Este causo, na verdade, é uma história de vida, contada com maestria pelo Régis Luiz Feldmann, que conhecemos na Parte 3 da matéria “Kombis levando a casa nas costas”. Ele é o grande preservador das Karmann Mobile Safari e em seu causo explica a ligação de muitos anos com as Kombis.


 

KOMBI, UM PEDAÇO DE NOSSAS VIDAS
Por Régis Luiz Feldmann

Corriam as primeiras luzes da década de 60 quando meu pai comprou para a empresa uma Kombi. Era a versão luxo, dois tons de cinza, logo apelidada de “saia e blusa”, para-brisa repartido ao meio e os curiosos indicadores de direção que saiam de dentro da coluna da porta. Adotei-a (ou ela me adotou) imediatamente. Tinha 17 anos, nem habilitação possuía, mas em cidade pequena naquela época isto não fazia muita diferença. Virou “meu carro”. Aquele assento único na frente era um verdadeiro sofá. Namorada ali sentava coladinha.

Seus pneus tinham banda branca, os bancos ganharam capas de plástico para proteger o estofamento e por fora alguns cromados a mais brilhavam. No painel uma curiosa rosa de plástico presa nas grades. Hoje acharia um horror aquela rosa, mas naqueles tempos dourados! …Um tchan a mais!

Antes dos 18 anos fui para a escola de aviação civil, próximo de onde morava e a “saia e blusa” era pau pra toda obra. Tinha que usar vias secundárias para chegar lá, pois a Polícia Rodoviária Federal não dava moleza. Um incrível contraste, para pilotar aviões eu podia me habilitar antes dos 18, para automóveis não.

Foram tempos gloriosos; levamos para um lado e outro os pilotos da Esquadrilha da Fumaça e o já lendário capitão Braga, seu comandante, quando no aeroclube estiveram.

Em agosto de 1961, quando da renúncia de Jânio Quadros, o exército nos manteve a disposição para pilotar as aeronaves e ficamos detidos a serviço do “movimento da legalidade”. Eu já achei que ia para a “guerra” de Kombi. Coisa de guri…!

Naquela ocasião ela serviu para balizar pista à noite, carregar gasolina de aviação e até local para dormir. Mas a roda da vida girava, a aviação saiu de minha vida, fui trabalhar e terminar o curso profissionalizante à noite, namorei, noivei e casei…de Kombi! O carro da lua-de-mel.

Em 1967 nasceu a primeira filha. E a amada “saia e blusa” cumprindo seu papel de carro da família. Pois a danadinha da primogênita custava para dormir até que uma noite, duros de sono e sem saber como parar aquele choramingo, ainda de pijamas, embarcamos na Kombi e fomos passear pela cidade deserta. Foi um santo remédio, acabávamos de descobrir uma “embaladeira” de primeira qualidade. Noites e noites circulamos com a Kombi até o nenê dormir. Seguros tempos em se podia fazer isto em madrugadas de cidade deserta.

A “saia e blusa” cumpriu longa quilometragem, mas terminou seu tempo. Ela foi uma relação de amor em fase inicial de minha vida.

A empresa necessitava e outras Kombis passaram por ela. Mais modernas, serviram a empresa com valor e aos finais de semana eram nossos veículos de lazer para acampar, caçar nos imensos campos do Rio Grande, carregar tralhas para a praia e outras tantas aventuras saudosas.

Em 1999, a esposa e eu aposentados, filhas criadas, netos em volta, sentimos o chamado da estrada. Já tínhamos percorrido meio Brasil e alguns países da América do Sul de motocicleta, mas estávamos “adormecidos”.

— Vamos para a estrada novamente. Mas com quê?
— De Kombi, ora bolas!  — disse minha esposa.

E assim, novamente, entrou em nossa vida uma Kombi. Ano 1982 com carroceria montada pela Karmann-Ghia do Brasil com o nome de Safari, matrícula de fabricação 0298. Rebrotava o antigo sentimento da relação de amor com o veículo. Tem até nome nossa Kombi-home… “Mimosa”!  Pois esta Kombi completou conosco, em abril de 2017, dezoito anos. E até 17 de novembro de 2017, estando no farol de Santa Marta, localizada no cabo de mesmo nome, em Laguna, Santa Catarina, nossa Safari já atingiu 105.513 km*. Sobre suas rodas cruzamos outra vez rincões deste Brasil e países vizinhos.

A Kombi marca indelevelmente minha vida e da esposa desde jovens; foi à escola, ao curso de pilotagem, namoramos, noivamos, casamos, fizemos lua-de-mel, ninamos filha, foi carro de trabalho, carregamos mais filhas, acampamos, foi carro de caçadas e pescarias e agora, no ocaso da vida, novamente andamos de Kombi, uma Kombi com casinha nas costas.

Já não sei mais afirmar se a Kombi faz parte de nossas vidas ou nós fizemos parte da Kombi.

 


 

(*) NOTA: Durante a preparação da publicação deste causo eu entrei em contato com o Régis para atualizar a quilometragem percorrida com a “Mimosa”, pois o dado original do causo era de 80.000 km em abril de 2015, e ele comentou estar em Santa Catarina, perto do farol de Santa Marta, o meu pedido de fotografias foi quase automático e ele, prontamente, enviou fotos incluem duas feitas por drone. Vamos às fotos:

O Cabo de Santa Marta onde o farol de de mesmo nome está desde 1891, há 126 anos, com seus 29 m de altura, e a uma altitude de 74 m. O seu alcance é de 46 milhas náuticas (85 quilômetros). Foto tirada pelo Régis com um drone

 

Um vista aérea do camping em que o Régis e seus colegas estão. À direita da foto está a “Mimosa”, a Safari do Régis. E à frente dela está o Régis de blusa bordô operando o drone

 

Atendendo a meu pedido de uma foto, o Régis tirou esta à frente de sua Safari, com escudo da Associação Gaúcha de Safaristas no protetor do estepe

Fica aqui o agradecimento ao Régis tanto pelo belo causo, como pela antiga foto de abertura com aquela Kombi “saia e blusa” que acompanhou a vida dele por tantos anos — onde ele, então com dezoito anos, aparece junto a seu irmão menor, como por estas fotos “de última hora”. Também dou os meus parabéns pelo importante trabalho que ele tem executado todos estes anos na preservação das Safaris, no seu cadastro, na orientação aos usuários destes veículos e na preservação da história destes veículos no Brasil.

AG

A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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