Na semana passada contei a minha experiência dos tempos de Autolatina, o namoro, o noivado, o casamento até a separação das fabricantes Volkswagen e Ford.

Mas nem tudo foi ruim. Algo que ficou e da qual tenho muito orgulho foi a amizade verdadeira com amigos até então desconhecidos, a qual conservo até os dias de hoje.

São grandes profissionais e tenho a satisfação em dizer que muitos bons trabalhos foram realizados somando-se as experiências de cada um.

Um bom exemplo do que estou falando é a amizade, a experiência do grande profissional Luiz Carlos Secco.

Na Ford, como gerente de Relações com a Imprensa, foi o responsável indicado para ocupar este cargo na Autolatina.

Eu sempre atuando na área da Assistência Técnica e Qualidade, tinha uma atividade e conhecimento que em muito podia ajudar as duas marcas em seus lançamentos e por esta razão eu participava, como convidado, dos principais eventos procurando auxiliar meus colegas no contato com os jornalistas.

Era uma atividade muito prazerosa, viagens, produto, novos relacionamentos e excelentes conversas sempre.

Vou citar dois grandes eventos dos quais participei e estou certo de a minha participação ter colaborado para o sucesso dos programas.

Em janeiro de 1990, lançamento do Santana Executivo, aquele com as rodas 14-pol. do tipo BBS com o centro na cor dourada, motivo de muitas discussões, havendo os que gostavam, elogiavam-nas, e os que não, recriminando-as chegando até a criticar o pessoal do Depto. de Estilo. Ainda bem que havia as duas opções, a dourada e a tradicional cor de alumínio.

Fomos juntos, o Secco e eu, até a região de Goiás, procurar belas paisagens para fotografar o “artista”, o novo Santana Executivo que, além das rodas tinha cores externas especiais e bancos em couro. Achamos o local ideal — sugestão do Roberto Nasser, hoje meu colega colunista no AE — uma cachoeira. Sugeri colocar o carro debaixo daquela linda queda d’água e fazer a foto. O Secco concordou imediatamente, mas veio uma dúvida: como fazer isso?

Na esquerda, eu, na direita, o Secco (Foto: Júlio Fernandes)

Fui examinar o terreno e concluí que apresentava totais condições de chegar com o carro até aquele ponto desejado e, assim, fui o responsável por colocar o carro no local, mas não sem antes pensar: e se vier um tronco de árvore lá de cima da cachoeira? Seria uma completa perda total, do carro e de tempo.

Tivemos sorte, fizemos a foto, mas o volume d’água era tanto que cobria o carro todo. Antes que a árvore viesse tirei-o daquela situação de risco. Na foto aparecem o Secco, eu e a queda d’água ao fundo. Houve outras oportunidades, são as demais fotos de tantas que foram feitas.

O Santana Executivo foi um sucesso, era para a época realmente um Volkswagen de luxo e trazia a grande novidade do motor 2-litros a injeção Bosch LE-Jetronic de 114 cv.

O Santana Executivo foi impactante na época (Foto: Júlio Fernandes)

Outro momento marcante em minha atividade como parceiro do Departamento de Imprensa foi o lançamento/apresentação do Gol GTi aos jornalistas. O palco escolhido foi o autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, isso foi em 1990, conforme demonstram as placas festivas  dos carros. O local não poderia ser mais próprio para um veículo com as características do GTi. (Foto de abertura)

Depois da apresentação técnica, um fantástico teste no autódromo foi oferecido aos jornalistas.

Carros prontos para sair, “pilotos” devidamente acomodados, cintos e posição dos bancos também, e algumas voltas, com juízo, liberadas. A saída dos carros dos boxes era feita com intervalos de tempo para reduzir ao máximo a possibilidade de rachas.

Nesta divertida fase da apresentação um fato curioso me marcou.

Um jornalista bastante obeso, o querido pernambucano Heleno Gouveia, do jornal Diário da Manhã, de Recife, tinha uma cintura maior do que o comprimento total do cinto de segurança todo estendido e não estávamos preparados, ou seja, não havia extensor de cinto para lhe garantir a necessária segurança.

Fui então convidado a, com todo cuidado — o Heleno sem atar o cinto — levá-lo para dar uma volta na pista, já que era a primeira vez que ele estava no autódromo de Jacarepaguá (Heleno Gouveia faleceu em 30 de março de 2002).

Esse é apenas um exemplo da atenção que o Secco tinha com seus colegas jornalistas, atendê-los no que fosse possível mesmo que para isso fosse necessário quebrar algumas regras, e que por isso mesmo angariou uma admiração e respeito ímpares por parte dos profissionais da imprensa automobilística.

O sucesso do Gol GTi junto ao pessoal da imprensa foi tamanho que certamente acabou sendo o fator determinante para que o Gol fosse eleito o “Carro do Ano 1990” da revista Autoesporte, premiação do gênero única então e até hoje, de longe, a mais importante entre as várias imitações que vieram a reboque.

E o Secco? Aos 83 anos (foto abaixo), completados no dia 13 de agosto último, segue firme e forte conduzindo a sua Secco Consultoria de Comunicação, formada em 1992, junto com seus filhos José Carlos, Luiz Fernando e Raquel.

(Foto: secco.com.br)

Foi mesmo uma época e um trabalho muito bom para mim, tive a oportunidade de conhecer grandes pessoas e alguns amigos até hoje. Desnecessário dizer, o Secco um deles.

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

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