O lema do engenheiro é fazer mais com menos, o que faz parte de seu compromisso de formatura. Gastar com inteligência e parcimônia obtendo os melhores resultados nos atributos funcionais do veículo é o caminho do sucesso. Além do mais, beleza é fundamental e cabe ao time de artistas do departamento de estilo do produto idealizar a forma externa e também do interior do veículo, obtendo sua funcionalidade com harmonia e conforto.

Creio que o trabalho do estilo seja um dos mais complicados, pois deverá estabelecer as linhas do veículo que agrade à maioria das pessoas sem esquecer também a aerodinâmica, a visibilidade e as proporções básicas que influenciarão no desempenho, por exemplo, diâmetro das rodas, distância entre eixos, largura, altura, balanço dianteiro/traseiro, vão livre e distribuição de carga.

Porsche 911, exemplo de linhas atemporais e proporções corretas incluindo as belas rodas Fuchs

E o leitor ou leitora pode me perguntar, quais os fatores principais que influenciam a compra de um carro? O impacto visual é fator decisório. Carro bonito é carro cobiçado, valorizando a marca. Sem dúvida, vale a pena gastar mais e fazer o projeto em um estúdio de estilo de primeira linha em vez de manter um estúdio na fábrica sem criatividade, fazendo a mesmice ano após ano.

Karmann Ghia, exemplo de linhas coerentes e que se eternizou para a posteridade

Este raciocínio vale também para o interior do veículo, painel, desenho dos instrumentos, bancos, controles, visibilidade e conforto de maneira geral, incluindo todo o sistema gerador de informações.

Focus MK1, painel muito bem idealizado, sem cantos vivos e com ótima integração de funções

O sentimento de solidez da carroceria, poucos ruídos espúrios e eficiente absorção de impactos pelas suspensões e sistema de direção passam confiança ao consumidor, traduzindo a imagem de veículo bem-feito e durável. Os custos e a facilidade de manutenção também são pontos fundamentais.

VW Golf, exemplo de solidez de carroceria, seu DNA ao longo dos anos

O motor e o câmbio, o coração do veículo, influenciam a sensação de desempenho e o prazer ao dirigir. O câmbio bem escalonado casado com um motor elástico com potência já em baixas rotações e crescente e progressiva em rotações elevadas, faz toda a diferença, mantendo a facilidade de condução e a previsibilidade das reações em ultrapassagens e também em desacelerações, com o uso do freio-motor.

A primeira marcha deve facilitar a partida em aclives e a última marcha garantir a velocidade de cruzeiro nas estradas com economia de combustível. A potência palpável em baixas rotações facilita a modulação da embreagem na partida do veículo, diminuindo o tempo de acoplamento e de deslizamento, resultando em maior durabilidade do disco e platô.

A potência em rotações mais baixas facilita a rodagem em tráfego urbano e também nas rodovias, permitindo rodar em marchas mais longas com economia de combustível. A diferença entre as rotações de torque máximo e de potência máxima estabelece a característica importante de elasticidade do motor que na realidade traduz a sensação de desempenho notada pelo motorista. Os motores modernos com comando de válvulas variável no tempo e no levantamento facilitam este aspecto, garantindo potência em baixas e em altas rotações. Lembro-me do motor VW AP (Alta Performance)  que equipava a linha VW, incluindo o icônico Gol GTS, que marcou época, por seu desempenho e robustez.

VW Gol GTS da Pastore Car Collection, valoroso motor AP ou EA827

Outro ponto é a estabilidade direcional, mantendo a segurança nas diversas situações de rodagem e neste aspecto as suspensões e  o sistema de direção com esforços progressivos e crescentes em curvas ajudam o motorista a sentir o quão próximo do limite de escorregamento está o veículo, facilitando as manobras criticas de desvios de obstáculos, por exemplo.

Em termos de estabilidade e controle, o veículo deve ser amigável e com reações previsíveis, ajudando o motorista a ter segurança nas mais diversas situações de rodagem.  É a conexão do veículo com o solo, mantendo estabilidade em linha reta, em curvas, em desvios de obstáculos e em mudança de faixa de rolamento.

O veículo deve manter-se em linha reta sem que o motorista tenha sempre que intervir no volante de direção, incluindo a sensibilidade a ventos laterais. Em curvas, o comportamento do veículo deve ser neutro, mantendo a trajetória sem reações abruptas de sair de frente ou sair de traseira e de preferência com pouca inclinação da carroceria.

Ford Focus, dinâmica impecável, prazer e segurança ao dirigir

Os freios são fundamentais para a segurança e devem transmitir  confiança ao motorista. Neste aspecto são vários os pontos considerados como, por exemplo, a modulação e o esforço do pedal do freio, as frenagens progressivas e de emergência sem desvios laterais, a frenagens em curvas, a possível perda de eficiência (fading), os ruídos e vibrações espúrios, entre outros, e assim por diante.

Ford Escort, freios impecáveis em termos de balanceamento e eficiência

Pode acontecer que um atributo seja tão bom que passa a ser o diferenciador da marca, se destacando independentemente do conjunto. No passado, o Fusca mantinha a imagem de veículo inquebrável, o que liderava o fator decisório na hora da compra, levando em conta também a facilidade de revenda por esse motivo.

Fusca “Moeda Forte”, significativa propaganda na época

O progresso tecnológico tem sido fator importante para a modernização do automóvel, deixando-o mais seguro e confiável. Profissionais de desenvolvimento trabalham para tornar os veículos melhores, mais bonitos e mais competitivos em preço ao consumidor. Reduzir custos de manutenção, diminuir o consumo de combustível e de emissões de poluentes, aumentar o nível de segurança ativa e passiva, fazer melhor uso dos materiais existentes, diminuir peso e aumentar o espaço interno são premissas de projeto para beneficiar o consumidor. Fatores econômicos, tecnológicos, ecológicos e de estilo são considerados simultaneamente pelo fabricante, valorizando os métodos e processos de fabricação.

Creio que a maior dificuldade enfrentada pelo engenheiro é estabelecer um projeto robusto que satisfaça as exigências de funcionalidade e custos, de uma maneira balanceada técnica-comercial. Na realidade o tripé beleza, funcionalidade e economia é o caminho a ser explorado. Por exemplo, investir mais onde a probabilidade de descontentamento do consumidor for maior e vice-versa. A maioria dos engenheiros, me incluindo, gostaria de projetar sem a preocupação com os custos envolvidos, adotando materiais nobres, manufatura de precisão e de qualidade absoluta.

Falando de veículos, o projetista pode gastar mais em um Ferrari do que em um Ka, observando as exigências de mercado de carros de luxo e básicos de entrada, porém a relação de custo-benefício estará sempre presente, independentemente dos valores envolvidos. O importante em qualquer projeto é identificar claramente o ponto de equilíbrio, gastando o suficiente para a funcionalidade desejada e satisfação do consumidor.

Em modo crescente, novas tecnologias estão invadindo as fábricas automobilísticas no mundo, em parte para cumprir as cada vez mais rigorosas exigências governamentais que regem o comportamento dos veículos e, por outro lado, chegando como modernidade aos sistemas de informação e entretenimento. E vêm na mesma esteira os sistemas autônomos que alertam e ajudam corrigir potenciais riscos de acidentes.

Na verdade, tecnologia custa dinheiro. Por exemplo, motores com usinagens mais precisas, folgas menores para o uso de óleos lubrificantes menos viscosos e com redução de atrito requerem forte investimento em máquinas, equipamentos e controles.  Posso citar também os turbocompressores, menores e mais eficientes, com geometria e vazão de ar variável que aumenta e muito o controle do ar comprimido no motor. Utilizando materiais mais nobres e mais leves, incluindo ligas de titânio, as modernas turbinas nada têm a ver com as antigas, maiores, mais pesadas e menos duráveis, para não dizer bem mais problemáticas.

Ford EcoBoost , motor moderno e eficiente em termos volumétricos, térmicos e baixo atrito; pena é ser muito caro para veículos de entrada

Atualmente, cada vez mais valorizado pelo consumidor é o sistema de conectividade integrando todas as funções de informação e entretenimento disponíveis, tornando o veiculo um verdadeiro navegador da internet, na acepção da palavra. E quem paga o custo da modernidade é invariavelmente o consumidor e não adiante reclamar. O segredo é garantir uma produção que consiga diluir os altos custos das tecnologias embarcadas. Sem produção não existe lucro e sem lucro as empresas entram em colapso. É ai que entra a globalização, aproveitando um desenvolvimento veicular único para aplicação mundial, em vários países.

Painel do EcoSport 2018 mostrando a tela de oito polegadas do sistema de conectividade

Intuitivamente o consumidor avalia o veículo em termos totalmente subjetivos, gostando ou não gostando de um determinado atributo, às vezes sem saber por quê. Como referência, seguem abaixo os atributos funcionais:

• Conforto de rodagem
• Direção
• Estabilidade
• Ruído do motor e transmissão
• Ruído de rolagem e de vento
• Ruído interno
• Freios
• Sensação de desempenho
• Dirigibilidade
• Consumo de combustível
• Câmbio
• Controle climático
• Bancos e cinto de segurança
• Visibilidade e espaço interno
• Controles funcionais
• Sistema de conectividade e entretenimento
• Iluminação
• Manutenção

Eu sempre brinco que veículo bem equilibrado em atributos me dá vontade de morar dentro dele e não sair mais. É a valorização da beleza, do funcional e do prazer de dirigir.

Dentro deste escopo, integrando os atributos funcionais, beleza, preço e custos de manutenção, convoco o leitor e a leitora a indicar quais os melhores carros brasileiros, em qualquer época, destacando os mais relevantes relevantes. Faça a sua escolha.

Hoje a homenagem vai para a Porsche que conseguiu manter o mesmo DNA dos 911, ao longo dos anos e praticamente imbatível neste aspecto

Sem palavras…

CM

Créditos da fotos: acervo do autor



  • Marco Polo III

    Em minha perspectiva, outro exemplo de proporções ideais, design atemporal e excelente conjunto mecânico:

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  • ene

    Os mais bonitos: Ford Ka última série da 1ª geração e VW Karmann-Ghia.
    Os mais confiáveis: VW Fusca e Ford Corcel.
    O mais estável: VW Passat.
    Os mais-mais: Ford Focus e VW Golf (atuais).
    Joia da coroa: Toyota Corolla.

  • ene

    Principais requisitos para o meu próximo carro.
    1. Bancos fortes e confortáveis;
    2. Zero a 100 em menos de 10 segundos e ótima retomada de velocidade em todas as faixas;
    3. Dirigibilidade e boa estabilidade;
    4. Ruídos de rodagem e vento;
    5. Visibilidade.

  • Lorenzo, o Porsche 911 livrou-se dos problemas de comportamento em curva quando adotou a suspensão traseira multibraço, a “Weissach”, na Série 993, por acaso em 1993, ainda com motor arrefecido a ar. Foi tudo na base de soluções mecânica, a eletrônica ainda não tinha chegado firme à indústria automobilística.

  • FocusMan

    Mais um Texto irrepreensível do CM. Parabéns!

    Vou deixar a minha sugestão de melhor carro brasileiro: Chevrolet Vectra 1997.
    Pensei no Monza, mas ele foi bem-sucedido dada à falta de melhores Ford , Fiat e VW na época. Apesar de termos o Passat B2 no Brasil, na versão Santana, Fiat não tinha nada a oferecer, nem a Ford. O Del Rey para mim tinha muitos problemas de projeto, causados pela origem de sua plataforma e por isso nem tinha como rivalizar. Tivesse a Ford lançado o Sierra no Brasil, a história seria diferente.

    Já o Vectra B foi lançado no Brasil em um mercado muito mais competitivo e logrou um êxito comercial muito bom. Seu design atemporal e a tecnologia embarcada eram dois temperos que faziam com que fosse o carro mais desejado pelas pessoas da classe média. Não era o mais desejado por fatores como confiabilidade ou valor de revenda, como foi o Fusca, o Gol e ultimamente o Corolla. Era o mais desejado por ser o carro com o melhor projeto.

    Grande abraço!

  • Antonio F.

    Sim, mas nem todos que trilharam esse caminho chegaram lá, porém todos que chegaram lá passaram antes pelas pedras pontiagudas.

    • WSR

      Antonio, acho que o Agile expressa bem isso. Aliás, tenho dificuldades para entender como um carro tão esquisito fez tanto sucesso, rs.

  • Marcus Vinicius, fico gratificado por servir de inspiração. Boa sorte nos seus estudos e tenha muita dedicação, pois vai valer a pena. Obrigado.

  • Christian, puro preconceito seu. Dirija um Corolla rápido e constate que é muito bom.

    • Christian Govastki

      Bob, não acredito que o Corolla seja melhor que seus concorrentes diretos (Focus, Golf/Jetta ou Civic).

      Como disse, é um carro que tem seus atributos mas não é claramente superior a nenhum outro, muito pelo contrário, caríssimo pelo nível de equipamentos que oferece.

      Minhas experiências com Corolla foram numa Fielder MT que o câmbio parecia ter um “calombo” no trambulador não permitindo trocas precisas e um sedã que não acompanhava nem de perto o Focus Mk1,5 que tinha pois tinha um comportamento claramente subesterçante em curvas onde o Focus fazia “nos trilhos”.

      • Christian, não digo que seja melhor que os outros, que seja um expoente, mas que vai muito bem de dinâmica, é o que observei nos que tenho dirigido. Precisa ver a questão dos pneus. O problema de trambulador certamente é pontual, da Fielder que você dirigiu.

  • C. A. Oliveira

    É verdade. Considero os dois melhores carros nacionais dos anos 80. O Santana tinha equipamentos, em algumas versões, como o lavador de faróis e os cintos de segurança traseiros de três pontos, jamais vistos em outros modelos. O Monza possuía um painel atemporal, numa rara oportunidade em que desenho e funcionalidade conseguem conviver muito bem.

  • Luciano, certeza?

  • Renato

    Bons tempos esses em que a GM do Brasil trazia os projetos da Opel para cá.
    Em termos de desenho (o que é muito pessoal), acho que estamos muito mal servidos com com a GM atualmente.

  • FocusMan

    Não concordo. Amo o Focus, mas ele é um produto de uma classe abaixo da do Vectra.

    O veículo que concorre com o Vectra é o Mondeo. Focus concorre com Astra, um degrau abaixo.

  • Antônio do Sul

    O câmbio deles era o mesmo do Audi A4. Acho que o cabeçote também era Audi, se não me engano. A transmissão usada no restante da linha AB9 talvez não fosse dimensionada para a maior potência dos GTi 2,0 16 válvulas.

  • Luciano, tudo bem, você deve saber. Eu realmente não me lembro.