O AE, pelos seus editores, dá extrema importância à segurança ao dirigir e por isso acho ser meu dever compartilhar com o leitor ou leitora um pouco da minha experiência de 61 anos dirigindo, dos quais 57 habilitado.

Dirigir parece tarefa fácil, mas não é. Na cidade as coisas são mais simples, até pelas velocidades médias mais baixas, porém dirigir na estrada requer mais destreza e cuidados ao volante do que se supõe.

O que segue é o que chamo de Dez Mandamentos da Estrada, que reputo importantes de serem observados para dirigir com segurança nas viagens, sejam curtas ou longas.

 

1º Mandamento: é viagem, não corrida

Há uma tendência de se achar que ao pôr as rodas na estrada começa uma corrida. Não só na questão velocidade pura e simples, mas também e principalmente na disputa por posições, e essa disputa acaba levando a comportamentos arriscados. Para exemplificar, há o caso de se ultrapassar alguém, este se sentir “humilhado” e partir para o “contra-ataque”, procurando ultrapassá-lo, daí nascendo um pega ou o tal “disputar corrida por espírito de emulação” de que a trata o Art. 173 do CTB. Pegas em estrada muitas vezes terminam mal. Na estrada, há que se manter um ritmo normal dentro dos limites de velocidade e das condições. Há que se exercitar a paciência (ver isso adiante).

Estrada é para ser percorrida, não disputada (Foto: gazetadopovo.com.br)

2º Mandamento: nunca ser obstáculo

A melhor maneira de encarar uma estrada é a conscientização de que somos — motorista e carro — uma célula num corpo e que esta célula não deve atrapalhar o funcionamento desse corpo. O posicionamento do carro na estrada deve ser tal que nunca venha a se constituir num “obstáculo móvel”. Isso significa jamais trafegar abaixo da velocidade do fluxo, e se vê muito isso. Parte da culpa é da sinalização quando ela diz “Velocidade máxima permitida”, quando seu sentido deveria ser subentendido como “Velocidade recomendada”. É na ultrapassagem desses “obstáculos móveis” que muitos acidentes acontecem. Quanto mais uniformemente a massa de veículos trafegar, melhor. Procure sempre, dentro do possível, rodar no limite regulamentado. Como esses limites são muito baixos no Brasil, não há risco algum nisso. É comum ver numa autoestrada de 120 km/h de limite carros rodando a 100 km/h e até menos.

Não se deve dirigir lentamente a ponto de constituir um obstáculo (Foto: youtube.com)

3º Mandamento: chuva não é ameaça, só requer cuidado maior

Está incutido nos corações e mentes que dirigir na chuva é perigoso. O culpado? As emissoras de rádio ao “avisarem” que está chovendo e as pistas estão escorregadias. É óbvio que a aderência no asfalto molhado é menor que no asfalto seco, mas isso não quer dizer que se está à beira de um acidente. O cuidado a tomar é aumentar a distância para o carro da frente e diminuir um pouco a velocidade. Em algumas rodovias de limite 120 km/h veem-se avisos de com chuva baixar para 100 km/h, mais do que suficiente para andar com segurança na chuva. Desnecessário dizer, pressupõe-se veículo em bom estado quanto a estado manutenção e pneus com profundidade de sulco mínima de 3 mm. E com faróis bem regulados, indispensável nas viagens noturnas. Na chuva, a velha regra de manter 2 segundos de separação para o carro da frente deve passar a 3 segundos.

Dirigir na chuva não tem nada de perigoso (Foto: youtube.com)

4º Mandamento: atenção à sinalização

Um velho axioma para os pilotos de avião é “em caso de dúvida, confie na bússola”. Para o motorista, é trocar bússola por sinalização. É de suma importância atentar para o que diz a sinalização rodoviária, ela existe para ajudar, não para decorar a rodovia. O motorista deve se exercitar nisso, permanecer alerta a tudo que possa lhe aparecer no tocante a sinalização. Isso é especialmente importante na sinalização de curvas, a de placas de fundo amarelo que mostram o desenho aproximado da curva, se é mais aberta ou mais fechada. Mas há diversos outros avisos que merecem ser observados, como imperfeições na pista. Em tempos de Waze, podendo mantê-lo ligado, tanto melhor, pois a participação colaborativa pode indicar alterações momentâneas impossíveis de serem avisadas pelos meios convencionais. Em resumo, deve-se ficar atento ao que acontece à volta, e nisso películas escurecedoras nos vidros atrapalham e muito, especialmente à noite, pior ainda com chuva.

Placa indica curva fechada (Foto: Placa Sinalização)

 

5º Mandamento: impeça algazarra, bagunça a bordo

Não importa se por crianças ou adultos: algazarra, brincadeira, gritaria a bordo devem ser evitados a todo custo por tirarem a essencial concentração do motorista. a atenção à estrada. O ambiente no carro deve ser sereno e isso inclui música em volume baixo. Todos no veículo devem estar cientes que ali não é lugar para brincadeiras, brigas ou discussões. E todos com cintos de segurança atados e sentados corretamente.

 

6º Mandamento: nunca dirigir cansado

O cansaço tira perigosamente a concentração e a reação do motorista, motivo mais que suficiente para não se dirigir cansado, com sono. Este, então, é o maior inimigo do motorista, pois adormece-se sem sentir e as consequências costumam ser trágicas. Na luta contra o sono perdemos sempre, ele é mais forte do que supomos. Felizmente não se dorme de repente, há sinais claros  de que o sono está chegando. Por isso, quando você notar que está com sono, não hesite parar num local seguro, como um posto de combustíveis, e descansar. Muitas vezes meia hora basta para expulsar o sono. Winston Churchill costumava suspender as sessões do Parlamento para um descanso, uma soneca de 15 minutos. O dirigir cansado tem uma variante importante que é o dirigir sob influência de medicamentos. Se estiver ingerindo algum continuamente ou for apenas numa ocasião, consulte a bula para ver a existência de recomendação de não dirigir.

Se der sono, pare e descanse (Foto: iromat.com.br)

7º Mandamento: conheça seu carro

Tenha certeza de que conhece seu carro, suas características de desempenho, seu comportamento dinâmico, para poder contar com ele nas mais variadas situações. Uma que requer esse conhecimento é a ultrapassagem em pista de mão dupla, com tráfego contrário, quando sempre há perigo potencial de uma colisão frontal. Esse conhecimento envolve saber seus dotes de aceleração combinado com características do câmbio. Por exemplo, num carro de câmbio de n+E marchas, reduzir para ultrapassar não significa  baixar uma marcha, mas duas para obter a necessária capacidade de aceleração. Saber qual a rotação de corte é importante, como também é também saber  a influência do ar-condicionado na questão de perda de potência, e como o carro freia. É recomendável intimidade com o carro a ser usado na estrada.

Atenção com câmbios “n+E” (Foto: ebay.com)

8º Mandamento: não seja polícia, nem vingador

Todos nós temos momentos de revolta quando vemos alguma coisa errada cometida por um motorista, mas em nome da nossa própria segurança devemos nos conter. Não devemos bancar o policial. Se alguém pede passagem, mesmo que estejamos até um pouco acima do limite da via, dê-a. Nada de condenar o outro motorista por querer andar tão rápido. Não somos policiais. Com essa postura evita-se problemas, afinal quando se vai de um lugar a outro o objetivo maior é chegar são e salvo. Na mesma linha, abstenha-se de se vingar (tem vezes que dá vontade mesmo). Caso de um esperto trafegar pelo acostamento, e este se estreitando adiante, o sujeito querer voltar para a faixa de rolamento na sua frente. Na minha frente não! seria a reação normal, mas releve, deixe para lá. Não vai fazer diferença no seu tempo de viagem.

 

9º Mandamento: tenha paciência

Lembro-me de uma matéria na revista Seleções do Reader’s Digest em que um pai, preocupado com as filhas que começaram a dirigir, mandou fazer uma plaqueta com ímã para ser afixada no painel (quando eram de aço) com três letras: IMK, de impaciência pode matar, em inglês, para se lembrassem do conselho sempre que dirigissem. Se a paciência é uma das virtudes dos seres humanos, para os motoristas ela é fundamental. Nem todos os nossos atos ao dirigir têm êxito, e nesse momento é que precisamos ter paciência até conseguirmos conclui-lo. Caso da ultrapassagem de um lento caminhão numa rodovia de mão dupla em trecho sinuoso, com faixa central dupla. O sensato é sermos pacientes nessa situação, uma vez que a impaciência pode levar a uma manobra  proibida e arriscada. Os casos de colisão frontal são numerosos e conhecidos.A impaciência nos deixa tensos, a tensão se espalha entre os eventuais ocupantes e o que poderia ser uma viagem prazerosa acaba se tornando muito desagradável. Portanto, na estrada tenha paciência, exercite-a.

Ter paciência sempre (Foto: flatout.com.br)

 

10º Mandamento: exerça a cortesia

Lembra-se do segundo mandamento, quando eu disse que somos uma célula, o motorista e o carro, num corpo? Pois não há nada melhor para a “saúde” desse corpo que a cortesia entre essas células. Por isso, faça a sua parte, seja cortês com os outros motoristas, e com os motociclistas, e com o motoristas dos veículos pesados, os ônibus e os caminhões. Se você é dos que ainda não adotaram essas postura, experimente. Você terá enorme satisfação e, acredite, receberá tratamento recíproco por parte das outras “células”. Você ficará impressionado, tenha certeza disso. Essa cortesia inclui antever situações, adivinhar o que o outro motorista quer fazer e lhe facilitar no intento. Como deixar que ele faça uma ultrapassagem antes de você, mesmo que seja seu direito fazê-lo antes. Ou um caminhão dar seta esquerda e você prontamente esperar que ele mude de faixa. De novo, o tempo “perdido” será desprezível e você concluirá a viagem com a satisfação de ter praticado boas ações.

BS

 

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Sobre o Autor

Bob Sharp
Editor-Chefe

Um dos ícones do jornalismo especializado em veículos. Seu conhecimento sobre o mundo do automóvel é ímpar. História, técnica, fabricação, mercado, esporte; seja qual for o aspecto, sempre é proveitoso ler o que o Bob tem a dizer. Faz avaliações precisas e esclarecedoras de lançamentos, conta interessantes histórias vividas por ele, muitas delas nas pistas, já que foi um bem sucedido piloto profissional por 25 anos, e aborda questões quotidianas sobre o cidadão motorizado. É o editor-chefe e revisor das postagens de todos os editores.

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