O que vou lhe contar hoje é sem dúvida um assunto da maior importância quando se é casado e com dois filhos pequenos.

Em duas histórias contadas aqui, uma Emoções paulistas no Rio de Janeiro, em 23/10/16, e outra  Vida de Representante, em 16/4/17, escrevi a respeito da vida de representante, meio técnico, meio engenheiro, meio administrador e muito espírito de cigano.

A qualquer momento o empregador, no meu caso a Volkswagen do Brasil, pode, de acordo com seus interesses e a sua capacidade, solicitar uma mudança de área de trabalho, o que na maioria das vezes envolve mudança de residência.

É claro que para que isto aconteça também tem haver a concordância do funcionário e, assim sendo, a empresa paga todas as despesas e ainda lhe dá uma ajuda de custo.

Pois bem, eu era responsável por dar assistência às concessionárias do Paraná e Santa Catarina, quando a VWB anunciou a criação dos escritórios regionais, e isso em várias capitais. Com esta criação seria possível encurtar a distância do representante em suas visitas às concessionárias e reduzir drasticamente os custos das viagens, como passagens aéreas, hospedagem, etc.

O critério de escolha foi bem democrático. Os representantes que voluntariamente aceitaram esta nova determinação puderam escolher a região de sua preferência. Eu, como já conhecia todo o Paraná e Santa Catarina, e solteiro, gostaria de me candidatar a uma nova região e, assim, anunciei meu desejo de ir para a Região III, Rio de Janeiro e Espírito Santo, a qual eu não conhecia. Para minha surpresa fui logo indicado e minha vontade foi atendida.  A razão desta rápida escolha foi a falta de voluntários sob a alegação de que o Rio de Janeiro era uma cidade muito cara, já naquela época. Mas não se falava como hoje em segurança. Lá reinava a paz.

Em janeiro de 1972 fui de carro para o Rio e minha mudança, depois de achar um apartamento adequado em localização e custo, seria enviada para o endereço indicado. Na época, como não poderia ser diferente, minha mãe Gertrudes ajudou a decorar a casa — seria a primeira vez que o filhão de 24 anos moraria sozinho…

Um ano e pouco depois, conheci aquela que viria ser a minha esposa, Lúcia, com quem este mês comemorarei nossos 44 anos de união. Já contei esta passagem, mas é sempre muito gratificante repetir, a Lúcia me foi apresentada pelo Bob e sua primeira esposa, são nossos padrinhos de casamento e amigos de todas as horas até hoje.

Os anos foram se passando, mudamos de um apartamento pequeno em Botafogo para um maior e assim poder receber com conforto nosso primeiro filho Maurício e depois a chegada do segundo, Marcelo. Para receber este, nos mudamos para outro bem maior, desta vez comprado. que ficava de frente para a Lagoa Rodrigo de Freitas.

Que coincidência, quem morava no mesmo prédio era o casal Fernando e Márcia Calmon.

A mudança para este apartamento foi realizada depois de uma boa obra de adequação, armários, quarto das crianças e o da minha sogra que morava conosco desde a chegada do primeiro filho.

Esta ajuda foi muito importante porque, como já contei diversas vezes, a minha vida era de viajante, praticamente semanas visitando concessionárias intercaladas com estadas no escritório regional que ficava em Botafogo.

Em 1980, poucos meses depois de ter nascido o Marcelo, fui convocado a participar de uma reunião em São Bernardo do Campo, não tinha ideia do que seria tratado lá. Fui para lá com muita ansiedade. Despedido, acho que não seria, não iriam gastar mais este dinheiro de viagem, hotel, etc., além do que tínhamos um gerente regional, Miguel Carlos Barone, infelizmente já falecido, que me daria a notícia caso ela fosse necessária.

Estou em São Bernardo, quando na sala do Gerente de Divisão, Ruediger Von Reininghaus, fui informado que acabara de ser promovido ao cargo de Gerente da Assistência Técnica Produto, em caráter nacional e que, se aceito o desafio, deveria providenciar minha mudança para São Paulo, uma vez que a sede do meu trabalho seria São Bernardo do Campo.  O início estava programado para logo depois do feriado de Finados.

Foi o maior susto da minha vida profissional, uma promoção e ainda no nível de executivo. Vários elogios foram dirigidos a mim, pelo trabalho realizado no Rio de Janeiro e Espírito Santo e a escolha se completou quando fizeram a avaliação do meu relacionamento com a rede de concessionárias, tratamento com o Cliente em geral e, lógico, conhecimento dos produtos VW.

E agora? Como falar para minha esposa que, como carioca, só conhecia São Paulo pelos fins de semana que passávamos aqui visitando meus pais, que deveríamos arrumar as malas e providenciar a mudança total para São Paulo?

E agora novamente, ONDE MORAR, o título da coluna de hoje.

Experiência de morar em apartamento, já tínhamos. Morar em apartamento em São Paulo não fazia sentido, e decidimos experimentar morar numa casa. Tudo caía bem, gosto de mexer com carros e motos, minha mulher gosta de plantas e minha sogra de passear com as crianças, Mauricio com dois anos e Marcelo com apenas quatro meses. Seria uma grande mudança. Já ia esquecendo, tínhamos quatro canários belgas.

Fiquei em São Paulo e já à procura de casa.  Fui a uma imobiliária indicada pelo RH da VW que me mostrou algumas possibilidades. De uma em especial eu gostei, ficava em uma rua tranquila próxima à Hípica Santo Amaro, trânsito só o local.

Voltei ao Rio, falei sobre todas as que haviam me mostrado, até que estrategicamente, por último, deixei a que havia gostado para fazer minha recomendação.

Organizamo-nos, viemos a São Paulo e depois de visitar a casa, minha mulher disse: “Gostei.” Que alívio! Assinamos o contrato e em 28 de outubro de 1980 viemos em definitivo para a capital paulista. Deste bairro era fácil chegar a São Bernardo do Campo e tínhamos tudo que precisávamos bem pertinho de nós.

A maior dificuldade foi a carioca se acostumar a andar na cidade, naquela época não existia GPS, era por instinto mesmo, e senso direcional, era uma coisa que ela não tinha. Até hoje brincamos que se ela sair para dar uma volta pelo quarteirão é bom levar o celular, caso contrário ela não volta…

Depois de dois anos nesta casa já sabíamos como era morar em São Paulo, e em  casa, fomos experimentar morar em apartamento. Fomos morar no Campo Belo no mesmo edifício onde moravam os sogros de um colega da VW infelizmente falecido precocemente.

Neste edifício ficamos por mais três anos e fizemos muitos amigos. Minha mulher a esta altura já sabia andar em São Paulo. Nosso apartamento no Rio de Janeiro estava alugado e as despesas do de São Paulo eram cobertas pela receita do Rio.

Em conversa de casal, a portas fechadas em nosso quarto, achamos por bem sair do aluguel, coisa que não estávamos acostumados, e nos mudarmos para um lugar mais definitivo. Decidimos por morar em uma apartamento próprio. Começamos a procurar um através de uma imobiliária, quando vimos uma casa, grande, que até piscina tinha, em um bairro muito bom, o Alto da Boa Vista (a da foto de abertura).

Embora a decisão tivesse sido de um apartamento, fiz muita força para convencê-la a aceitar a proposta da casa. O valor não era pequeno, mas a venda do apartamento do Rio mais um financiamento cobririam o valor pedido pela casa. Deu tudo certo e, assim, fomos morar numa casa.

A surpresa maior ficou por conta do inquilino do apartamento do Rio quando lhe telefonei e disse: “Fred, você acaba de comprar o meu apartamento, mande-me dinheiro.” Ele já havia tentado comprá-lo antes, mas nós não queríamos vendê-lo então. O dinheiro veio e no prazo certo demos a entrada e o financiamento pagou a diferença.

Nesta casa vivemos durante sete anos. Várias coisas curiosas e boas aconteceram neste período. Minhas constantes viagens para a Alemanha deixavam a minha família muito só. Segurança na rua existia, mas era precária, aquele “guarda” de bicicleta e apito que todos conhecem.

Nosso vizinho era diretor da Johnson & Johnson e tinha segurança da empresa em sua casa. Este segurança tinha um irmão desempregado e nós o empregamos. Sua função era cuidar da segurança da casa das 19h00 às 7h00. No início como toda vassoura nova varre bem, ele também trabalhava a contento. Depois de pegá-lo “roncando” algumas vezes demos-lhe a função de lavar o meu carro e o da minha esposa, assim ele ficaria acordado e de vez em quando regaria as plantas. A culpada por este sono era a minha sogra que lhe dava um completo jantar…

Fizemos muitos churrascos, comemorações inclusive a despedida do Bob quando deixou a VW em dezembro de 1988. Aliás , deixou a Autolatina.

O churrasco que ofereci ao Bob como despedida da Volkswagen, com todos os envolvidos no seu trabalho na Ala Zero. inclusive os mecânicos da equipe de rali da VW

Nessa churrasco, que teve momentos de emoção, eu entrego ao Bob um “troféu” produzido pela sua prestimosa e competente equipe de mecânicos.

Bob recebe das minha mãos um “troféu” feito com peças de automóvel

Neste período também tentei levar meus filhos para o caminho que eu havia trilhado, dei a eles uma minimoto e um minibugue igualzinho ao bugue que eu tinha, um Emis, cuja mecânica eu mesmo tinha montado. Infelizmente para mim, mas felizmente para eles, cada um seguiu seu caminho, Maurício, com 39 anos, fez desenho de joias e gemeologia, e Marcelo, com 37, fez Artes Plásticas e hoje está fazendo Doutorado na USP.

Já no tempo em que comecei a viajar muito para o exterior, o bairro Alto da Boa Vista começava a ficar perigoso e, por razões de segurança, pensamos em voltar para um apartamento. Perto de casa havia um edifício relativamente novo que nos atendia 100%. Fizemos uma visita em um apartamento à venda, mas não conseguimos vender a casa a tempo de comprá-lo. Uma pena, lamentamos a perda.

Ficamos mais alguns anos morando na casa até que um dia nosso vizinho nos fez uma proposta. Ele era dono de dois lotes iguais o nosso, na mesma quadra e queria o nosso para derrubar a casa e construir um condomínio horizontal, na moda àquela época. Depois de muitos cálculos e discussões, fechamos negócio.

Eu lhe dava a casa, ele a derrubaria e construiria seu condomínio com oito casas e nos dava em troca um apartamento, imagine onde. Isto mesmo, um apartamento no mesmo edifício onde anos atrás queríamos morar!

Esta troca foi realizada no chamado taco a taco. Estamos neste apartamento há doze anos e muito satisfeitos. Hoje ele está grande, Marcelo casou e nos deu um neto e tem sua casa; minha sogra faleceu no ano passado aos noventa e oito anos, resultado dos bons tratos que demos a ela. Mauricio continua conosco. e por que sair da casa do papai e da mamãe, se tem cama, comida, roupa lavada, sem contas de luz, água, condomínio, empregada para pagar e ainda geladeira cheia? Fora que adoramos tê-lo conosco, no dia a dia.

A fase de mexer com carros e motos diminuiu, não digo que passou, mas aos 70 anos é comum desacelerar um pouco e aproveitar parte do tempo disponível para escrever minhas histórias tiradas do fundo do baú, o que me dá muito prazer e boas recordações. Se fosse começar hoje, faria tudo igualzinho. Sempre o digo.

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

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