Este fim de semana é o do Grande Prêmio do Brasil de F-1, evento inaugurado em 1972 e que desde 1973 compõe o calendário do campeonato mundial. Tudo indica que a edição de 2017 será a última com a participação de um brasileiro por um período cujo fim ainda é difícil de estimar. Enquanto isso, o autódromo de Interlagos segue vítima de disputas políticas e econômicas que em nada colaboram para o desenvolvimento do esporte praticado em casa. Não é tese de dissertação para PhDs em física quântica questionar se o preço que o Brasil paga para estar no calendário da F-1 atual é justo.

Em painel sobre esportes a motor realizado ontem no escopo do Congresso anual da SAE Brasil, do qual fui moderador, a pergunta foi colocada ao presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo, Waldner Bernardo. Face à sua crença que o GP sem um brasileiro perderá impacto e poderá afetar a presença do Brasil na categoria, como sede ou como participante, Bernardo foi lembrado que a Finlândia — de onde saíram Kimi Räikkönen e Valtteri Bottas — jamais promoveu um GP e que a Holanda, país que emite a licença de Max Verstappen, desde 1985 não recebe uma prova da categoria.

Muito além disso, a Argentina não está no calendário desde 1998 e em termos continentais seu automobilismo só perde para o praticado nos Estados Unidos no que se refere à tecnologia, infraestrutura e atividade comercial. Ao mencionar este aspecto puramente econômico deve-se dar crédito a Bernardo ao analisar sua apresentação no referido painel: a partir de números críveis ele demonstrou o potencial do esporte como negócio e mercado de trabalho para profissionais de alto nível, gancho para para sua participação em um debate promovido pela SAE Brasil, uma sociedade de engenheiros da mobilidade. Ele próprio profissional da área, Dadai (como ele é mais conhecido) ressaltou que o esporte precisa e tem espaço para seus colegas.

O caminho para preencher essas vagas não é curto, a julgar pela proposta de trabalho que felizmente é antagônica ao seu antecessor, Cleyton Pinteiro, nome hoje apenas lembrado por ausência e inatividade sem precedentes. Para fazer florescer as vagas de engenharia e formar mais pilotos — há anos o número de filiados à CBA está estacionado próximo aos 10.000 nomes, cuja filiação garante 22% da renda da entidade —, Bernardo investe na criação de escolas de kart, algo que faz sentido já que os sucessores de Massa, Hamilton, Alonso e Vettel chegam à categoria cada vez mais jovens e percorrendo a distância que separa a F-1 do kart em velocidade digna de internet.

Tudo muito bem, tudo muito bom… mas como ficam os praticantes que não almejam um lugar num universo restrito de 20 lugares e de vagas definidas por interesses comerciais acima de qualidades como piloto? Cada polo brasileiro de automobilismo pratica o esporte com regulamentos díspares, parque automobilístico sucateado e praticamente não há alma disposta a repensar o modelo de negócios em vigor. Mais, são isolados os esforços em reatar relações com a indústria do automóvel e das autopeças, as maiores beneficiadas pelo uso de seus produtos em pistas e percursos de competição.

Em meio a tudo isso, o prefeito de São Paulo e o promotor do Grande Prêmio do Brasil só pensam em Interlagos como uma galinha que bota ovos dourados para suas próprias omeletes. A comunidade do automobilismo brasileiro não é contra a realização do evento, muito pelo contrário, mas não concorda com ônus da interdição do circuito por obras eternas, malpensadas e que não agregam nenhum valor ao esporte nacional. Não seria nada mau se prefeito e promotor se tornassem vegetarianos puros e deixassem o autódromo nas mãos de quem pratica uma agricultura orgânica. Teríamos um automobilismo nacional, e sobretudo regional, mais sadio e em condições de chegar à F-1 livre de agrotóxicos.

WG



  • RoadV8Runner

    Eu estou bastante preocupado com o futuro de Interlagos, pois os vereadores votaram a favor da privatização do autódromo. Baseado na condição de abandono que o automobilismo brasileiro se encontra há tempos, acho difícil aparecer um interessado em comprar o autódromo e mantê-lo com foco em competições a motor.

    • RoadV8Runner, olhe o que Doria twettou hoje:
      “Estou muito feliz com a votação favorável à privatização do Autódromo de Interlagos. Os vereadores compreenderam a importância da desestatização na modernização do complexo, geração de novos empregos e arrecadação de recursos onde é prioridade à população.”
      Eu disse que esse cara odiava automóvel, não disse? A última frase mostra bem isso, e que é um esquerdopata fdp.

      • Antonio F.

        Única população que é prioridade para esses nefastos é a população de parentes, amigos, apadrinhados, comissionados, laranjas..

      • RoadV8Runner

        Bob, estamos ferrados, é hipocrisia em cima de hipocrisia, tudo mascarado como se fosse em nome do “povão”, do bem comum… Mas o “povão” que gosta de automobilismo não conta.

    • Antônio do Sul

      A venda, pura e simples, pode colocar a existência do autódromo em risco. O ideal seria fazer uma concessão para que um particular investisse no autódromo e fosse remunerado com os recursos obtidos da sua exploração.

      • Curió

        O pressuposto de uma tal concessão é que o autódromo dá lucro; se dá lucro, porque entregar o lucro a um particular e não à prefeitura?

  • Antonio F.

    Não sou totalmente contra o fim de Interlagos, o tempo passou e o mítico autódromo não se modernizou como seus congêneres, aquilo lá está largado às traças faz tempo, acho que o valor necessário para equipará-lo aos melhores do mundo seria impensável num país onde a corrupção está entranhada no DNA dos políticos, melhor construir outro num local turístico por exemplo, como era o belíssimo autódromo de Jacarepaguá. Reconheço que é muito difícil, o automobilismo está praticamente morto no Brasil.

    • Antonio F, concordo, exceto no Rio Grande do Sul. Parece outro país.

  • Marco de Yparraguirre

    Wagner: nossos dirigentes e o nosso povo só querem saber de futebol. Não temos uma cultura automobilística como tínhamos nos anos 60/70/80, essa cultura acabou no meu modo de ver. Estamos pobres, sem saída e com uma classe média reduzida, a classe que move o país. A decadência da sociedade é notória. Inclusive o futebol está reduzido a cinzas,muito longe do que foi anos atrás. Não há espaço para automobilismo no Brasil.
    O populismo criado por certas classes políticas vão acabar com os autódromos brasileiros, transformando-os em sambódromos e coisas afins.

  • José Rodrigues

    Adelano, entenda uma coisa: PSDB não é nem nunca foi de direita, sequer de centro. PSDB é no máximo uma “esquerda moderada”, principalmente em comparação com o PT. No Brasil não há nenhum partido consolidado de direita hoje. Os que têm ideias mais à direita ou são fisiologistas (DEM, p.ex., que não tem pudores em se aliar com os vermelhos, PMDB, que se inclina para onde o vento assopra), ou são nanicos e caricatos, indignos de serem levados a sério (PRTB, PSC), ou demasiadamente jovens para ter alguma expressão (NOVO, PEN [transformado em Patriota para abrigar o Bolsonaro]). O que podemos esperar é que os partidos de direita cresçam, tanto em estatura política quanto em apoio popular; enquanto isso, vamos votando no “menos pior”, no “menos esquerdista”.

  • Rodrigo Ponce

    Eu acho que o principal motivo de não termos perspectiva de ter um piloto brasileiro em um curto prazo na F-1 é a própria desorganização do automobilismo nacional, várias categorias simplesmente fecharam as portas. Sobre o GP do Brasil ser ameaçado pela ausência de pilotos brasileiros, acho improvável, vários países sem a menor tradição no automobilismo, como China, Hungria, etc, ainda mantém os seus GPs. Se for decretado o fim do GP do Brasil, será por outros motivos. Confesso que sou a favor da privatização de Interlagos, desde que seja utilizado para fins automobilísticos, quem sabe com a construção de um parque temático e um museu, afinal, acervo temos de sobra.

  • REAL POWER

    Se eu não estiver enganado, já foi tentado, com a LIA, Liga Independente de Automobilismo. Mas tem muita gente grande metida na CBA que barrou, algumas provas de arrancada no interior de SC e RS promoviam provas pela LIA.

  • Rey

    A maioria são privados.

  • Jorge Luiz, fábrica Ford em Guaíba não chegou a ser construída, o governador petista Olívio Dutra cancelou o projeto aprovado pelo governador anterior, Antônio Britto (PSDB). O petista queria cancelar até a fábrica da GM em Gravataí, mas já estava praticamente pronta. Eu estava no grupo da GM que foi mostrar a fábrica em final de construção ao petista. Ele ficou literalmente boquiaberto com o que via enquanto caminhávamos todos pela fábrica, ele não devia fazer ideia do que se tratava.

  • Fat Jack

    A fábrica da Ford foi para Camaçari quando Olívio Dutra do PT (partido maldito na minha opinião) assumiu o governo do estado do Rio Grande do Sul e desfez todos os acordos firmados entre o estado e a fábrica pouco antes. Na verdade, foi aquele tipo de atitude em que ambos saíram perdendo, pois os primeiros exemplares daquela fábrica sofreram de crônica falta de controle de qualidade enquanto o citado estado perdeu horrores de arrecadação de impostos indiretos.

  • Fat Jack

    De fato há, é só não se tem uma visão mais clara disso porque (ao contrário de algumas categorias como a moto GP) outras não tem acesso do grande público telespectador. Só nos pacotes mais caros se tem acesso aos canais que transmitem essas categorias.