Caro leitor ou leitora,

O autor, Marcos Alvarenga, de Belo Horizonte, leitor antigo, autoentusiasta, é médico, dermatologista, marido de Márcia e pai de Beatriz e Marcelle; no dia 14/09 último também se tornou um homem sem-vó, ao perder sua avó Marta.
Ele nos mandou este texto — já teve outros publicados aqui — que me tocou e acredito que terá o mesmo efeito em você. Por isso o AE resolveu compartilhá-lo, mesmo sem ter relação com automóvel.

Bob Sharp
Editor-chefe


 

UM HOMEM SEM VÓ

Hoje me tornei um homem sem vó.

Assim mesmo, de surpresa. Acordei com essa notícia que muda tudo. Sem aviso prévio, sem ameaça, sem nada. Me deitei ontem sendo uma pessoa com-vó, como sempre fui. Nunca tinha sido uma pessoa sem-vó, nem um dia da minha vida.

Para mim era importante ser uma pessoa com-vó. Sempre me compadeci de pessoas sem-vó. O mundo é cheio de pessoas sem-vó, e volta e meia algum com-vó mudava de lado, para minha tristeza. Agradecia a Deus  por continuar tendo minha avó. Poder contar com aquele carinho único era pra mim um privilégio. Enquanto os personagens de Machado de Assis sempre buscavam refúgio na Europa eu corria pra minha avó. Coitados. Deviam ser todos eles pessoas sem-vó. Ou quem sabe avós morando na Europa. Sabe-se lá. Sentia pena de pessoas mais velhas porque quase todas são sem-vó. E hoje me tornei também um sem-vó.

Dizem que quem morre não leva nada desse mundo. Mentira! Avós levam, sim. E muito. Avós levam embora um lar de vó. Um tipo de carinho que deve ser privativo dos avós, e mais ninguém tem acesso. Ficaram paredes, móveis, cheiros. Mas o lar se foi com ela. E agora sua casa é o lugar onde a ausência dela mais dói. Vejam só quanta ironia. Com ela se foi meu refúgio, meu ninho. Era lá que eu me escondia do mundo, das pressões e das cobranças e do peso de ser adulto.

Deve existir uma parede invisível em torno da casa das avós que bloqueia esse tipo de sentimento. Também desconfio que quando as mulheres se tornam avós recebem uma caixa onde guardam um pouco da infância dos netos. Ficam guardadas em algum canto escondido com o nome de cada um dos “pequenos” escrito à mão. Quando chegamos em suas casas elas despistadamente abrem a caixa e nos sentimos criança novamente. Pena que levam essa mágica com elas. Talvez para matar a saudade.

A maior perda não é do café docinho, que muitas pessoas até apelidam de café-de-vó, nem pelos queijos  ou biscoitos feitos na hora, pela banana frita com açúcar ou pelas outras delícias que só as avós preparam — ainda mais as avós da roça, subespécie de avós especializada em alta gastronomia e que muitas vezes têm elas mesmo um leve cheirinho de fumaça de fogão a lenha.

Durante o dia saí de casa tentando espantar a tristeza e a dor. Fazer coisas normais. Atravessei a rua me sentindo diferente: um sem-vó. Entrei num mercado de forma sisuda, como convém a um sem-vó entrar em qualquer lugar. Peguei alguma coisa da lista na prateleira, e o peso de ser uma pessoa sem-vó me doía as costas. Me fazia uma pessoa mais sisuda, mais triste.

Talvez ela mesmo tenha se cansado de ser também sem-vó e tenha ido em busca das suas avós no céu.

Hoje fiquei feliz por ter nascido homem: quando eu morrer não vou transformar ninguém  em um sem-vó.

MA

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  • Fórmula Finesse

    Redação incrível e tocante.

  • Mr. Car

    “Bah guri, se for pra viver só tomando remédio, prefiro viver menos e aproveitar o tempo que me resta”. Cara desconfio de que ia gostar muito do seu avô, he, he! Penso exatamente assim: se é para estar morto, que se esteja morto. A única morte que eu temo é a morte em vida.
    Abraço.

  • BlueGopher

    Caro Marcos,
    Quando nossos avós, pais e mesmo amigos queridos partem para novas aventuras em algum outro lugar, sentimos aquele vácuo interno, parece que parte de nós foi junto com eles.
    Mas aos poucos vamos percebendo que tudo aquilo que eles nos proporcionaram desde nosso tempo de infância continua intocado, apenas está bem escondido, dobradinho, dentro no nosso coração.
    Cabe a nós irmos devagarzinho desdobrando, redescobrindo estes sentimentos e experiências e acabaremos por reencontrá-los dentro de nós de uma forma diferente, profunda, e muito, muito real.
    Momentos do passado que na época nos pareciam comuns passam a ser altamente significativos e valiosos, o vácuo interno aos poucos se transforma num cobertor quentinho…
    Abraço.

    • Muito bonito, BlueGopher, nada mais verdadeiro.

  • Mr. Car

    Pois é, Daniel. Considero uma desonra imensa terminar definhando em uma cama com um tubo enfiado em cada poro, e alguém tendo que me limpar o traseiro. Prefiro cair duro hoje, que viver até os noventa para terminar assim. Como costumo dizer, “há mais honra e dignidade na morte”, que em virar uma espécie de vegetal. Por isto, sou um defensor da eutanásia. Mas isto daria um tremendo debate que não se enquadra nos assuntos do AE, he, he!
    Abraço.

  • Luciano Gonzalez

    Minha mãe tinha problemas para engravidar e por esse motivo nasci tarde, quando em nasci em 1978 minha mãe tinha 43 anos e meu pai 50, dessa forma, não tive avós (conheci o pai de minha mãe mas este não conta e nem merece ser lembrado).
    Mas senti muito quando perdi meu pai em 2012; segue abaixo a singela homenagem que fiz na época:

    O cara (leiam, interessante)

    O cara nasceu pelos idos de 1928 em um conglomerado de ilhas que fica na costa da África, porém que pertence à Espanha (Ilhas Canárias).
    O cara começou a trabalhar cedo, aos 12 anos de idade entrou como aprendiz em uma marcenaria e deu seus primeiros passos como trabalhador.
    O cara gostava muito de estudar, embora as oportunidades fossem escassas, estudou em um colégio de padres até a oitava série e até latim aprendeu, mas foi expulso por dar uma cabeçada em um padre que batia sem dó em um amigo seu que era órfão.
    O cara quis ingressar na marinha Espanhola por duas vezes e sua mãe rasgou todos os documentos necessários, daí então o cara com dois amigos se meteu em um navio e foi parar na Bélgica, onde foram descobertos como clandestinos e deportados para sua terra natal.
    O cara não desistiu, com 17 anos se meteu em outro navio e foi parar em Dakar na África, lá foi trabalhar como Encarregado de Obras, aprendeu na “raça” a falar francês e ganhou seus bons primeiros trocos, tinha regalias em época de Apartheid e era conhecido como “Le petit Espagnol”.
    Mas como o cara era o cara, ele não estava feliz com este ambiente tão diferente de sua realidade, embarcou em um barco à vela com mais 23 “caras” com destino à Venezuela, passaram 03 meses em alto mar, chegaram ao destino e foram recebidos como heróis, têm até livro sobre essa viagem.
    O cara também era bom de bola, morando na Venezuela, viram seu bom futebol, se naturalizou e jogou pela seleção da Venezuela, enfrentou times como Barcelona, Botafogo, Universidad Católica de Chile entre outros.. até com Garrincha jogou.. mas a maré não estava para peixe e o Governo Venezuelano começou a perseguir os imigrantes… lá vai o cara morar no Uruguai.
    Nestes tempos de América, o cara conheceu praticamente todos os países da América do Sul e vivia no Uruguai, mas o Uruguai também não era uma terra de grandes oportunidades, daí o cara resolveu conhecer o Brasil.. veio, não gostou e voltou para o Uruguai.
    Porém o cara não desistiu, voltou ao Brasil, entrou por Corumbá de trem (teve uns contratempos, quis descer do trem com este andando, tropeçou e quebrou vários dentes, rs) e se hospedou no primeiro dia de SP no bairro de Santana, em um hotelzinho na Rua Voluntários da Pátria.
    Daí o cara começou a trabalhar árduamente e logo se firmara como Mestre Geral de Obras…. dos bons, só tocava obras de grande porte (é meus amigos de VW, ele que tocou a reforma da Ala 13 após o incêndio, haviam 800 operários sob o seu controle) e nessas idas e vindas eis que ele conhece uma….. Canária! Vejam só!
    O cara se casou na igreja de Moema com a Canária e claro, não podia ser diferente, foram morar na Rua Canário, em Moema!
    O cara fez patrimônio, desfez, fez novamente, fez família, educou, criou, sustentou… fez o papel de um bom pai… não teve muito estudo, mas cultura não lhe faltava, tinha assunto para tudo e apesar da “carranca” era um sarrista de primeira.
    E quem diria, o cara voltou à sua terra natal 62 anos depois! Reviu amigos, família, lugares, muito bom!
    Mas o cara já com idade avançada começou a ter a companhia de um Alemão… esse Alemão chegou devagarinho e foi tomando conta até que no último sábado, o Alemão levou o cara embora para sempre.

    Ah, o cara era meu pai

  • Caro Dr. Marcos, os bons sentimentos e as mensagens do coração, como o seu amor pela sua avó, sempre terão lugar o AE. Agradeço mais essa sua participação.