Hoje vou lhe contar, leitor ou leitora autoentusiasta, que mesmo você estar rodando numa via preferencial, acidentes podem acontecer.

Você sabe, pois já falei diversas vezes aqui, que devido à minha função na Volkswagen eu tinha direito a carro de serviço. Em 1991 eu trabalhava na área de Qualidade, o ACQ (Análise Central de Qualidade) e era parceiro dos meus ex-colegas da Assistência Técnica, em que juntos, em total sincronismo, cuidávamos dos problemas de campo. Internamente eu era o responsável por levar os problemas apontados pelo campo para uma solução definitiva e cuidar, junto  aos setores internos da fábrica, para que estes mesmos problemas não migrassem para os novos e futuros produtos.

Eu havia recebido em meados daquele ano um novíssimo Santana versão GLS. Quem não se lembra o que significavam as siglas de versão do Santana quando do seu lançamento em 1984, elas eram: CS, significava Comfort Silver, apelidado jocosamente entre nós da VW de “carro de serviço”; CG, Comfort Gold, era o “carro de gerente”; CD, a versão Comfort Diamond, topo da linha, por isso mesmo chamada na VW de “carro de diretoria”.

No ano-modelo 1987 a nomenclatura mudaria para CL, GL e GLS, além da criação de uma nova versão, a C, mais simples e com motor a álcool e câmbio de quatro marchas somente.

Mas, vamos aos fatos.

Meu novo carro de serviço já era o novo Santana, com a chamada frente baixa, lindo, mas havia um problema: era de duas portas.

Eu vinha de uma Santana Quantum, espaçosa, confortável, e com a facilidade das quatro portas. Naquela ocasião minha sogra, viúva, já morava conosco, meus filhos tinham 11 e 13 anos, e a Quantum era o carro ideal para nós. O entrar e sair havendo portas traseiras era uma grande comodidade, principalmente para a minha sogra, que penava para chegar ao banco traseiro do modelo de duas portas.

Na primeira oportunidade eu tentaria trocá-lo por um quatro-portas, e foi o que fiz quando se aproximava dos 20.000 km rodados após 10 meses. O que eu procurava era resolver o problema maior, o da  d. Yvonne, minha sogra.

Conversei com o meu diretor, Geraldo Siqueira, e lhe perguntei se eu poderia solicitar a troca do carro  usando o argumento da quilometragem um tanto avançada. Sua resposta eu já sabia qual seria, trocas só com um ano de uso, mas não custava tentar. Essa conversa foi numa sexta-feira, véspera de uma viagem a serviço ao Sul mas com retorno programado para mais tarde, pois eu tinha férias vencidas e eu, minha mulher, meu cunhado e esposa iríamos passar uma semana em Balneário de Camboriú e Florianópolis.

A caminho de casa, passei na concessionária Suzuki de um grande amigo para ver como estavam os preparativos para sua inauguração. Por lá não fiquei não mais do que uma hora. Olhando no relógio pensei, neste momento minha mulher já deve estar fazendo as malas para sairmos em viagem amanhã cedo.

Ao sair da concessionária por volta das 18h30, peguei a avenida Dr. Cardoso de Melo, no bairro Vila Olímpia, e seguia a uma velocidade de 50~60 km/h, quando no cruzamento com a rua Nova Cidade sai repentinamente um Santana, coincidentemente igualzinho ao meu, porém mais rápido do que eu ia e sem respeitar a placa “PARE” voltada para ele. Cruzou a rua e bateu no para-lama dianteiro esquerdo do meu carro. A batida foi tão forte que este, desgovernado, seguiu alguns metros à frente até bater num poste; e o meu, com o impacto na roda dianteira direita dele, rodou sobre si mesmo de maneira incrível.

Como os carros ficaram após a colisão

O outro carro, meu “adversário”, quando bateu no poste a sua traseira saiu do chão, levantou de forma tal que o meu carro, rodando, acabou ficando debaixo do dele, ou seja, o Santana do “amigo” caiu sobre o porta-malas do meu.

Baixada a poeira, fumaça dos vapores d’água quente que vazava dos radiadores dos dois carros, minha cabeça voltava ao normal pois o giro havia sido muito forte, soltei o cinto de segurança e fui ver o motorista do outro carro e seu passageiro. Logo juntou um monte de gente, mas ninguém se machucou. Todos estavam de cinto atado.

Não havia dúvida quanto à responsabilidade pelo acidente. O motorista do carro que havia provocado logo assumiu sua culpa e explicou que ele estava indo para o aeroporto de Guarulhos e que o diretor da sua empresa estava atrasado para pegar seu voo para a Suíça.

O senhor que estava sentado no banco traseiro, ainda muito assustado, veio conversar comigo. Apresentou-se falando inglês e disse que eu não me preocupasse, ele assumiria todos os custos.

Os danos no Santana da fábrica foram mesmo extensos, caso de perda total

Percebi pelo cartão de visitas que me entregara que era o executivo-chefe de uma importante empresa suíça e pelo seu sobrenome era descendente de alemão. Foi aí que tudo ficou mais fácil.

Expliquei a ele, em alemão, como se procede em caso de acidentes no Brasil quando não há vítimas.

Para que não perdesse o seu voo, orientei-o a pegar um táxi e que deixasse seu motorista no local, que nós resolveríamos tudo da melhor forma possível.

Ele agradeceu, disse que chegando em sua empresa entraria em contato comigo (havia- lhe dado meu cartão de visita).

Chamamos a polícia, retiramos os carros do meio da rua e fomos fazer o BO.

Não fosse eu mesmo estar ao telefone, minha mulher não acreditaria que ninguém tivesse se machucado. Contei-lhe como foi e disse que meu carro, assim como o outro haviam seguramente dado perda total. A nossa viagem será cancelada? — perguntou. Não, vamos viajar com nosso carro particular e tudo dará certo, respondi. Ela, como seria normal, só se sentiu segura quando me viu chegando em casa inteiro, e de táxi.

Demolição!

Plataformas em ação, meu carro foi levado para o pátio de veículos da frota da VW e o do outro motorista, levado para o pátio da sua empresa.

Cheguei a casa por volta de 22h00 e o assunto não poderia ser outro. Como eu sempre andava com máquina fotográfica dentro da pasta, pude fazer fotos, algumas delas aproveitadas nesta coluna.

Dois fatos surpreendentes aconteceram na semana seguinte depois do meu retorno ao trabalho.

O tal executivo havia-me enviado uma carta, com cópia para o meu diretor, assumindo integralmente as despesas dos danos causados pelo seu motorista, culpado por não ter observado a placa “PARE”. Colocou sua companhia de seguros em contato com a Administração da Frota da VW e a seguradora indenizou a VW pagando o valor de um carro zero. Havia, de fato, dado perda total.

Outro fato que me surpreendeu foi a chamada que recebi para comparecer com urgência à sala do meu diretor.

Nestes casos é comum se pensar o pior, principalmente quando se volta de férias!

Que nada! Sabe o que ele me disse depois de saber detalhes do acidente e se estava tudo bem comigo?

Mandou-me trabalhar, mas antes fez questão de dar seu recado: “Você poderia ter insistido um pouco mais comigo para a troca do seu carro de duas portas por um de quatro, talvez eu até me convencesse, mas não precisava fazer tudo isto!”

Demos uma boa risada e fui trabalhar.

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

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