Fim de semana foi movimentado na pista, no acostamento e nos camarotes

O final da temporada paulista de 2018 dificilmente poderia ter sido mais agitado: disputas intensas na pista, no acostamento e novidades acertadas em camarotes e escritórios marcaram o apagar das luzes do esporte neste 2017 de crises e soluções. Desde a reunião de velhos pilotos paulistas — que já ganhou o apelido de Turma da Naftalina —, à chegada de uma nova proposta para o Campeonato Paulista de Marcas & Pilotos, o saldo é otimista, ainda que duas equipes de kart tenham marcado presença na 500 Milhas da Granja Viana como verdadeiras militantes do estilo black bloc. No meio de tudo isso a Copa Truck garantiu a continuidade do Mercedes-Benz Challenge ao incorporar a categoria ao seu portfólio.

Esporte nada imune aos caprichos da economia, a grave crise que brilhou sobre as finanças dos brasileiros em 2017 encurtou orçamentos e grids nacionais em proporções próximas de um Grande Dilúvio. O fato de que nada menos de 176 automóveis foram inscritos na última etapa da temporada paulista brilhou mais que uma faísca e acendeu uma chama que pode ser a base de um belo churrasco no mais perfeito estilo fogo de chão, nada mais apropriado para um campeonato regional que já foi o maior do País e tem tudo para recuperar esse status. No grid mais recheado do ano viu-se pilotos de 52 carros representando vários Estados nas duas baterias da categoria Marcas & Pilotos, em boa parte do País já chamada como Turismo 1600. Falando nisso, adotar esse nome é mais do que aconselhável para acelerar a consolidação da categoria como a mais disseminada nas pistas brasileiras.

Sedãs alemães deverão competir em sete das nove etapas do calendário (Foto: Fernanda Freixosa)

Não será um trabalho fácil: o fato de ainda existirem regulamentos diferentes em vários Estados dificulta o trabalho de unificação das normas técnicas. Mais curioso disso tudo é que os próprios preparadores cobram essa padronização, mas muitos deles refutam a ideia de adotar novas regras pois, para vários deles significa abrir mão de uma receita desenvolvida por muitos anos. A uniformização de regulamentos já provou que pode trazer mais ganhos que prejuízos e existem profissionais  que atuam em vários Estados, caso do gaúcho Alexandre Rheinlander, da oficina Autotech. Entre os vários carros que utilizam motores preparados por ele estão os novos Hyundai HB20 da equipe Max Motors, que estrearam nas pistas no fim de semana e podem ser a grande surpresa do ano que vem.

Equipe Max Racing inscreveu dois Hyundai HB 20, cada um com receita diferente de preparação (Foto: Beepress)

Além da unificação de regulamentos, outra unanimidade vivida em Interlagos no fim de semana foi a reunião de velhos pilotos, organizada por Luiz Evandro Campos (“Águia”), solerte personagem de pistas nacionais e internacionais, com a colaboração de Jan Balder, que monta o paddock do Torneio Interlagos de Regularidade no “lajão”, área situada entre as antigas descida do Sargento e a curva do Laranja. Dentre outras façanhas, “Águia” compartiu um Peugeot 404 Sport Grand Prix com este colunista no Grande Prêmio Histórico da Argentina de 2012.

O Peugeot 404 de Luiz Evandro e do colunista no GP Histórico da Argentina em 2012 (Foto: ACA)

No último fim de semana o foco foi rever velhos amigos e dentro desse espírito os pilotos Bird Clemente e Mário César de Camargo Filho, o “Marinho”. foram homenageados pela FASP e pelo Interlagos Motor Clube; os dois completaram 80 anos nesta temporada e seguem sendo exemplos de pilotos e ídolos. O mecânico Miguel Crispim Ladeira representou Marinho, impossibilitado de viajar de Ourinhos até São Paulo. A dupla Ricardo Achcar e Chico Lameirão agiu de modo semelhante com os mecânicos Antônio Ferreirinha e João Português, verdadeiros exemplos de abnegação e paixão pelo esporte. Inevitavelmente o futuro de Interlagos foi assunto presente nas conversas, assim como a recuperação do traçado antigo.

Bird Clemente (D), e Miguel Crispim recebem de Wagner Gonzalez as homenagens da FASP e do IMC (Foto: Dú Cardim)

Mais para cima, no paddock dos boxes atuais, esperava-se que a Copa Truck dominasse o espaço em função da grandiosidade de sua estrutura: o que se viu foi um número surpreendente de pilotos inscritos para o final da temporada do Paulista ocupando a maior parte dos boxes. Nesse autêntico processo de miscigenação a confirmação de que as categorias do Mercedes-Benz Challenge foram incorporadas ao circo dos caminhões ganhou alguma proeminência.

Luis Sansone, João Português, Ricardo Achcar, Antônio Ferreirinha, Chico Lameirão e Norberto Jannuzzi (Foto: L.E.Águia)

O outro lado da moeda mostrou três incidentes que, em diferentes escalas, ilustraram o momento atual da sociedade brasileira. Na categoria Old Stock Race um piloto ameaçou de morte o preparador e o mecânico de um adversário e, na F-1600 dois pilotos se agrediram ao final da prova, mas tiveram seus ânimos arrefecidos antes que soasse o gongo para o segundo assalto.

O incidente mais marcante envolveu as duas equipes que disputavam a vitória na 500 Milhas da Granja Viana, a MDG Matrix e a Sambaíba Centerbus Racing, quando restavam pouco menos de 30 minutos para o término de uma corrida que durou cerca de 12 horas. Na disputa pela vitória kartistas de ambos os times começaram a provocar batidas entre si até que Tuka Rocha — então segundo classificado — aproximou-se de Rodrigo Dantas, que pilotava um kart da mesma equipe do líder da prova, Felipe Massa. Os comissários desportivos não tomaram providências para evitar os abusos, que aumentaram: ao ser bloqueado por Dantas, Rocha acabou jogando o adversário contra os pneus do acostamento na saída de uma curva e, ato contínuo, os dois se envolveram em cenas dignas de combates do tipo MMA. Ao final da prova Felipe Massa condenou a atitude dos pilotos que se envolveram na confusão, explicou que não teve participação nesse processo e se desculpou pelo incidente.

Classificar um ou outro como culpado não resolverá  a questão: o ônus desse triste episódio é decorrência da grandiosidade que anulou o espírito de confraternização característico das primeiras edições do evento e instalou um clima onde orçamentos significativos incentivam disputas nem sempre esportivas, tal qual ocorreu. Como se não bastasse o prejuízo que as partes envolvidas causaram a tantos outros que trabalharam com seriedade e dignidade, a competição é promovida por uma associação paralela à Confederação Brasileira de Automobilismo, a Liga Desportiva de Automobilismo, formada pelos clubes da Granja Viana e Piracicaba, situação que cria mais confusão. Vale dizer que os diretores do Kart Clube da Granja Viana, entidade fundadora da LDA, já negociam voltar a atuar sob jurisdição da CBA e sob supervisão da FASP em 2018.

Enquanto isso não acontece será interessante acompanhar os desdobramentos futuros para saber se a LDA tem efetivamente um tribunal para cuidar do assunto e se a CBA, que soltou uma nota repleta de expressões triviais para a ocasião (que inclui “vir a público manifestar seu total repúdio ao aviltante fato ocorrido…”), se comportará sobre o assunto. Afinal. Tuka Rocha é piloto filiado a essa entidade, assim como muitos outros que disputaram a prova.

Vale lembrar ainda que seria oportuno a mesma CBA checar se a Liga Independente de Automobilismo, que organiza provas em Interlagos e outros locais, também cumpre os requisitos legais para a formação que esse tipo de associação demanda legalmente. Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar e a LIA não organiza provas na Granja Viana…

WG

A coluna “Conversa de pista” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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