Chegou a vez de falar das conversões para motorhomes usando veículos com a mecânica da Kombi fabricadas pela INVEL, encerrando este ciclo dedicado a produtos que originalmente foram oferecidos por fábricas, como as que vimos anteriormente: Carbruno (Parte 1), Karmann-Ghia do Brasil (Parte 2 e Parte 3) e Minimax (Parte 4). Mas, certamente, ainda há um grande número de conversões feitas por oficinas menores e até por particulares na base do “faça você mesmo”. Cobrir estas outras conversões, dada a sua quantidade e diversidade, é um outro capítulo, e representaria um outro e interessante desafio, ou talvez uma missão impossível…

A INVEL – Indústria de Veículos e Equipamentos Especiais Ltda. foi criada em Caxias do Sul, RS, em 1978, como subsidiária da Marcopolo (que por sua vez foi a sucessora da tradicional fabricante de ônibus Nicola & Cia Ltda). A INVEL tinha o objetivo de fabricar micro-ônibus, veículos comerciais leves e motorhomes com mecânica Volkswagen 1600. No ano seguinte, ao absorver o patrimônio da Nimbus, teve a razão social alterada para INVEL S.A. – Ônibus e Veículos Especiais, passando também a produzir carrocerias para ônibus urbanos. Mais tarde, em 1983, com o encerramento da fábrica Eliziário de Porto Alegre (igualmente adquirida pela Marcopolo), tornou-se responsável pela fabricação daqueles ônibus até 1987, quando a marca foi extinta.

Abaixo um interessante catálogo da INVEL já no estágio de também ser fabricante de ônibus, que tinha escritório de vendas em São Paulo, SP, na avenida Pacaembu. Este catálogo descreve os tipos de veículos leves, com a mecânica da Kombi, fornecidos na época e também apresenta as especificações técnicas dos mesmos, estas divididas em duas categorias, das quais derivavam os seis tipos descritos: Microbus e Microvan. A fonte deste raro e interessante catálogo foi o site Caminhão Antigo Brasil:

Um dos acessórios oferecidos como opcional neste catálogo é o “rodado duplo na traseira”, que fazia o veículo ficar com quatro rodas atrás, era uma opção interessante que aumentava a estabilidade.

O foco desta matéria são os veículos com a mecânica da Kombi, se bem que a INVEL acabou usando a mecânica da Kombi com motor a ar, depois com o motor Diesel da Kombi, que em muitos casos foi substituído pelo motor AP a gasolina devido aos problemas que os usuários encontraram com estes motores Diesel. As suas carrocerias eram feitas em compósito de  fibra de vidro com acabamento em alumínio e estrutura em perfilados de aço galvanizado; o revestimento interno era feito em lâminas de aglomerado.

Além do chassi de Kombis, a INVEL empregou chassi de Chevrolet D-20 e Ford F-250; portanto o leitor verá em suas pesquisas que existem várias versões de motocasas INVEL com praticamente a mesma estrutura mas com diferentes motorizações — isto pode causar certa confusão ao analisar os exemplos existentes.

No XI Salão do Automóvel, realizado em 1978, houve uma enxurrada de lançamentos de motocasas. Além da Kombi Caracol, como vimos na Parte 4 desta matéria, a fábrica Pirassununga lançou uma motocasa baseada no Mercedinho LO-608-D e a INVEL lançou o seu modelo.

Na matéria sobre este salão do automóvel, publicada em 16/11/1978, o Jornal do Brasil disse o seguinte sobre o lançamento da INVEL:

“A INVEL levará um modelo de motor home – casa sobre rodas – montado sobre um chassi alongado da Kombi. Com a carroceria em alumínio e fibra de vidro, o veículo terá duas versões de acabamento, ambas equipadas com vários armários embutidos, chuveiro com água quente e sanitário químico opcional.”

O estande da INVEL neste salão foi magnífico, apresentando cinco das versões que ela produzia, a saber: furgão, micro-ônibus,  perua escolar, ambulância e motorhome, como se pode ver na foto abaixo:

Estande da INVEL no XI Salão do Automóvel em 1978 (Foto: Quatro Rodas)

O relacionamento da INVEL com a Volkswagen se consolidou no ano seguinte. Tanto que na matéria assinada por Waldyr Figueiredo para a revista O Cruzeiro em sua edição  de 13 de abril de 1979, com o título “Cinco novos veículos na rede de revendedores Volkswagen”, foi reportado o seguinte quanto aos cinco lançamentos conjuntos Volkswagen e INVEL, em especial sobre a motorhome – cujo texto explicativo é reproduzido abaixo, por ser objeto de nossa matéria:

“A rede de revendedores Volkswagen está comercializando cinco novos veículos produzidos pela Indústria de Veículos e Equipamentos Especiais – INVEL, em sua fábrica em Caxias do Sul,RS.

Dois ônibus — um executivo e um escolar; um furgão; uma ambulância e um motorhome, econômicos e duráveis, utilizando mecânica Volkswagen, com estrutura de aço e perfis de aço zincados, utilizando, interna e externamente, fibra de vidro reforçada em alumínio (Nota do autor: não reproduzi aqui os esclarecimentos sobre os demais tipos, pois fogem do contexto deste trabalho).

MOTOR-HOME

Para aqueles que gostam de viajar sem a preocupação de reservas de hotéis, a INVEL tem um motor-home — casa sobre rodas — que atende perfeitamente, e com muitas vantagens sobre os demais existentes no mercado, a todas as exigências dos usuários.

Esse motor-home tem capacidade para abrigar, confortavelmente, quatro pessoas.

Está equipado com sanitário, chuveiro, cozinha em aço inox com fogão a gás de bujão, geladeira, armário de cozinha, armário de roupas, 1 sofá-cama de casal, 1 beliche de solteiro, 1 mesa e 4 cadeiras desmontáveis (tipo praia), 1 toldo de lona plástica e armação tubular de aço, adaptável à lateral da carroceria, duas grandes janelas laterais e uma traseira, caixa d’água acionada por bomba elétrica.

Os cinco veículos da INVEL já podem ser encontrados nos revendedores Volkswagen em todo o país, cuja rede está, inclusive, preparada para oferecer toda a assistência técnica aos veículos no que diz respeito à parte mecânica.”

Reprodução da matéria da revista O Cruzeiro de 13 de abril de 1979 que fala do furgão, do micro-ônibus e da perua escolar, da ambulância e do motorhome (Fonte: pesquisa Hugo Bueno)

Tomando por base estas divulgações tem-se a ideia que as conversões para motorhomes eram feitas pela própria INVEL, mas este é um item que não pôde ser confirmado. Por outro lado, muitos motorhome “descendem” de outras versões da INVEL que foram transformadas para motorhomes por terceiros ou na base do “faça você mesmo”.

Um exemplo disto foi apresentado pelo site Macamp e mostra um INVEL ano-modelo 1978 que foi transformado para motorhome em 1989. Este exemplar estava à venda e sua especificação apregoava que o motor é 1,6 Diesel, e seus equipamentos são: bomba de água automática, aquecedor de água a gás, bateria auxiliar, fogão 2-bocas com forno, refrigerador de 90 litros elétrico e vaso sanitário Potti. Abaixo, fotos deste exemplar publicadas pelo site Macamp:

Com isto há várias soluções circulando. Um exemplo disto são as portas, há motorhomes INVEL com duas portas na frente e a porta de acesso ao salão, convivendo com alternativas que só têm a porta de acesso ao salão (que eu acho insegura em caso de acidente). Este aspecto denota de que versão original o motorhome derivou. A versão de motorhome mostrada nos catálogos de fábrica não tem duas portas de acesso na frente.

Na arquitetura interna as diferenças são ainda maiores. Não se observa uma padronização como se vê nos exemplos mostrados nas partes anteriores desta matéria.

Desta vez a obtenção de respostas a nosso questionário também não foi nada fácil, e para mostrar a dificuldade que se tem de vencer quando se está pesquisando material para as matérias, veja este exemplo. Nem todas as pessoas que são contatadas respondem dentro do que se necessita numa matéria como esta. Ou seja, precisamos de respostas que transmitam as experiências dos usuários, para que os leitores possam fazer uma ideia destas diferentes experiências. Um dos entrevistados (que consegui contatar através de um site de vendas onde ele estava oferecendo o seu motorhome) enviou, inicialmente, as seguintes respostas ao questionário (veio escrito em caixa alta mesmo):

“INVEL ANO E MODELO 1982, TENHO A CINCO ANOS,1) É BOM 2)  É BOM 3)   FREIO  É DE LONA DEVAGAR 4) MOTOR 2.0  É BOM 5) NÃO 6) NÃO 7) NÃO 8) NÃO 9)NÃO 10) NÃO”

Certamente estas respostas foram dadas com toda boa vontade, mas nada como um telefonema para ir repassando as respostas e ir colhendo alguns dados a mais para ilustrar a matéria. O importante e a experiência com o seu motorhome INVEL que é o que se busca colher no caso. Eu apresento este caso para ilustrar os desafios que têm que ser vencidos para resgatar material para as matérias.

Das várias tentativas que fiz, consegui contatar dois proprietários de motorhome INVEL (abaixo as fotos dos respectivos perfis no WhatsApp):

O Pedro Grande, de Porto Alegre, RS, curtiu o seu motorhome INVEL ano-modelo 1982 por cinco anos. Em vez de fotos ele preferiu enviar um vídeo pelo WhatsApp que eu carreguei no YouTube para poder incluir aqui na matéria; com este vídeo ele apresenta o seu motorhome:

Também participa desta matéria o Eduardo Pereira, de São Paulo, SP, que tem a sua INVEL 1982 há dois anos e agora a está convertendo para food truck, como mostram as fotos abaixo:

Agora vamos às respostas ao questionário:

1) Qual é o comportamento dinâmico de sua Kombi adaptada para acampamento?

 Pedro: É bom. Não há problemas de vento, não puxa para lado nenhum.

Eduardo: No meu caso do VW INVEL, por possuir maior tamanho, sofre um pouco com ventos laterais sim.

 

2) Qual a influência do peso adicional, e, dependendo do caso, da altura adicional?

Pedro: É bom. Não se sente a influência do peso pois é mais leve que a Safari, com toda em esquadria de alumínio. O meu originalmente foi um micro-ônibus que, depois, foi convertido para motorhome.

Eduardo: No caso do meu veículo, o peso não influencia pois possui motor AP 1,8 Claro que fica mais lenta, mas ao mesmo tempo, fica estável com o peso.

 

3) É necessário algum cuidado adicional ao dirigir?

Pedro: Freio de lona que é devagar. O freio, que é a tambor e é o mesmo da Kombi, exige cuidado. Ando com este motorhome no máximo a 80 km/h e dirijo com muito cuidado sempre observando as distâncias de frenagem.

Eduardo: Sim, o carro é largo e alto

 

4) O motor recebeu algum tipo de preparo para aumentar sua performance?

Pedro: Motor 2,0 é bom. Este veículo, em sua versão original de micro-ônibus, veio com motor Diesel da Kombi, que depois foi trocado pelo motor 2,0, a gasolina, do Santana, aliás uma conversão que era muito frequente dados os problemas que aqueles motores Diesel apresentavam.

Eduardo: Está com motor de Santana AP 1,8.

 

5) A suspensão recebeu algum tipo de reforço e/ou retrabalho?

Pedro: Não. A suspensão é original da Kombi.

Eduardo:
Não.

 

6) Um carro transformado exige algum cuidado a mais em termos de segurança, já que ele pode chamar atenção de assaltantes? Os passageiros passam a correr algum risco adicional?

Pedro: Não. Como é um micro-ônibus pequeno este veículo não chama a atenção. Sua aparência é a mesma das versões escolares.

Eduardo: Sim, e o meu no caso tem fechadura e trava nas portas.

 

7) Existe algum cuidado adicional nas manutenções, como, por exemplo alguma revisão estrutural especial?

Pedro: Não precisa de um cuidado adicional.

Eduardo: Manutenção básica, pois se trata de mecânica simples Volkswagen.

 

8) Existe algum aumento de custos por ser um carro transformado, tipo IPVA, seguro, quando comparado com um carro normal?

Pedro: Não. No caso até a troca de uma lanterna dianteira que foi adquirida numa loja da Marcopolo de Porto Alegre custou R$ 5,00. Esta loja tem de tudo para os veículos fabricados por sua subsidiária INVEL a custo módico.

Eduardo:
Seguro obrigatório mais caro.

 

9) Seu carro já foi usado em alguma aventura maior, digamos uma viagem até a Patagônia, ou outro percurso distante? Caso afirmativo, como foi o suporte encontrado no caminho? Havia quem se dispusesse a ajudar? Você já foi um viajante aventureiro?

Pedro: Não. Durante estes cinco anos a viagem mais longa foi à cidade de Gravatal, SC. No mais o Pedro faz parte do Rancho Móvel RS Associação Gaúcha dos Proprietários de Veículos de Recreação; ele é um assíduo participante dos frequentes encontros desta associação de “Ranchomobilismo”, participando de várias atividades como encontros, bailes, campeonatos de bocha, sinuca, canastra, xadrez, pingue-pongue, etc.

Eduardo: Ainda não.

 

10) Você tem algum comentário a mais que pudesse nos dar para a elaboração de uma matéria sobre Kombis transformadas para uso em acampamento e como motohomes?

 Pedro: As motocasas Invel são uma solução para quem quer um veículo barato para um casal e um filho. Nestes casos não tem coisa melhor.

Eduardo: Sim…esse veículo é muito simples e tem baixa manutenção por ter chassi da Kombi e motor VW.

Com isso terminamos este trabalho de pesquisa que, como sabemos, começou com uma pergunta do leitor “Mr. Car”. Acho que de início não se imaginava o trabalho que seria necessário desde a concepção do esquema a ser seguido, a busca de usuários para colaborar no preenchimento do questionário, a pesquisa de resumos das respectivas histórias das motocasas que focamos aqui. Acho que foi feito o que se pretendia fazer e fica o agradecimento ao “Mr. Car” pela sugestão do assunto desta matéria.

Navegador das partes desta matéria:
Parte 1 – Kombi Turismo da Carbruno
Parte 2 – Karmann Mobile Touring
Parte 3 – Karmann Mobile Safari
Parte 4 – Kombi Caracol da Minimax

AG

Nesta Parte 5 contamos com a participação do Pedro Grande e Eduardo Pereira, proprietários de motorhomes  INVEL que se dispuseram a responder ao questionário, a quem agradeço. Também contamos com a sábia ajuda do pesquisador Hugo Bueno que enviou dados da imprensa da época do lançamento dos veículos da INVEL com a mecânica da Kombi, com isto enriquecendo este trabalho, nosso agradecimento a ele também. Novamente fica aqui registrado o agradecimento ao Eduardo Gedrait Pires.
Registro que as contribuições, no caso as repostas, dos colaboradores, não foram moderadas e apresentam tanto as opiniões e experiências deles, como mostram o seu grau de conhecimento sobre o produto em questão.
NOTA: Nossos leitores são convidados a dar o seu parecer, fazer suas perguntas, sugerir material e, eventualmente, correções, etc. que poderão ser incluídos em eventual revisão deste trabalho.
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A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.


  • Janos Markus

    Nos anos 80 esse veículo era usado pelas autoescolas de Belo Horizonte para as aulas de obtenção de carteira categoria “D”.

  • Fat Jack

    Uma série espetacular, mostrando não só a versatilidade do conjunto das Kombi como a brande procura que havia desta base pelos fabricantes dos fora de série para trabalho ou lazer. Pena a VW ter adiado tanto soluções como a porta corrediça lateral e ter abandonado esta segmento, alguns dos veículos que tomaram seu lugar no mercado não tinham a mesma capacidade de aguentar os uso “forçado” nem apresentar o mesmo custo de manutenção, coisas que ela tirava de letra.

  • Salve, Uber, que bom que você acompanhou esta maratona em cinco partes!
    O Renegade marcou época, como uma das mais criativas adaptações do chassi do Fusca.
    Já o “Minihome” estava destacado para um anexo de curiosidades sobre este tema, mas como a matéria já estava muito grande este anexo acabou não sendo incluído.
    Muito obrigado por seu comentário que, seguramente, vale por cinco, combinado?

  • Estevan Dario

    Muito legal essa série de matérias, parabéns!