Esta matéria é mais uma que foi sugerida por um dos leitores assíduos desta minha coluna no AE, cujo pseudônimo é “Mr. Car”. Ele aproveitou a matéria “Ultrapassando as 100 postagens”  para colocar a sua dúvida/sugestão de matéria.

Ele escreveu o seguinte: “Em tempo, Gromow: conhece alguém que tenha uma Kombi transformada em motorhome, e que possa falar sobre ela, especialmente sobre o comportamento dinâmico? Acho muito bacanas, mas vejo dois problemas: nas que aumentam sua altura, como fica a questão da estabilidade? E em todas elas, como fica a questão do desempenho? A motorização original me parece muito pouca para a Kombi carregar uma “casa” no lombo. Também tem as questões das suspensões e dos freios: são feitos reforços? Creio que uma Kombi destas daria uma bela e interessantíssima matéria. Pense no assunto. ”

Eu topei o desafio e parti para o trabalho de colher dados para a matéria que ele sugeriu. A esta altura ele estava se referindo ao assunto como se existisse somente um tipo de aproveitamento da mecânica da Kombi e da Kombi em si para veículos destinados a acampamentos e aventuras. Só que não!

Vou me restringir tanto aos veículos nacionais que foram construídos para serem motor-casas (nome brasileiro de motorhomes, que consta dos certificados de veículos homologados, conforme definido pelo Código de Trânsito Brasileiro), como os que foram adaptados. O que existe no exterior daria um outro tanto de assunto a ser comentado. Mesmo assim, como o campismo em moto casas não é tão difundido, acredito que muitos de meus leitores e leitoras ficarão surpresos com a diversidade deste tipo de veículos que foram fabricados ou transformados no Brasil.

Pesquisando o assunto, comecei a desbravar esta realidade muito particular, que é composta por tribos de proprietários que se reúnem, se comunicam por grupos de WhatsApp e Facebook, além de sites específicos na internet, como se pode ver na foto de um dos encontros anuais do “Safaristas” – proprietários da versão Safari das moto casas fabricadas pela Karmann-Mobil:

Foto do 9º Encontro Nacional de “Safaristas” realizado em Florianópolis de 3 a 6 de junho de 2010 (Fonte: Site Safaristas)

Para poder colher dados para a matéria eu preparei um questionário e parti em busca de proprietários de moto casas para obter as respostas. O processo de se conseguir respostas para este questionário é que é o desafio deste trabalho. O Eduardo Gedrait Pires, do Sampa Kombi Clube, colocou seus sócios à disposição, contatos através de grupos específicos no WhatsApp, indicações, corpo a corpo e contatos pessoais.

Mas como existem vários tipos de moto casas a solução a seguir foi dividir a matéria em capítulos, e vamos seguir a seguinte sequência:

• Transformação Carbruno
• Construção Karmann-Mobile tipo Touring
• Construção Karmann-Mobile tipo Safari
• Transformação usando Kombi com teto elevado da Karmann-Ghia feita pela Minimax – Kombi Caracol
• Transformação de furgão da Marcopolo-Ivel por terceiros – Motorhome Marcopolo Kombi Invel

Sem esquecer que também existem transformações artesanais que também vamos ver; é realmente um mundo em si.

 

Transformação Carbruno

A primeira moto casa a ser pesquisada é a transformação feita pela Carbruno. A Carbruno S.A. Indústria e Comércio, de São Paulo (SP), era localizada na Estrada das Lágrimas, 3477, São João Clímaco. Foi um importante fabricante de “carrocerias sob encomenda para veículos em geral“, muito atuante entre os anos 50 e 70 e uma das pioneiras na adaptação de veículos, principalmente ônibus, picapes e VW Kombis, para utilizações especiais. Sua produção tipo consistia da transformação de utilitários em caminhonetas, ambulância, “radiopatrulha”, postos de atendimento médico, estandes de vendas e oficinas móveis. Foi de sua autoria a Kombi adaptada em motor-home apresentada pela Volkswagen no I Salão do Automóvel, em 1960.

Algum tempo depois a Karmann-Ghia do Brasil, fundada em 1960, também passou a oferecer uma conversão exatamente igual a esta, fato que, na época, levantou suspeitas de plágio. Possivelmente a própria Volkswagen do Brasil fomentou esta situação para poder oferecer um produto a partir de dois subfornecedores diferentes.

Seguindo a proposta desta matéria, fui atrás de pessoas que pudessem responder ao questionário e neste caso eu recebi respostas do amigo Fábio de Cillo Pagotto, filho do primeiro dono da Kombi da imagem destacada, que andou muito nesta Kombi desde menino. E também consegui respostas do amigo Zé Ricardo (José Ricardo de Oliveira), atual dono desta Kombi, que fez nela uma restauração primorosa. Inclusive, já está planejada uma matéria específica sobre esta moto casa tão especial. Seguem algumas fotos desta Kombi-Camping depois da restauração:

Vamos aos comentários do Fábio:

No aspecto do comportamento dinâmico, o Fábio comentou: “No caso da adaptação da Carbruno, o comportamento não muda muito, a não ser pelo peso extra, que torna o veículo um pouco mais lento na aceleração e requer mais cuidado nas frenagens. O motor 1200 sofre um pouco. A parte boa é que fica um pouco mais macia e muito mais silenciosa que uma Kombi normal. ”

O dois amigos ligados a esta Kombi em especial, à esquerda o Fábio de Cillo Pagotto e à direita o Zé Ricardo – foto tirada no Salão do Automóvel de 2016 (Foto: autor)

Sobre a influência do peso adicional, e, dependendo do caso, da altura adicional, o Fábio ponderou que “O desempenho e as frenagens são afetados devido ao peso adicional. Quanto à altura, no caso da Turismo da Carbruno, apenas o bagageiro pode “enroscar” em árvores ou dificultar a entrada em garagens mais baixas. ”

Segundo o Fábio, “Este veículo é basicamente uma Kombi e não é necessário nenhum cuidado adicional ao dirigir. ”

Ao ser perguntado se o motor recebeu algum tipo de preparação para aumentar seu desempenho, disse o Fábio: “Não, era o motor original, mas, depois de alguns anos, meu pai trocou-o por um 1500 e melhorou muito o desempenho (inclusive por usar o câmbio do 1200 – mais curto) mas o consumo aumentou muito e a autonomia acabou sendo prejudicada. “

A suspensão não recebeu nenhum tipo de reforço e/ou retrabalho, disse.

No quesito cuidados adicionais em termos de segurança e de eventual risco adicional aos passageiros, o Fábio ponderou: “Atualmente teríamos muitas restrições quanto à segurança, por exemplo, não existiam cintos de segurança para nenhum dos ocupantes. E hoje não teríamos segurança em estacionar como antigamente, em uma praia na orla, por exemplo. “

Segundo o Fábio, não é necessário nenhum cuidado adicional nas manutenções, tampouco revisões estruturais especiais.

Dada a experiência do Fábio com este carro, ao se referir ao passado ele não tem como informar se existe algum aumento de custos por ser um carro transformado, tipo IPVA, seguro, quando comparado com um carro normal.

Os pais do Fábio não usaram esta Kombi no que chamamos, hoje em dia, de aventuras maiores. Segundo ele “Esse carro foi usado pelo meu pai apenas em “aventuras” curtas, mas que na época não eram usuais.”

Concluindo a sua participação neste trabalho, o Fábio deixou o seguinte comentário:

“A Kombi foi utilizada para camping, ou motorhome, moto casa ou mesmo como “dormitório temporário” em diversos lugares do planeta. Na Alemanha, inicialmente existia a versão ‘Camping’ e, depois destaque para a Westfalia que possuía um teto escamoteável que permitia que um adulto ficasse de pé e aumentava a ventilação e área interna. Da mesma forma sabemos de empresas transformadoras na Holanda e Inglaterra. Os surfistas americanos, em especial na Califórnia, adotaram a Kombi como estilo de vida para explorar as melhores praias sempre ‘morando’ na Kombi.”

No Brasil, a empresa Carbruno que, originalmente, era fabricante das famosas “Camas Bruno”, cujo dono tinha proximidade com o presidente da Volkswagen brasileira, F. W. Schultz-Wenk, apresentou a Kombi Turismo no I Salão do Automóvel, no Ibirapuera, em 1960. Era baseada no projeto da Camping alemã, com excelente acabamento e versatilidade. Foi capa da Quatro Rodas nº 7 com o casal John Herbert e Eva Wilma, artistas em grande evidência na época, acampando numa praia.

Capa da revista Quatro Rodas de fevereiro de 1961 com a Kombi Turismo e o casal Eva Wilma e John Herbert como garotos-propaganda (Fonte: Sampa Kombi Clube)

Infelizmente, hoje o campismo está em baixa no país. Temos pouca infraestrutura de campings para receber e pouca segurança em estacionar em outros lugares, como postos de gasolina ou mesmo estacionamentos. Outro fator é a legislação que obriga habilitação especial para conduzir um motor home ou trailer com reboque.

Já para o Zé Ricardo esta Kombi é um carro de coleção e ele a tem há pouco tempo, sendo que sua experiência é baseada nas viagens que fez para participar de eventos. Aliás, a foto de abertura mostra a Kombi que agora é dele exposta na área externa do Salão do Automóvel de 2016, num evento patrocinado pela Volkswagen; mas no final do dia ela passou para a parte interna do salão e passou a comemorar o fato de ter voltado ao salão 56 anos depois!

 

A Kombi originalmente adaptada pela Carbruno volta ao Salão do Automóvel depois de 56 anos e em estado de nova!!! (Foto: Zé Ricardo)

 

Existem várias transformações semelhantes de Kombis para moto casas e certamente estes comentários podem ser considerados para estes veículos, guardadas as respectivas proporções. No caso trata-se de uma Kombi T1, e se for uma Kombi T 1,5 ou uma T2 já com motor arrefecido a água a motorização já é bem melhor.

Na Parte 2 vamos tratar da Karmann Mobile Touring.

AG

NOTA: Nossos leitores são convidados a dar o seu parecer, fazer suas perguntas, sugerir material e, eventualmente, correções, etc. que poderão ser incluídos em eventual revisão deste trabalho.
Em alguns casos material pesquisado na internet, portanto via de regra de domínio público, é utilizado neste trabalho com fins históricos/didáticos em conformidade com o espírito de preservação histórica que norteia este trabalho. No entanto, caso alguém se apresente como proprietário do material, independentemente de ter sido citado nos créditos ou não, e, mesmo tendo colocado à disposição num meio público, queira que créditos específicos sejam dados ou até mesmo que tal material seja retirado, solicitamos entrar em contato pelo e-mail [email protected] para que sejam tomadas as providências cabíveis. Não há nenhum intuito de infringir direitos ou auferir quaisquer lucros com este trabalho que não seja a função de registro histórico e sua divulgação aos interessados.
Agradecimentos a Eduardo Gedrait Pires, Fábio de Cillo Pagotto, Zé Ricardo, Família Bruno.
Nesta matéria foram pesquisados os sites: Lexicar Brasil, Wikipedia, etc.
NOTA de Atualização: em 09/10/2017 foram acrescentadas duas fotos (dos amigos Fábio e Zé; e da Kombi dentro do Salão do Automóvel) e ajustada a apresentação das 4 fotos da Kombi reformada.
A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.


  • Carlos Alberto Alves da Silva

    Grato pela excelente matéria, sr. Gromow! Não houve, nem haverá, um utilitário tão racional e versátil quanto a “Velha Senhora”. Um grande abraço!

  • C. A. Oliveira

    Vida longa à Velha Senhora!

  • Eduardo Gedrait Pires

    Sensacional. Obrigado por mais uma aula sobre as nossas queridas Kombis.

  • Jivago Bottenberg

    Mais um uso interessante para a velha senhora.

  • RoadV8Runner

    Grande AG e seus irretocáveis trabalhos de arqueologia automobilística! Fico feliz em saber que virão outras partes sobre versões moto-casa da Kombi. E concordo com o leitor Carlos Alberto, não acredito que surja outro modelo com tamanha versatilidade da Kombi T1 e T2 (ou T1,5 para nós, brasileiros…).

  • Antonio F.

    Ótima matéria Alexander, é só aqui no AE mesmo. Quem nunca sonhou em sair sem destino por esse mundão numa casa sobre rodas? Pena que em nosso país essa belíssima modalidade de turismo tão apreciada nos EUA e Europa com seus motorhomes e caravanas, esteja praticamente extinta por conta da burocracia e principalmente da violência e precariedade de nossas estradas.

  • Antonio F.

    Uma pergunta, essas Kombis corujinhas já tão antigas aguentam longas viagens?

  • Antonio F.

    Até os anos 80 o campismo ainda era relativamente forte em São Paulo, acampei muito no litoral norte em suas praias paradisíacas, aqui na região de Itu também tinha o excelente Quedas D’água, que só sobreviveu por ter diversificado suas atividades como pesqueiro e hotel fazenda.

  • Salve Leonardo Mendes,
    Eu lembro desta loja, ficava na avenida dos Bandeirantes, 2625 entre a Ibirapuera e a Santo Amaro. Ficava bem perto de uma lanchonete ótima que chamava Beef & Chips, pena que também fechou. Uma vez eu tinha ganho uma carreta para motos num concurso da Revista Oficina Mecânica, mas como eu não tinha moto eu procurei vender a carreta para comprar um pente de memória adicional para o meu “poderoso” computador Apple IIe. Passei nesta loja para ver se eles podiam se interessar na carretinha.
    Também vi o programa do rapaz sua cadela e a Kombi, foi ao ar no domingo.
    Na Internet encontrei uma foto da Angela Trailer:
    .
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  • Newton (ArkAngel)

    Um conhecido meu usou um modelo fabricado pela Invel por muitos anos, para vender cachorro-quente.

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  • Janos Markus

    Não. É que esse assunto foi publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo.

  • Caro Fórmula Finesse,
    Estou procurando contato com quem conhece a história da Turiscar, pois ele também fizeram a adaptação de furgões Marcopolo Invel para versão camping e eu gostaria de obter alguns dados sobre isto.
    Será que você tem como me ajudar nisto?