Recentemente o leitor Sulivan me perguntou o que eu acho do uso do engate nos carros. Vou dividir a resposta em duas partes. Engate de verdade, bem feito, colocado em carro que permite puxar uma carretinha, um reboque ou um trailer e dentro das normas, OK. Nada contra. Aliás, pode ser muito útil para quem leva bicicleta, Jet Ski™, cavalo, barraca, mudança, itens maiores ou sei lá o quê que não cabe no carro. Ou apenas para quem quer andar dentro do veículo com mais conforto em vez de dividir o banco traseiro com um monte de malas. É para isso que ele foi criado, para isso que ele deve ser usado e, quando usado para isso, perfeito.

Mas quando não…  Veja bem. Vamos contextualizar as coisas. Para quem não me conhece, amo carros. Adoro carros. Cuido muito do meu e jamais colocaria algo que pudesse estragá-lo. Não me refiro apenas à questão estética de eu achar o tal apetrecho feio, porque aí entramos no campo da subjetividade. Refiro-me aos “engates” (sim, entre aspas mesmo) vendidos por aí apenas com o intuito de “proteger o para-choque”.

Vamos lá. Primeiro, a lógica que tanto me caracteriza. Por que algo se chamaria “para-choque” se não tivesse como objetivo parar, absorver, os choques? Logo, o objetivo de tal peça é, por definição, suportar os choques. Por que alguém iria querer proteger aquilo que deve proteger contra os choques? Eu, não. Mas, sei lá, tem umas espuminhas no mercado que fariam essa função quando colocadas em alguns pontos…

Volto no que disse lá atrás: adoro meu carro e fico muito braba quando alguém faz um risco nele. Mas nada me faz andar fora da lei. E aí vamos ao segundo item da segunda parte da minha resposta. Engate como quase todos os que vemos por aí está fora da lei.

Podem me chamar de caxias. De careta. Sou mesmo. Não gosto de transgredir. Não curto isso e não vejo graça em fazer algo proibido. Para ter emoção prefiro montanha-russa — e quanto mais maluca, melhor. Ou andar de Shotover na Nova Zelândia, aquela lancha que anda a 90 km/h passando a um metro de distância dos paredões dos cânions fazendo drifting e dá giros de 360 graus. Isso é viver perigosamente e é emoção. Mas violar leis? Qualquer um faz. Nem precisa ser valente. Coragem precisa para subir na montanha russa do parque da Ferrari em Abu Dhabi.

Colocar engate para mim é como trapacear jogando paciência. Cadê a graça? Se é para fazer algo errado na vida, qualquer coisa, tem de ter algo muito, mas muito legal em compensação que valha o risco. Sinceramente, aqui não vejo. É fazer algo errado por achar que protege o carro. E, na verdade, nem isso.

Sei que haverá quem me diga que é para proteger o para-choque. OK, mas isso só (e talvez) no caso de uma encostadinha de leve feita por outro carro – e desde que não seja você mesmo (ou um manobrista) contra uma parede. Aí o prejuízo é muito maior e todo seu, pois a traseira do seu carro afundará mais do que apenas um risquinho no seu para-choque, que pode ser tirado com cera.

É um horror para os pedestres que podem se machucar e enroscar quando passam por trás do carro – e não me digam que transeunte não deve passar entre os carros, pois a toda hora sou obrigada a fazer isso com aqueles engraçadinhos que não respeitam faixa de pedestres e me obrigam a atravessar entre veículos, ainda que eu esteja onde deveria e eles não. Idem para motociclistas.

Este é para “personalizar” (Foto: AE)

No caso de uma batida mais forte, o prejuízo será ainda maior, pois o afundamento da traseira do carro em questão será maior. É uma questão de Física. Quando um fabricante de veículos projeta um carro, faz zilhões de estudos para que a resistência da lataria (e do para-choque) e sua deformação absorvam a energia dos impactos preservando a integridade dos ocupantes — a tal célula de sobrevivência. Quem curte Fórmula 1 ou outras modalidades de automobilismo vê carros que se desmancham em batidas e acidentes mas deixam o cockpit inteiro — o princípio é o mesmo. Tudo em volta da célula de sobrevivência absorve o impacto e vai se desmanchando na batida e preserva o ocupante que, não raro, sai andando em meio a mil pedaços de carro.

No caso destes pseudoengates, na maior parte das vezes presos às longarinas que dão estrutura ao monobloco do veículo, adeus área de deformação programada. Assim, no caso de uma batida ainda que nem tão forte, toda a energia do impacto é transmitida para a parte rígida do carro — nada é absorvido. Logo, o prejuízo será bem maior pois será conduzida a todo o carro em vez de ser absorvida pelo para-choque e seus pontos de fixação. É como você eletrocutar uma superfície de 1 km quadrado em vez de limitá-la a 1 metro.

Alguns motoristas ainda mais egoístas pensam que em caso de batida traseira o culpado é sempre quem está atrás e, logo, é o responsável pelo pagamento do prejuízo e não se preocupam com um estrago maior que o engate provocará no próprio carro, pensando que esse será problema do outro motorista. Duplo engano. Nem sempre quem está atrás é culpado — caso típico é o de ruas em aclive — e se houver engate irregular a seguradora pode simplesmente recusar o pagamento. Dá para brigar? Claro, mas depende de um bom advogado e de uma longa briga na Justiça. E o engate certamente abrirá um buraco na frente do outro veículo que talvez o usuário do engate tenha que pagar. Novamente, boa sorte com a briga na Justiça. E como o Brasil o Supremo Tribunal Federal já teve que analisar se Crocs é sandália ou sapato e se pole dance é atividade física, imaginem até onde pode ir parar uma simples questão de trânsito. Você contra uma seguradora. Quem tem mais recursos? Quem tem mais paciência? Quem pode esperar mais tempo por uma solução? Como eu disse, boa sorte.

Por falar em legislação, foi em 2007 que tudo isto ficou um pouco mais claro pois era uma farra. Quem não se lembra daqueles apêndices que eram umas bolas que se fossem engates não puxariam sequer um skate com um travesseiro de penas? Tinha até umas com forma de cabeça de cavalo!

Em 31 de julho de 2006, o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) criou uma legislação para regularizar o dispositivo. A Resolução 197, depois melhorada com a Resolução 234 de 11 de maio de 2007, definiu claramente o que pode e o que não. De acordo com a nova resolução só podem ter engate os automóveis com até 3.500 kg de peso bruto total e capacidade de reboque declarada pelo fabricante ou pelo importador. Caso da foto de abertura, provavelmente.

Além disso:

1) Os equipamentos devem ter esfera maciça apropriada para o tracionamento de reboque e não podem ter formatos diferentes, nem pontas ou partes cortantes.

2) A tomada e instalação elétrica para a conexão do veículo rebocado deve estar operante. É preciso um dispositivo para fixação da corrente de segurança do reboque. Estão proibidos os dispositivos de iluminação.

3) O engate não pode encobrir nem comprometer a visibilidade da placa do veículo

4) Os fabricantes da peça devem estar registrados no Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro).

5) Os fabricantes e importadores de veículos devem informar ao Denatran os modelos dos veículos que possuem capacidade para tracionar reboque, além de incluir no manual do proprietário os pontos de fixação do engate e a capacidade máxima de tração do veículo.

Também o Código de Trânsito Brasileiro tem legislação específica sobre o assunto. No Artigo 230, Capítulo XV, artigo XII  é considerada infração circular com equipamento ou acessório proibido. Isto é considerada infração grave, com pena de multa e retenção do veículo para regularização, no caso retirar o engate ali mesmo, em plena rua.

Para que serve o para-choque então? (Foto: cripplerooster.blogspot.com.br)

Embora não esteja explicitado neste artigo, como entre os equipamentos já regulamentados pelo Contran que passaram a ser permitidos apenas se cumpridas as exigências fixadas proibidos nos demais casos está o engate para reboque (Resolução nº 197/06) fica claro que o engate fora das especificações do acessório e do veículo constitui infração.

Já comentei aqui que meu carro muitas vezes parece carreto. É supermercado, plantas, favor para os amigos, coisa para um lado e para o outro, fato é que meu carro não raro anda com o porta-malas cheio. Mas se um dia me virem com um engate colocado será porque tem um reboque logo atrás. Mas, sinceramente, espero não chegar a esse ponto. Já faço musculação demais com tanta coisa — se tiver uma carretinha então… vixe!

Mudando de assunto: Mais um fim de semana de sono trocado mas valeu a pena ver a corrida de Fórmula 1 do Japão ao vivo. Eu já havia dito que nem todo o sal do Mar Morto tiraria a uruca da Ferrari, mas agora acrescentaria o sal de, sei lá, as montanhas do Paquistão também. Quebrar uma vela de uns US$ 50? Fala sério… Filosoficamente falando, quando não é para ser não é. Sei que é muito profundo esse pensamento, mas… Gosto cada dia mais do Ocon e, claro, Ricciardo sempre ótimo. Como vocês sabem, tenho uma quedinha por Kimi, que fez o que pôde e andou muito bem e por Hulkenberg, que também deu muito azar. E parece que este ano vai dar Mercedes e Mercedes. Mas reconheço que seria justo.

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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  • ene

    Gostei mesmo foi do Daihatsu Mira. Carrinho simples, com rodas comuns de aço e sem frescuras. O único problema deve ser seu motor que penso ser bem fraquinho.

  • Renato, justamente o Corolla, em cujo manual é dito taxativamente que o veículo não pode puxar reboque!

  • Douglas

    A melhor solução são os engates com ponteira removível. Só deveria ser permitido engate deste tipo e uma multa pesada para quem andar com a ponteira acoplada sem estar puxando um reboque. https://uploads.disquscdn.com/images/08a2270df7f564c8d7c9e2450b26b94e953449af8b3c3a0b900281e0669474a2.jpg

    • CorsarioViajante

      Também acho!

  • ene, existe tanto o tipo retrátil motorizado mostrado no teste do Mercedes GLE 350d pelo Juvenal Jorge, quanto o mais simples de lança e esfera removível, inclusive fabricado aqui. O Contran errou flagrantemente ao não exigir um desses dois tipos de engate. Não está rebocando nada? Recolha-o ou tire-o. Senão, infração gravíssima peso 3 (R$ 880,41) e 7 pontos na CNH.

  • Sullivan, já um mostruário do fabricante de engates Berco-Plion o mote “Coloque respeito na traseira do seu carro”.

  • Antonio Pacheco

    Boa Renato. Só confirme se esse protetor de cárter é homologado pela Honda para ser utilizado no carro. Pelo que sei, O Fit e City tem um sistema que deixa o motor cair em caso de colisão, e o protetor pode atrapalhar isso.

    • Lorenzo Frigerio

      Qualquer carro é feito assim. Outro dia vi fotos de um desastre na Fernão que matou três ocupantes; um poste chegou a ser arrancado e o carro virou uma pilha de frangalhos, irreconhecível. Era um Peugeot 207. O motor foi parar longe.

  • D. Junior, o prefeito João Dória Jr. nitidamente sofre das faculdades mentais.

    • Douglas

      Bob, me parece que sofrer disso é requisito para ser prefeito.
      Maceió era a única capital sem radares até uns dois anos atrás, agora o prefeito daqui resolveu imitar a desgraça do Haddad tanto nos radares como nas ciclofaixas muito mal feitas.

      • Douglas, está certo, acho que é isso mesmo.

  • Davi Reis

    Acho isso o tempo todo, rsrs.

  • Roberto Eduardo Santonini Ceco

    Antonio, passei um possível carro que estava olhando pelo mesmíssimo motivo.

  • Douglas, multar só, não, apreender também.

  • João Carlos, sabe que tenho visto mais carros novos sem as películas? Repare.

  • Leonardo, põe decepção nisso.

  • Excelente trabalho, Mario Cesar! Uso a primeira frase do mestre Tom Jobim em “Se todos fosse iguais a você”.

  • Nilson

    Douglas, eu ainda perguntaria, só para complicar, se com os “faróis de longo alcance” eu poderia dispensar o uso do limpador de para-brisa.
    É cada uma!

    • Nora Gonzalez

      Nilson, boa! rindo até o Natal….

  • Renato Teixeira, esse pessoal enlouqueceu de vez.

  • João Carlos

    E lembrar que antigamente Santo André tinha até o slogan ” visite Santo André e ganhe uma multa”…
    Hoje lá virou um paraíso para se guiar perante São Paulo. Quando saiu do bairro São Mateus e pego a Av. Presidente Arthur da Costa e Silva, já começa a alegria, pois são 60 km/h.

  • Nora Gonzalez

    Renato, infelizmente muitos vendedores de varios segmentos tem metas para cumprir. Algumas bem estúpidas. Acho que já contei aqui o trabalho que minha mãe teve para se livrar da atendente da Vivo que queria que ela mudasse o plano telefônico. Ela argumentou que minha mãe pagava, sei lá, R$ 0,30 o minuto por um plano de 400 minutos. Pelo novo, com 800, ela pagaria R$ 0,20 o minuto. Minha mãe explicou que não estava interessada pois nem usava os 400 minutos. Ainda assim, a atendente continuou insistindo até que minha progenitora cansou e ordenou “por favor, escute o que você está falando. Não faz sentido”. Por que ela iria gastar mais por mês, apenas porque o minuto é mais barato? Eles têm metas, mas podiam ter bom senso também.

  • Nora, isso tem alguns anos, acho que nem existe mais.

  • Lyn

    Se você fizesse um adesivo com essa frase, acho que quebraria meu juramento de jamais colocar adesivos no meu carro. rs

  • Joe

    O que não dá para entender é por que não obrigaram na época da normatização engate em duas peças. Na maioria dos locais desenvolvidos o engate é composto por uma parte fixa na estrutura do carro, que tem que terminar justa ao para-choque, e a parte do engate, que encaixa nesta e só é colocada quando vai se rebocar algo. Saída simples que permite quem quer usar ter mas impede acidentes com pedestres e o uso errado.

    • Joe, é o famoso serviço porco combinado com nossa cultura jurídica de favorecer o malfeitor. Exemplos não faltam.

  • RoadV8Runner, o sujeito tem que ser muito, mas muito burro, para ter um engate para reboque no carro achando que está protegendo o para-choque.

  • Maximus, o Renato foi muito feliz na escolha do nome do kit. É exatamente isso, kit Imbecil. Há outro kit do gênero, o kit Cegueta, escurecer os vidros da condução com os sacos de lixo só para ficar “na moda”, in, deixar o carro “lindão”.

    • Maximus_Gambiarra

      Bob, eu penso que “kit infrator” ou “kit ilegalidade” ajudam a lembrar que não é mera questão de gosto.

  • Lorenzo Frigerio

    O pior é parecer piada mas não ser.

  • marcio pessoa, claro que permitiria, uma forma de expressar haveria de ter para a sua opinião.

  • D.JUNIOR

    Ser policial do batalhão de trânsito deve ser uma maravilha nessas horas. Eu, por exemplo, teria um prazer imenso em “passar a caneta” nesses irregulares

  • Newton, que legal que você encontrou a mensagem do mostruário da Berco Plion! Agora, só mesmo quem é filho de mãe que não tem a menor ideia de quem seja o pai poderia criar uma frase que verbalizasse um conceito imbecil desses.

  • Christian Govastki

    O meu único carro que tem engate é a Veraneio e não é só a bola, é todo o conjunto do suporte que fica atrás do para-choque.
    Por sinal, só usei o engate uma vez quando fui arrastar um contêiner de entulho na porta da minha casa, no mais, o mesmo fica recolhido junto ao estepe.

    • Assim é que deve ser, Christian, uma questão de educação também.

  • Mario Cesar, por que isso acontece? Pelo erro crasso do Contran em não ter obrigado o uso o engate removível exclusivamente e montado só quando o veículo estivesse rebocando. Mas a autoridade de trânsito poderia autuar por o veículo estar trafegando com equipamento fora das suas especificações. Basta querer.

    • Mario Cesar Kawabata

      Bob, o problema é que os agentes de trânsito não possuem preparo suficiente para realizar tais autuações. O maior preparo deles é para parar o veículo, de preferência motocicletas e motonetas, solicitar o documento e mandar rebocar, pois a maioria aqui anda com documentação atrasada e de chinelo. Verificar se o veículo possui as condições de segurança mínimas necessárias para circulação passa longe da cabeça de tais agentes, infelizmente. O que canso de ver carro rebaixado, quase arrastando no chão, passando do lado de viatura da secretaria de trânsito e sem ser incomodado, é incrível. E circulando somente com a luz de posição e farol de neblina ligados então, nem se fala. Isso quando tem luz de posição funcionando…

      • Mario Cesar, falta-lhes nível intelectual, esse é o problema.

  • Christian, nem uma coisa nem outra, apenas a tela do alinhador do final da linha de montagem está errada ou mal ajustada, com altura errada. Já perdi a conta de quantas vezes conversei com a Fiat sobre isso durante anos.

  • RMozZa

    Deveria vir um panfleto complementar explicando o uso das luzes (embora isso faça parte de saber dirigir), quase todos os 208 que vejo estão com a lanterna de neblina acessa sem necessidade, normalmente com os faróis de neblina também para “melhorar o visual”.
    Um tempo atrás numa concessionária da marca ouvi um cliente perguntando qual a vantagem do farol de neblina e a resposta foi que além do uso recomendado servia para melhorar a iluminação nas cidades.
    Chego a desconfiar que só pode ser má fé.

  • Christian, é o certo.

  • Pedro C_S, os vidros esverdeados que todo carro traz hoje já estão no mínimo legal de transparência. Qualquer película que seja aplicada deixa o carro em situação irregular, particularmente os “vidros da condução”, que são o para-brisa e os laterais dianteiros.

  • Mr MR8, se a fixação é frágil como você diz, não conte com ele para cumprir seu papel.

  • ochateador, faça mesmo isso, é fácil.

  • Lucas dos Santos

    Conheço gente que trocou a luz traseira de neblina por uma mais fraca, só para andar por aí com ela acesa sem incomodar ninguém…

    • Lucas dos Santos, esta é perfeita para o “Acredite…(longa e enfisêmica arfada)…se quiser”. Sabe para quê o o cara faz isso? Para o carro ficar lindão…