Para o bem ou para o mal, a globalização é o pano de fundo para boa parte das atitudes dos governos e até mesmo dos seres humanos. Se alguém reclama da volatilidade do capital, a culpa é da globalização. Se falamos de práticas de trabalho, a justificativa para sua adoção é a globalização. Mas, apesar disso, a maioria dos seres humanos ainda pensa apenas em si mesma ou, no máximo, no seu mundinho — e aí uso a palavra pejorativamente. Refiro-me ao seu entorno apenas.

No final de semana dei uma olhada no Facebook. Faço isso diariamente mas acho que apenas para passar raiva, pois é impressionante a quantidade de besteiras que se vê no cyberspaço. Como muito bem disse Umberto Eco, a internet deu voz a uma legião de imbecis. Agora todo mundo dá palpite sobre qualquer coisa, mesmo que não tenha a menor ideia de sobre o que está falando. A mesma coisa acontece com alguns noticiários de televisão.

Depois de anos de leitura modorrenta das notícias, hoje boa parte dos apresentadores acha que tem de comentar toda e qualquer coisa que lê — ainda que não tenha se preparado para isso. Não dá para apenas dar a notícia? Nem sempre há o que comentar e muito menos todo mundo tem o que comentar sobre tudo o tempo todo.

Pessoalmente, adoro análises e comentários, mas de quem pesquisou o assunto, pelo menos. Canso de ouvir bobagens. Se eu tivesse que apresentar uma notícia sobre Física Quântica, limitar-me-ia (a mesóclise da semana) a ler o que um editor tivesse escrito. Jamais abriria a boca para comentar o assunto. Mas tem gente que dá palpite sobre tudo e parece achar pouco encerrar algo sem dar pitaco.

Nestes dias encontrei um par de pessoas com uma brilhante ideia sobre como diminuir o número de acidentes de carro: obrigar os fabricantes a fazer com que os veículos não possam andar a mais do que 80 km/hora. Houve alguma divergência e alguns concederam, vá lá, 90 km/h. Na verdade, lembro de ter ouvido uma jornalista de rádio defender a mesma ideia cerca de três anos atrás.

Não conheço nenhuma das pessoas que estavam discutindo o assunto, portanto não farei como outros tantos que já tecem teorias sobre o quão letradas ou iletradas são nem sobre a quais partidos políticos pertencem. Nem farei ofensas pessoais. Nada disso. Apenas acredito que não avaliem coisas além de um pequeno universo. Como em “Muito Além do Jardim,” o genial livro de Jerzy Kosinski. Nele, o personagem Chance, um jardineiro talvez meio limítrofe ou exacerbadamente ingênuo que nunca saiu da casa onde foi criado, se vê subitamente obrigado a enfrentar a vida quando tem de sair da casa. Ele compara tudo ao seu jardim e as pessoas entendem seus paralelos como algo genial, quando na verdade trata-se apenas de uma limitação de alguém que não conhece nada do mundo real. Bom, estas pessoas, em minha opinião, fazem o mesmo.

Há vários argumentos para minha teoria. Em primeiro lugar, se há estradas que me permitem andar a 120 km/h, por que o limite seria de 80 ou 90 km/h? Imagino que essas pessoas, assim como Chance, nunca tenham saído do próprio jardim. Como disse, não sei onde moram, mas em todos os estados do País há estradas que permitem essa velocidade. Logo, talvez não trafeguem por estradas sequer de seus próprios estados e provavelmente não tenham saído para outros.

Voltemos então à globalização. Temos na América Latina diversos acordos de livre comércio e livre circulação de mercadorias e pessoas, especialmente dentro do Mercosul. Podemos, tranquilamente, trafegar com nossos carros por esses países. Estaríamos dentro da lei e no nosso direito. Aliás, viajar é sempre uma boa oportunidade de ampliar os horizontes culturais.

Na Argentina é comum limite de 130 km/h (Foto: motryracing.com)

Na vizinha Argentina, cada província estabelece as velocidades máximas, mas o Artigo 51 da lei 24.449 de Trânsito e Segurança Viária teve a adesão de quase todas. Sem entrar em detalhes, pois há, como em todo os países, variações para o tipo de veículo e de via, a velocidade máxima chega aos 130 km/h. Logo, se eu posso ir com um carro brasileiro à Argentina e lá rodar a 130 km/h, por que teria que ficar presa aos 80 km/h que algumas pessoas acham que os fabricantes deveriam pôr como limite nos carros brasileiros?

Tenho que lembrar aqui que uns quatro anos atrás surgiu essa ideia na Argentina também. Seria um dispositivo instalado compulsoriamente em carros novos e usados que limitaria a 130 km/h a velocidade do veículo. Chegou a ser encaminhado um projeto de lei, que não deu em nada. Pelos mesmos motivos de sempre: seria algo fácil de driblar e houve denúncias de interesses escusos na aprovação do projeto por eventual vínculo dos interessados em sua aprovação com os possíveis fabricantes.

No vizinho Uruguai, onde não há autoestradas, a velocidade máxima é de 110 km/h. No Paraguai, também 110 km/h. No Panamá, o limite é de 120 km/h sem distinção do tipo de rodovia. Na Colômbia também o limite é 120 km/h, assim como no Chile. E aqui não estou considerando embarcar o carro para outro país. Mesmo que fosse para ficar dentro do continente, em Cuba o limite é de 100 km/h e não há “highways”, “freeways” e os lugares por onde andei seriam classificados, no máximo, como estradas. Levar um carro que não ande a mais do que 80 km/h para a Alemanha seria algo assim como enfiar um sorvete na testa. No país onde não há limite de velocidade, fazer isso seria, além de inútil, deveras estúpido.

Cada país tem limites e estradas diferentes (Foto: elnacional.com.do)

Como fariam os fabricantes para atender consumidores que, creio, deveriam ser tratados diferentemente, como viaturas de polícia ou ambulâncias?

Novamente tentemos sair do jardim do Chance. Imaginem a logística dos fabricantes. Como fazer carros com limitação de velocidade sem saber onde eles rodarão? Pois as fábricas brasileiras exportam seus veículos. Tem mais. Quando minha mãe, depois de um par de anos no Brasil, voltou para a Argentina (depois veio novamente), levou seu carro brasileiro. E aí? Rodaria a, no máximo, 80 km/h pelo resto da vida útil do carro? E, evidentemente, seria muito difícil conseguir vendê-lo lá com esse impeditivo. Isso sem falar na questão de peças ou mesmo tecnologia. Imaginem limitar um motor. Ou colocar um motor menos potente, que provavelmente um bom mecânico poderia “turbinar” facilmente, ou fazer linhas de montagem com motores diferentes para o mesmo veículo e modelo. Em fim, tudo isto me parece muito “Chance”. Muito de alguém que nunca saiu do próprio jardim.

Ainda, quem diz que o comprador do carro não vai mudar de país, como foi o caso da minha mãe? Ou que a legislação não vai mudar no futuro? Lembro que no Brasil os limites nas estradas na época do racionamento de combustível eram mais baixos por motivos que nada tinham a ver com segurança. Já pensou se os carros tivessem tido sua velocidade limitada naquela época? Quando acabou a escassez de combustível continuaríamos nos arrastando pelas estradas desnecessariamente, ainda que com carros muitos mais econômicos em termos de combustível como os que temos hoje?

Mas no caso do maravilhoso livro de Kosinski, Chance não tinha acesso a internet, nada disso. Sua única conexão com o mundo exterior era um aparelho de televisão (não a cabo, naquela época) e algum contato com seu patrão. Chance não sabia ler nem escrever, nunca havia andado de carro, nunca havia vivido fora da casa. Estas pessoas que se manifestam no Facebook, por óbvio, têm acesso à internet. Poderiam pesquisar. Poderiam informar-se.

Mas aí eu me lembro que acesso à informação não significa, necessariamente, tomada de melhores decisões porque infelizmente as pessoas escolhem NÃO informar-se. Vivo recebendo mensagens nos vários grupos de WhatsApp dos quais participo com as teorias mais estapafúrdias e correntes, idem. “Precisa-se urgente doação de sangue AB negativo pois o Hemocentro (nem menciona a cidade) não tem mais nenhuma bolsa de AB — e tem uma paciente necessitando urgentemente desse tipo de sangue. Repassem, blá, blá, blá”. Peraí, AB negativo recebe de qualquer negativo. Ou seja, pode-se doar sangue de qualquer tipo desde que seja negativo, A, B, 0 ou mesmo AB.

Ou então aqueles “milagres” como o da estátua da santa no mar que continua branca depois de sei lá quantos anos e que foi encontrada no fundo do mar por acaso enquanto se faziam as buscas pelo avião que sumiu da Malaysian Airlines em 2014. Trocentas vezes desmentido e que tem tantas excentricidades no texto que já deveria ser apagado e não retransmitido por ser inverossímil. Mas não. As pessoas escolhem não se informar. Acho que seja o caso daquelas que tendo acesso ao Facebook e, portanto, à internet. Preferem dar opinião sem primeiro pensar — ou pesquisar como pensam outras pessoas, ou como são as coisas em outros países.

É irônico ver como a globalização pode encontrar grotões provincianos, no sentido pejorativo da palavra. Mas, ao mesmo tempo, como tem gente que quer impor suas próprias convicções a todos os outros sem sequer informar-se minimamente primeiro. E eu, que achava que para ser ditador ideológico era necessário ter algum conhecimento prévio… tolinha, está cheio de amadores por aí!

Mudando de assunto: depois de brigar todo o sábado com a SportTV que mudou os horários e os canais do treino da Fórmula 1 e não consegui ver, resolvi emendar uma festa de casamento no sábado à noite com a corrida e assistir ao vivo. Valeu muito a pena ver ainda que ficasse caindo pelas tabelas de sono no domingo. Que espetáculo! Show (dos dois pilotos) na ultrapassagem de Ricciardo sobre Bottas, Vettel remou tudo e mais um pouco para compensar a falta de sorte, que voltou a atacá-lo depois da bandeirada na bizarra batida com Stroll. Claro que lamentei a ausência de Räikkönen depois de um promissor segundo lugar na classificação, mas parece que nem todo o sal do Mar Morto vai tirar a uruca da Ferrari. Alonso grosseiro como sempre no rádio e até mesmo na pista com o Vettel, que retrucou surpreendentemente elegante no rádio. Verstappen surpreendeu, mas não Ricciardo, superconsistente como excelente piloto. Hamilton ótimo e com sorte. Enfim, teve de tudo. Até o ótimo e charmoso Mark Webber para entrevistar os pilotos. Penei novamente com a SporTV para ver a Stock Car, pois não dava nenhuma informação sobre o adiamento da corrida, embora chovesse na Argentina desde o dia anterior. Ufa! E dá-lhe 4G para conseguir alguma informação. Dá trabalho ser autoentusiasta no Brasil!

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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