O piloto de testes britânico Tony Backman reuniu nesse livro, de maneira resumida, tudo que viveu com o Avro Vulcan. Publicado pela primeira vez em 2007, foi revisado em 2010 e republicado com pelos menos quatro capas diferentes, sendo fácil de ser encontrado e por bom preço.

Muito didático, conta a sua história rapidamente, apenas para explicar como chegou a ser o piloto chefe de testes do mais importante bombardeiro britânico da Guerra Fria. Tendo todos os seus livros de registros de voo guardados, Blackman os pesquisou para escrever e nos deleitar com informações, como a que mostra que ele voou em 105 dos 136 Vulcan fabricados, já que após anos como piloto da RAF (Força Aérea Real Britânica) durante o desenvolvimento do Vulcan, passou a trabalhar na Avro como piloto de provas dos aviões produzidos, que são sempre voados antes de serem entregues ao “dono”. Assim, foram 850 voos e 1.327 horas apenas nos Vulcan, que parece pouco se formos comparar com um piloto de linha aérea, mas muita coisa para um test pilot, que realiza atividades onde é padrão voar apenas para verificar uma característica por vez. Já os voos pré-entrega ao operador são curtos, mas visam avaliar o avião de maneira geral.

O autor caprichou na obra, contando a razão de ser do formato em delta das asas, fala sobre os aviões que testaram a configuração antes dela ser definida para o Vulcan, explica a razão das modificações em todos os sistemas mais importantes de modo fácil de entender, como aerodinâmica, motores, instrumentos, além de gastar algumas páginas falando sobre os sistemas elétricos, de importância vital no Vulcan, que foi um dos primeiros aviões a ter muitos comandos assim movidos — o verdadeiro “fly-by-wire” — substituindo os hidráulicos que eram o padrão. Blackman é formado em Física e especialista de aviônicos — os sistemas eletrônicos das aeronaves — daí a sua boa incursão nesse assunto tratando do Vulcan.

As pessoas que Blackman conviveu ao longo de tanto tempo são também lembradas e homenageadas. Roly Falk, o pioneiro testador do Vulcan, já veterano quando Tony Blackman começou a trabalhar em testes, é muito comentado, tanto pelas suas habilidades extraordinárias quanto por sua personalidade firme ao extremo e seu terno “risca de giz” que utilizava nos voos de teste, algo insólito quando se imagina o ambiente de bases aéreas, oficinas, macacões de voo e alojamentos.

Blackman sucedeu Falk como líder dos voos de teste do Vulcan. Seu parceiro na maioria dos voos, Jim Harrison, é comentado com absoluta amizade e respeito várias vezes, bem como muitos outros da RAF e da Avro.

 

Blackman à esquerda, com Jim Harrison, seu parceiro na maioria dos testes com o Vulcan

O Vulcan, que para qualquer um que o vê, deixa intrigado como é possível voar e manobrar um avião tão grande com janelas tão pequenas na cabine, é revelado em seus defeitos, como a visibilidade criticada inúmeras vezes com exemplos claros do que aconteceu devido à parca visibilidade, quanto nas qualidades que são muitas, como o grande empuxo e a incrível agilidade devido a motores muito fortes e a superfície alar avantajada. Também a posição dos pilotos, com assentos ejetáveis, e de navegador, rádio-operador e bombardeador, atrás e abaixo do cockpit, sem bancos ejetáveis e apenas podendo abandonar o avião pela escotilha inferior se o trem de pouso dianteiro estivesse recolhido, é assunto discutido.

Através dos capítulos, as diversas atividades desenvolvidas são explicadas com um nível de detalhes ótimo, sem que o piloto queira ser o dono da verdade, deixando claro muitas vezes que faz uma afirmação conforme se lembra, e para isso foi ajudado por muita gente que trabalhou com ele e com o avião.

A separação dos assuntos por capítulos enriquece enormemente o livro, e faz o entusiasta das aeronaves viajar nas letras. Para ajudar mais ainda, há cerca de 60 fotos e desenhos, alguns em cores, sobre o avião, instrumentos, alguns esquemas de sistemas básicos e acidentes e incidentes, tópico também analisado e que mostra a importância da análise de causas.

Para somar detalhes à história, há um extenso glossário de termos técnicos e siglas, uma tabela de datas dos eventos importantes na história do Vulcan, dois relatórios completos de voos de testes, com a cópia das páginas datilografadas, a explicação resumida dos tipos Mk 1 e Mk 2 e suas versões, os esquadrões que o operaram com a quantidade de aeronaves e período de uso, especificações técnicas e um índice remissivo — onde se encontra nomes e assuntos — algo que todo livro deveria ter.

Tony Blackman tem outros livros publicados. Pelo que apreciei em Vulcan Test Pilot, alguns mais estarão em breve na minha estante. Estes podem ser vistos em seu site pessoal http://www.blackmanbooks.co.uk/tony_blackman.asp

Uma obra de 218 páginas, mas com muito mais informações interessantes do que o tamanho do livro leva a crer.

Para saber mais sobre o Vulcan, cujo último exemplar a voar foi definitivamente colocado em solo no final de 2015, já publicamos no AE essa matéria aqui. Inclusive, nela é contado o episódio de um Vulcan ter sido apreendido na base aérea do Galeão, no Rio de Janeiro, durante a guerra entre Inglaterra e Argentina em 1982.

JJ

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