloco em aço, sedã 3-volumes subchassi dianteiro, quatro portas, cinco lugares
CAPACIDADES (L)
Porta-malas 519
Tanque de combustível 56
PESOS (kg)
Em ordem de marcha 1.326
Capacidade de carga 409
DIMENSÕES (mm)
Comprimento 4.637
Largura com espelhos 2.076
Altura 1.433
Distância entre eixos 2.700
DESEMPENHO
Aceleração 0-96,5 km/h (s) 6,9 (imprensa especializada dos EUA)
Velocidade máxima (km/h) 202,7 (imprensa especializada dos EUA)
CÁLCULOS DE CÂMBIO
V/1000 c/ rel. mais longa (km/h) 62,6
Rotação a 120 km/h, idem (rpm) 1.900
MANUTENÇÃO
Troca de óleo do motor (km/tempo) 10.000/1 ano
Revisões (km/tempo) 10.000/1 ano
GARANTIA
Termo (tempo/anos) Três anos
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  • adriano

    Tem previsão de teste igual com um Cruze?
    Seria bom para comparar o turbo flex (Cruze) com o a gasolina do Civic.

    • Adriano, não faz sentido comparar motores de quatro cilindros de potências tão diferentes. De qualquer maneira, a GM não fornece carros de teste por mais de 15 dias.

  • sigma7777777

    Sonho de consumo, mas será que vale os cerca de R$ 19 mil a mais que a versão EXL? Ao menos para mim não. Fiquei pensando se é possível instalar os tais coxins hidráulicos na suspensão traseira das versões abaixo da Touring.

  • Michel

    Em apenas uma condição percebi alguma possibilidade de o Civic “perder o pé”… Roberto Agresti e demais membros do AE, seria interessante, se possível fosse, filmar esse tipo de manobra que o público leigo desconhece. Caso alguém viesse a passar por situação semelhante, saberia como proceder.

    • Roberto Neves

      Fico extasiado lendo essas proezas ao volante descritas pelos senhores Agresti, Keller, Sharp e outros aqui. Eu não tenho um centésimo da vossa experiência e habilidade.

      • Roberto, habilidade se aprende, experiência se adquire.

  • Renato Amaral

    Tenho de concordar com o Arnaldo Keller em alguns de seus ótimos textos recém-publicados no AE. Primeiro, as novas tecnologias ou meios de transportes agregam e não eliminam as demais. Pelo resultado de consumo deste Civic, quem tem um uso predominante em estradas, não faz sentido investir em um híbrido. Outro fato em que concordo com ele é em relação ao desenho deste Civic, que não me agrada, me faz lembrar um personagem de história em quadrinhos. Mas tecnicamente parece ser um excelente carro.

  • Comentarista, lembre-se, o consumo do nosso carro é que queremos que ele apresente. Seu caso diz isso, precisar andar a 80 km/h para dar esse baixo consumo.

    • Boa tarde Bob, meu carro curiosamente apresenta consumo melhor em trajeto urbano (lembrando que moro em Brasília, trajeto urbano aqui seria misto em outras cidades) do que em estrada. Mas em estrada eu sempre ando em velocidade de cruzeiro entre 110 e 130 km/h. E já conversei com outros donos de carros com o motor do meu (Peugeot 206 e 207 e Citroën C3), bem como com a evolução dele, que é o motor 1,5 da PSA, e quase todos dizem que o consumo em estrada é alto para o tamanho dele.

      Estranho mesmo é que o 1,6 16v da PSA tem consumo semelhante, ou muitas vezes melhor, e tem 30 cv a mais.

    • Comentarista

      Bob. Eu não disse que ando a 80 km/h. Eu disse que ando a 80 km/h em média! É bem diferente. E sabemos, até como o Jambreiro falou, para dar 80 km/h de média a velocidade de cruzeiro gira entre 100-130 km/h ou picos de até mais.

    • Comentarista

      Segue link de uma das vezes que filmei porque tinha gente que duvidava.

      https://youtu.be/HoSPSV0ITsQ

  • roberto agresti

    Não incomodaram. Atuam corretamente.

  • Eduardo Edu

    A Honda não consegui gerar o mesmo frisson da oitava geração nesse modelo. Parece um bom carro, mas porque o povo está tão hesitoso quanto à ele preferindo o Corolla quase 3x mais?

    • roberto agresti

      Efeito manada?

  • Thiago Teixeira

    Tirando o Uno fire, não me lembro de nenhum motor pequeno (considerando pequeno como 1. 6L pra baixo) econômico em estrada. Meu antigo Corsa B 1L mpfi fazia 10km/l em media. Meus dois Fiestas 1L rocam faziam 12,5. O Fox do meu irmão faz 13. Meu Focus 1,6L rocam faz uns 13 também. Já o 2.0 (também Focus) chega a 16~17km/l.
    Mas pra todos eles, o diferencial mesmo é a tocada e lógico, o peso sendo levado.

  • O meu se eu andar a 90 km/h constantes (ou seja, situação de estrada) faz cerca de 15 a 16 km/L, com consumo instantâneo mostrado no computador de bordo de até 20 km/L. Mas andar a 90 km/h em estrada com pista dupla e canteiro central – como de Brasília para Goiânia, por exemplo – é irritante, dá a impressão de que o carro está lento demais.

    edit: lembrando que velocidade de cruzeiro é diferente de velocidade média. Em viagens de Brasília para São Paulo, pegando só estradas boas e duplicadas, minha velocidade de cruzeiro é entre 110 e 130 km/h. A velocidade média, também mostrada no computador de bordo, gira entre 85 e 95 km/h, geralmente.

  • João Guilherme Fiuza Lima

    Esse Civic preto é bem bonitão

  • Renato

    Não quero ser o chato que aponta defeitos em tudo, longe disso (é um excelente carro e tenho para mim que meu próximo carro será um Civic manual), mas em uma carro com inúmeros atributos positivos, faltou tato da Honda em colocar essas dobradiças tipo pescoço de ganso.
    Salvo engano, Linea e 408 já utilizavam dobradiças pantográficas.

  • Vitor Medeiros, não é problema, mas decisão (errada) do fabricante. O primeiro Corsa, o Wind 1,0. DE 1994, tinha uma ótima quinta longa. Depois estragaram o carro encurtando-a muito.

  • Vitor Medeiros, sim, mesmo câmbio. Só a versão Sport tem manual ou CVT.

  • Vitor Medeiros, depende do comprimento da reta. Se bem longa o Cruze some.

  • Vitor, cuide de no próximo comentário escrever respeitando as regras ortográficas. O AE não publica internetês. Não cabe a cada comentário seu eu ter que corrigir esses erros.

  • Vitor, nomes próprios começam com inicial maiúscula e estavam todos com minúscula: HB20, Onix, Firefly, Etios, Ford, Uno. Você não escreveria que seu nome é vitor…