Esse meu baú parece não ter fundo mesmo, como já comentado por alguns leitores. Hoje ao abri-lo encontrei uma anotação: BR-116 via Dutra à noite com chuva e de Kombi, voltando de São Paulo para o Rio.

Vou lhe contar o que aconteceu nesta noite em 1972, um momento difícil pelo qual passei, mas para dar sentido à história preciso contar um pouco sobre o que motivou minha viagem a São Paulo.

Eu já morava no Rio de Janeiro desde o início do ano e isto que vou relatar aconteceu em abril ou maio, não estou muito certo porque entendi que deveria esquecer o ocorrido para o meu bem.

Em fins de 1971 fui transferido para o escritório regional da VW do Brasil no Rio de Janeiro. Foi uma decisão difícil de ser tomada, mas foi acertada e valeu a pena.

Na ocasião eu participava de competições com meu VW Divisão 3 em Interlagos e até na inauguração de Tarumã, em novembro de 1970, eu fui.

Como não poderia participar de corridas no Rio de Janeiro como vinha fazendo, imaginei que assim seria, coloquei meu carro à venda. Foi muito rápido vendê-lo porque ao desmontá-lo na ocasião guardei todos os equipamentos originais e os remontei. O carro ficou com um aspecto fantástico, a pintura, as rodas com pneus novos, o motor original, e assim ele foi comprado.

Com o dinheiro obtido com a venda do carro comprei uma moto, pois carro de serviço no Rio de Janeiro fazia parte das ferramentas de trabalho da minha função, então vi que carro mais moto, no Rio de Janeiro, seria o ideal.

A moto escolhida foi uma da moda à época, uma Yamaha DS7 250. Havia também a R5 350, mas achei que seria muito para rodar no Rio de Janeiro. O fato de o freio dianteiro ser a tambor não faria diferença para o uso que eu previa.

A minha DS7 250 com esquema de pintura da R5 350; na garupa minha amiga Bebel (Foto: arquivo pessoal)

As cores variavam, entre branco com laranja para as DS7 e lilás e branco para as R5. Perguntei na concessionária Yamaha se seria possível montar uma DS7 com o tanque e as laterais da R5, era a cor me agradava mais e coincidentemente, havia um comprador com o desejo contrário ao meu, queria uma DS7 laranja. Como você vê, deu tudo certo e a minha moto foi no caminhão de mudança para o Rio de Janeiro.

No Rio fui muito bem recebido no grupo dos motociclistas cariocas que se encontravam quase todas as noites no posto Esso em Ipanema, no Jardim de Alah. Meu apelido ficou logo sendo “Paulista”.

Com o passar do tempo, não muitos meses, ainda em 1972, o motor da minha moto começou a fazer um barulho estranho. Os mais entendidos, entre eles Bob Sharp (já contei aqui como o conheci), dizia que era folga de pino de pistão, comumente chamado de batida de saia de pistão. Eu sinceramente não entendia nada de motores dois-tempos.

Fui a uma concessionária Yamaha, a RTT, na rua Tonelero, em Copacabana, e me disseram que era assim mesmo, uma característica dos motores dois tempos. A princípio aceitei, mas a dúvida continuava a martelar minha cabeça. Fui à outra concessionária e a resposta foi igual.

Foi aí que coloquei em prática minha experiência na área do pós-vendas. Deixei passar algum tempo e voltei às mesmas concessionárias e com pessoal diferente dos que haviam me atendido, disse: “Comprei esta moto usada em São Paulo (a placa era de lá) sou o segundo ou terceiro dono, não estou certo, e o motor apresenta um barulho estranho para os meus modestos conhecimentos.”

O diagnóstico do técnico foi a necessidade de se abrir o motor para fazer o reparo. Pedi a ele um orçamento formal para poder cobrar do “antigo” proprietário a indenização correspondente ao reparo. E isto fiz também com a segunda concessionária, que me deu um orçamento parecido com o da primeira.

De posse destes dois orçamentos entrei em contato com o escritório da Yamaha do Brasil que à época ficava em uma rua no centro da cidade de São Paulo, creio que era rua Vitória, e fiz minha reclamação. Pedi à Yamaha a troca do motor em garantia. A troca me foi negada.

Orientado por um advogado especialista na área, solicitei a um juiz um mandado de recebimento da mercadoria para análise. A resposta da Yamaha foi imediata, a troca o motor seria feita,  mas eu deveria levar a moto pessoalmente para São Paulo. “E agora?”, pensei, “como fazê-lo?”

Lembrei-me do amigo Bob Sharp que era sócio da concessionária VW Cota, que seguramente teria uma Kombi para me emprestar e com ela, na sexta-feira, eu poderia levar a “doentinha” até São Paulo.

De imediato fui atendido pelo amigo Bob. Numa sexta-feira peguei a Kombi, seus funcionários me ajudaram a colocá-la dentro da mesma sem a segunda e terceira fileira de bancos, e lá fui eu para São Paulo, acertado com o escritório da Yamaha que chegaria lá por volta das 11h00 do sábado.

Como bom filho de alemães, cheguei à Yamaha no sábado às 11h00. Fui recebido por japoneses que muito mal falavam português. Eles já sabiam do que se tratava. Receberam a moto, fizeram um registro de recebimento e com a moto seguiram os dois orçamentos, manual de garantia e das revisões. A cara feia deles não me assustou.

Peguei a Kombi e passei o fim de semana na casa dos meus pais que moravam no bairro do Sumaré.

Domingo à tarde segui para o Rio de Janeiro, pois segunda-feira seria dia de trabalho e a concessionária certamente  precisaria da Kombi para as suas atividades rotineiras.

Seguia pela via Dutra e em determinado momento começou a chover. Naquele horário do lusco-fusco parei para um lanche e quando sai já estava escuro.

Seguia bem, na velocidade segura para uma Kombi e ainda em chão molhado, ora chovia, ora não, até chegar próximo à reta de Resende (foto de abertura, como era, por volta de 2012 derrubaram as árvores, verdadeiro crime), quando o inesperado aconteceu.

Iluminado pelos faróis que não eram dos melhores — lâmpadas comuns, nem halógenas eram — vi, já em cima, sem condição de fazer nada, um corpo humano deitado no asfalto. Uma manobra muito brusca poderia me levar a um grave acidente, como atravessar a pista e ferir outras pessoas — além de mim, claro.

Com uma reação que considerei rápida, direcionei a Kombi na forma de não “atropelar” o corpo na cabeça, tudo isto de forma super hiperrápida, frações de segundo ou milésimos. Consegui, sem perder o controle da Kombi, desviar da cabeça e tronco mas não consegui desviar das pernas. Foi horrível.

Ninguém na estrada, nenhum carro parado, e um corpo deitado no asfalto com sinais de que já tinha sido atropelado por outros veículos.

Eu tremia como “vara verde”. Alguns quilômetros adiante, parei no acostamento para respirar e pensei que poderia ser acusado de ter sido o atropelador. Marquei o quilômetro da estrada onde o corpo estava e segui viagem até o próximo posto da polícia rodoviária, a poucos quilômetros dali, depois do retão. Ficava no outro lado, sentido Rio-São Paulo.

Com cuidado e creio que muito branco e tremendo, falei com um policial que foi muito prestativo e entendeu minha situação. Deu-me um copo de água com açúcar para que me sentisse melhor, e pediu via rádio a presença de uma viatura naquele local indicado por mim.

Não permitiu que seguisse viagem sem descansar por pelo menos meia hora.

Ao final do registro de todos os meus dados, o policial agradeceu imensamente o fato de eu ter parado e comunicado o que, com certeza deveria ter sido feito pelo motorista do veículo que atropelou o pobre homem. Isentou-me de toda e qualquer culpa e ainda me desejou um feliz fim de viagem.

Esse tipo de atropelamento nunca é culpa do motorista, não se pode prever que em meio a uma reta, à noite, e com chuva, alguém atravesse a pista à sua frente.

Acredito muito nas pessoas e na justiça divina e creio que fui protegido de algo que poderia ter sido bem pior. Infelizmente houve uma vítima. Atitudes como esta minha infelizmente são raras, conforme disse o policial rodoviário que me atendeu.

O resultado da minha reclamação veio duas semanas depois, a Yamaha do Brasil havia trocado o motor completo da minha moto e com a certeza de que tudo estava resolvido. Quando a moto chegou à concessionária no Rio, a RTT (a Yamaha cuidou do transporte) eu nem a peguei. Conversei o com o titular da concessionária, o gentil Roberto Cortes, e paguei a diferença por uma Yamaha XS2  de 650-cm³,  bicilindro e 4-tempos (foto abaixo), de cores laranja e preto, uma belíssima motocicleta que me trouxe muitas alegrias. Fui recompensado.

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
(1.694 visualizações, 1 hoje)


Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

Publicações Relacionadas