E lá fui eu, representando o AUTOentusiastas e retornando à minha velha casa, o Campo de Provas da Ford, em Tatuí, participar do lançamento do New Fiesta 2018 à imprensa brasileira. O evento teve início propriamente dito no Mavsa Resort, na cidade de Cesário Lange, interior de São Paulo, onde foram feitas as apresentações técnicas do novo produto pelo pessoal da engenharia e de marketing da Ford. E foi também o ponto de partida para as avaliações dinâmicas do New Fiesta, saindo em comboio pela rodovia Castello Branco em percurso de 40 quilômetros até o Campo de Provas da Ford.

Neste curto percurso de estrada já ficaram evidenciadas as qualidades dinâmicas do veículo, com direção firme na reta e precisa em mudanças de faixa, passando sensação de segurança e prazer de dirigir. A 120 km/h o silêncio imperava na cabine, sem ruídos espúrios de vento e de rolagem, com percepção de qualidade embarcada.

Não gostei do banco, desconfortável, estreito, excessivamente duro e com pouco apoio lateral. Outro ponto negativo foi à interferência da perna com o console, em vinco estrutural que incomoda consideravelmente.

O painel de instrumentos me pareceu bastante funcional, evidenciando o cuidado com a ergonomia e a visibilidade, incluindo a tela multimídia em posição que permitia sua leitura sem distração do foco da estrada. O conta-giros e o velocímetro poderiam ser  maiores em termos de grafismo para facilitar a leitura, principalmente dos mais velhos , que normalmente têm dificuldade de enxergar de perto, a chamada presbiopia. O quadro de instrumentos poderia ser mais elaborado, pela categoria “premium” do veículo.

Chamou-me a atenção o câmbio dupla-embreagem de seis marchas, bem escalonado e com trocas precisas, sem notório escorregamento dos discos.  Na realidade, o câmbio é o polêmico PowerShift apenas rebatizado de “automático sequencial”, que segundo a Ford foi reformulado em termos de materiais de atrito, retentores contra vazamentos e parâmetros otimizados das trocas de marchas, entre outros.

Inclusive, e muito importante, as trocas foram “europeizadas”, estão mais secas do que a “americanizada” de antes, calibração que visava adequação ao gosto do mercado americano.

Particularmente, acredito que o câmbio com essas correções cumpra a função, porém somente o tempo dirá.

O motor 1,6 Sigma TiVCT (sigla em inglês de Variador Duplo Independente dos Tempos de Válvulas), flex, de 125/128 cv, promove boa sensação de desempenho, proporciona segurança em ultrapassagens e também mantém as velocidades de cruzeiro típicas sem demandar constantes trocas de marcha.

Com os pneus 195/50R16 a v/1000 em sexta é 38,2 km/h, para confortáveis 3.150 rpm a 120 km/h  de velocidade verdadeira.

Falando do estilo no New Fiesta 2018, fica difícil em um primeiro olhar, distingui-lo do modelo anterior. O “bocão” continua e agora mais enfeitado com apliques tipo diamante. Porém, quando nos detemos aos detalhes, fica patente a melhoria das linhas frontais do veículo, dando-lhe um aspecto mais musculoso e ao mesmo tempo transmitindo fluidez e aerodinâmica. Na realidade o Fiesta é um bom exemplo de veículo que agrega forma e função, bem ao estilo inteligente de aproveitar vincos e linhas de caráter para aumentar a rigidez da carroceria, sem aumentar seu peso.

Comparativo Fiesta 2017 e 2018

Chama a atenção o pacote de itens de segurança de série em todas as versões: sete bolsas infláveis — as duas frontais obrigatórias, laterais, de cortina e de joelho para o motorista, proteção contra impacto lateral, sistema inercial de destravamento automático das portas no pós-impacto, coluna de direção e pedais deformáveis, engates Isofix para dois bancos infantis, acendimento automático das luzes de alerta após frenagem de emergência, apoio de cabeça para todos os ocupantes, cintos de segurança com  pré-tensionadores, e controle de estabilidade.

O sistema de conectividade multimídia SYNC3, com tela capacitiva (tátil) de 6,5 polegadas, é compatível com Apple CarPlay e Android Auto e conta com duas entradas USB iluminadas e energizadas de mesma capacidade, posicionadas no painel.  Conta também com sistema de reconhecimento de voz, nova interface gráfica, de funcionamento rápido e intuitivo, recebimento de ligações e mensagens de SMS (short message service, os populares “torpedos”), selecionar estações de rádio e músicas sem precisar tirar as mãos do volante e acessar vários aplicativos por meio da interface SYNC AppLink.

O SYNC3 dispõe também da Assistência de Emergência, que faz uma ligação automática ao serviço de urgência, Samu, através de um celular conectado em caso de acidente com acionamento das bolsas infláveis ou corte da bomba de combustível. Há ainda o modo manobrista, que impede a mudança das configurações do sistema por outra pessoa, protegidas por senha.

Painel de instrumentos com destaque para a tela multimídia de 6,5 polegadas

A câmera de ré é outra novidade que facilita as manobras, junto com o sensor de estacionamento. Integrada à tela do sistema SYNC3, ela permite uma ampla visualização da parte traseira, com imagem de alta resolução apoiada por recursos gráficos.

Câmera de ré com imagem de muito boa qualidade

Chegando ao Campo de Provas de Tatuí (Tatuí Proving Grounds, TPG) confesso que fiquei emocionado ao rever meus velhos amigos e lembrar-me dos bons tempos de desenvolvimento de veículos, tarefas tão importantes e ao mesmo tempo prazerosas de fazer.  Em frente ao prédio da administração foi montada uma tenda para suporte e comodidade dos participantes, onde foi apresentado um resumo das atividades, incluindo importantes recomendações de segurança para as pistas de teste.

Destaque para a sensação de desempenho, acelerando o Fiesta com motor EcoBoost na pista de teste, onde ficou patente os seus 125 cv (com gasolina, não há versão flex) muito bem gerenciados pelo  câmbio ex-PowerShift. Incrível como funciona bem o conjunto motriz, dando gosto de dirigir. O “ronco” do motor desperta esportividade, principalmente em altas rotações. Fiquei dando asas à imaginação, pensando em um possível motor EcoBoost  com maior cilindrada e uns 150 cv, tocando um New Fiesta RS para revolucionar o segmento… Vamos aguardar, sem especulações, obviamente.

Em circuito nas pistas de terra e com pedriscos foi possível avaliar o controle de estabilidade e os freios ABS. Foi gratificante notar que o controle de estabilidade somente interferia nas reações do veículo em situações extremas, preservando o prazer de dirigir. Ficou patente que o acerto dos sistemas de direção e suspensões foram feitos sem a preocupação das “cerejas do bolo”.

Andei bastante na pista de terra com pedriscos

Da mesma forma os freios ABS, também muito bem desenvolvidos, não apresentavam vibrações de grande amplitude tão comuns, sentida no pedal, desacelerando o veículo com excelente modulação. Ficou claro que a Ford está muito bem servida em desenvolvimento de dinâmica veicular. De maneira geral, os veículos Ford apresentam excelente compromisso em termos de conforto e estabilidade direcional.

Avaliamos também o sistema de imobilização automática em rampas, ajudando a partir nos aclives com facilidade. A descida da rampa de 30% me faz lembrar uma “montanha russa”.

Vista aérea do Campo de Provas de Tatuí

Para versões e preços do New Fiesta 2018, ver matéria do dia do lançamento, 24/11 p.p.

Em resumo, foi um evento muito bem preparado pelas equipes de engenharia e marketing, mostrando que o campo de provas poderia ser aberto com mais frequência à imprensa, de modo a mostrar com total transparência detalhes  que as vezes passam desapercebidos e/ou  são mal entendidos, evitando problemas de comunicação. Enfim, cultura automobilística nunca é demais, e fica a minha sugestão.

CM

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  • André Lima

    Bela avaliação!
    Eu esperava que a Ford aplicasse o interior igual ao do EcoSport, também o motor 1,5 Dragon de 3 cilindros no lugar do Sigma e o câmbio automático epicicloidal no lugar do dupla-embreagem que ficou meio “queimado no mercado” por conta dos problemas nos primeiros anos de produção.
    A estratégia está lançada e esse segmento está bem aquecido com a chegada do Argo e Polo.

  • Mr. Car

    Fala, Meccia! Já estava com sôdade, he, he! Vamos lá: preferia a frente antiga. Sua descrição dos bancos me fez torcer o nariz, já que imediatamente remeteu aos do meu Gol GL 1,8 1991, que eram péssimos, e para ajudar a atrapalhar, ainda tinha a tradicional característica VW da firmeza das suspensões, reforçando o desconforto. Este problema da perna batendo no console, eu vivenciei muito em outro Ford, o EcoSport de primeira geração. De resto (desempenho, comportamento dinâmico, itens de série) parece ser um bom carro, só me pergunto se o consumidor não ficará com os dois pés atrás pela manutenção do PowerShift, ainda que a Ford alegue ter feito alterações. Podiam ter dado a solução que deram ao EcoSport.
    Abraço.

  • RoadV8Runner

    A Ford, se quiser, pode lançar dois modelos esportivos com facilidade: instalar o atual motor EcoBoost de 125 cv no Ka e, fazendo um trabalho para ganhar mais potência, lançar o Fiesta esportivo, como você mesmo sugeriu. E, como sonhar não custa nada, daria para apimentar também o motor do Focus e completar a gama, esportivos para todos os gostos! Com a excelente dinâmica dos carros Ford atuais, que já têm uma vertente mais esportiva, ficariam três modelos deliciosos de se guiar.

  • Oswaldo De Donato

    A Ford na minha opinião sempre teve o melhor acerto de suspensão/direção, pelo menos entre as 4 “tradicionais”(Fiat, Ford, GM e VW). A calibragem deles é tão boa que até uma humilde Courier, carro sem pretensões esportivas nenhuma, mas que herda chassi do Fiesta mais antigo(se não me engano, do MK3), dá prazer de dirigir.

    Onde eu quero chegar é que esse Fiesta, mesmo em uma geração que já grita por mudanças maiores, continua uma ótima opção para quem gosta de um hatch bem acertadinho e bom de curva, pois já tive a oportunidade de provar um 2014 1,5 16v. Creio que a Ford tenha mantido a receita neste último.

    Câmbio de bons engates(o manual), boa posição ao volante e chassi esperto, além de um bom motor(o Dragon 3 cilindros deve ser bom, pois o Sigma já é ótimo). O Fiesta sempre foi um brinquedo dos bons (tirando as antigas versões 1,0, lógico).

    O PowerShift tem fama das piores entre os mecânicos. Eu evitaria.

    • João Martini

      Tendo um Ka e tendo tido um Up, concordo contigo. O Ka faz mais curva e é mais macio. E como a direção é gostosa! Rápida e com o peso sempre certo.

      • Oswaldo De Donato

        João, ainda não dirigi o Ka atual, mas sabendo que ele herda a plataforma do Fiesta, não tenho dúvidas disso. Ford é sempre na mão e afiado em curva.

        Eu tenho um Up e ele não é dos melhores em curvas, apesar que com uns pequenos ajustes melhora bastante(no meu caso, molas esportivas que já coloquei e melhorou pacas e, futuramente, pneus convencionais – os originais “ecológicos” são horríveis).

  • Matthew, se nem fotos pudemos fazer…

  • Alexandre, você não teria um veículo a diesel pelo fato de não ter opção de combustível?

  • Sem problema, Matthew.

  • Curió

    Obrigado!

  • RoadV8Runner

    Perfeito! E nem precisaria tanto motor, uns 20 a 30 cv a mais que a potência do motor 1,6-litro já faria minha alegria! E seria fantástico a versão esportiva ser chamada de XR2, uma justa homenagem aos antepassados.

  • João Lima

    Como proprietário de um Fiesta Titanium 2015 (1,6 16V):
    O comentário sobre os bancos é pura verdade. Espaço traseiro então…
    O comentário sobre o ruído interno me surpreende, pois considero um dos principais aspectos negativos do carro. Ruído de vento e do motor invadindo a cabine, minha esposa sempre reclama quando na carona pois tem a impressão que estou rodando muito acima da velocidade permitida. Se a Ford realmente aprimorou o carro nesse sentido, parabéns.
    Os pneus 195/50 são de perfil muito baixo e inadequados para nossas vias. Todos os concorrentes usam 195/55R16.
    Em relação ao câmbio PowerShift, nada contra, para mim sempre funcionou perfeitamente, melhor do que muitos epicíclicos. Único porem é a ausência de troca de marchas no volante, mas bem compensada pelo modo S.
    Por R$ 75 mil, falta um acabamento interno melhor, porta-óculos, descanso de braço com porta objetos entre os bancos dianteiros e teto solar (por que não? Na Argentina tem). Mesquinharia da Ford mesmo.
    Em resumo: compre um Polo.