O mundo globalizado esta cada vez mais integrando as fábricas de automóveis com exigências legais e internas e que fazem os veículos serem praticamente iguais uns aos outros, independentemente da marca, com relação aos freios, nível de emissões, nível de ruído, impacto, dinâmica, consumo de combustível, capacidade de vencer rampas, eficiência dos motores e câmbios, esforço direcional, aerodinâmica, entre outros atributos. Como diz o Bob Sharp, “não existe mais veículo ruim”

E vem a pergunta, porque subjetivamente ao consumidor, os veículos são tão diferentes entre si em seus atributos funcionais? A resposta é simples, é a capacidade da engenharia das fábricas integrar e sintonizar todos os sistemas, de modo que o motorista tenha facilidade, segurança e prazer de dirigir o seu veículo. É neste aspecto que mora a diferença.

Quanto aos freios, por exemplo, todos os veículos atendem a legislação, porém podem se mostrar diferentes ao consumidor nas características subjetivas de modulação e também na entrada prematura do ABS, aquela já conhecida vibração de grande amplitude sentida no pedal do freio. Cabe à engenharia de desenvolvimento fazer a calibração correta do sistema e garantir não somente sua eficiência, mas passar também o sentimento de bom funcionamento ao motorista.

E como o freio, a maioria dos sistemas são calibrados de modo a passar confiança ao consumidor, fazendo a diferença positiva em seu julgamento subjetivo. Embreagem, esforço/modulação do pedal, acelerador idem, comando de câmbio imprimindo precisão, dentre outros.

Particularmente o comando do câmbio apresenta um componente fundamental que é o pomo da alavanca de mudanças. Nada adianta engates precisos, esforços de seleção e engate adequados se aquela pecinha que recebe a mão do motorista não for ergonômica. Lembro-me do pomo esférico do VW Golf, imitando a bola do jogo homônimo. Nada é mais ergonômico que uma esfera e a Volkswagen foi muito feliz em seu projeto, dando gosto de cambiar. A Ferrari durante muitos anos usou uma esfera preta como pomo, por exemplo, o Ferrari F40.

Interior do Golf MK1 mostrando a manopla esférica do comando de câmbio

E são os detalhes que fazem a grande diferença no projeto dos automóveis. Quem não se lembra do Fusca, com o forro do teto furadinho e o volante de direção e botões de controle na cor marfim? O forro perfurado tinha uma razão de aparência e também funcional. Servia para reduzir o ruído interno do veiculo, ajudando a amortecer as reflexões do som. Como o forro perfurado era muito caro, a VW por redução de custos manteve o padrão aparente perfurado, “pintando” furos em vez de vazá-los como originalmente, perdendo assim, sua função acústica.

Fusca, forro do teto furadinho que passou a ser pintado, como na foto, por redução de custos

Também inteligente a cor marfim do volante e controles, que além de bonita aparência, evitava queimar as mãos do motorista quando o veículo ficava ao sol. A cor clara refletia o calor mantendo a temperatura mais baixa das superfícies.

Volante, manopla do câmbio e controles na cor marfim

Falando em detalhes, o comportamento dinâmico dos veículos de maneira geral, em curvas, desvios de obstáculos e frenagem, são semelhantes entre si em termos de eficiência. Os veículos atuais são seguros, sem dúvida, porém o sentimento ao motorista os fazem diferentes em termos de facilidade ao dirigir. Por exemplo, o aumento progressivo do esforço direcional em curvas em função do ângulo de esterço, faz o motorista “vestir o veículo”. A modulação do pedal do freio com o esforço aumentando progressivamente com a desaceleração sentida do veículo é outro ponto que faz a diferença.

Alguns veículos marcaram época em termos de comportamento direcional. O VW Golf MK1, por exemplo, dava ao motorista uma sensação tão marcante de facilidade ao dirigir que a segurança ficava patente.  Nesta mesma linha está o Ford Focus, um primor de comportamento desde o seu primeiro modelo, transmitindo segurança e “pegada” ao dirigir.

Ford Focus, exemplo de prazer ao dirigir desde o primeiro modelo

Fazer as curvas com as acelerações laterais sentidas no contato do corpo com a superfície do banco é outra característica que faz o motorista “vestir o veículo”. O apoio total do corpo com o assento e encosto do banco aumenta a segurança de maneira perceptível e particularmente os pilotos de corrida valorizam esta marcante característica. Um banco bem projetado ajusta esta sensibilidade, fazendo a diferença.  A Recaro, em minha opinião, se destacou entre as demais, fabricando os melhores bancos do mercado em termos de forma e função.

Bancos Recaro, valorizando a forma e a função ao longo dos anos

Outro ponto que faz a diferença é a visibilidade, painel de instrumentos com controles fáceis de identificar e acionar e particularmente o velocímetro e o conta-giros, com grafias grandes que facilitem a visão dos jovens e dos “coroas” também. Neste aspecto o Monza e o Del Rey fizeram história, inclusive com seus quadros de instrumentos, como abaixo:

Outro item, a conectividade tão em moda, não deve de nenhuma maneira desviar a atenção do motorista. Mandatório que sua localização e grafismo  facilitem o motorista a ficar atento ao ambiente externo, com mínima distração. Chamou-me a atenção a tela multimídia do EcoSport 2018, grande e bem localizada.

EcoSport 2018 e sua tela multimídia bem localizada

Outro ponto, ruídos espúrios, rangidos e chocalhos, fazem o veículo ter péssima imagem em termos de qualidade e conforto. Veiculo amortecido sem ruídos apresenta-se integro e induz o consumidor a valorizar seus atributos funcionais como um todo.

E com certeza, as fábricas mantém a engenharia de veículos como equipe que faz a diferença, sendo a área mais valorizada da engenharia, participando de todo o processo de desenvolvimento desde o seu início. Com sua experiência, antecipa possíveis equívocos mantendo sempre os conceitos importantes lembrados na hora da aplicação pelos vários setores, incluindo a manufatura. Eliminam as arestas do projeto fazendo o veículo ser valorizado pelo consumidor.

A imagem das empresas perante o consumidor é de extrema importância para a marca. Por exemplo, a Ford nas décadas de 1960, 1970 e 1980 se mostrava com o melhor acabamento. A Volkswagen mantinha a imagem de robustez, a GM era conhecida como fabricante de veículos equilibrados nos atributos funcionais.

Hoje em dia a VW continua mantendo a imagem de carrocerias robustas, bem-feitas e duráveis. A Ford tem como destaque a dinâmica veicular, segurança e facilidade ao dirigir. A GM manteve a imagem de fabricante de veículos equilibrados, sem grandes destaques, porém sem defeitos que possam arranhar a sua imagem. E nos trilhos do progresso temos as outras marcas, incluindo a Toyota com seu Corolla, mantendo a significativa imagem de veiculo bem-feito, quase inquebrável.

Incrível a rapidez com que a fabrica japonesa cresceu no mercado brasileiro, sendo praticamente uma referência em veículos caprichados, tanto em projeto quanto em manufatura. E é para o Corolla que vai a homenagem de hoje. Veiculo altamente competitivo que conquistou o consumidor em termos globais e particularmente o brasileiro, com seu conjunto robusto e de qualidade claramente percebida.

Corolla, exemplo de veiculo bem-feito

Esta matéria é a minha centésima no AUTOentusiastas, parecendo que foi ontem a minha primeira “Automóveis brancos consomem menos combustível”. Tenho muito prazer de poder estar com o leitor ou leitora neste site que muito me orgulha.

CM

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