Apresento mais um dos deliciosos causos do Afrânio Benzaquem de Souza, que também tem uma veia que mistura “Professor Pardal” e MacGyver e que o levou a desenvolver alarmes precursores para proteger o seu amado Fusca. Vejam o que ele andou perpetrando neste causo.

 


 

ALARMES PRECURSORES
Por Afrânio Benzaquem de Souza

Em 1970, adquiri um Fusca zero-quilômetro no Rio de Janeiro e minha primeira preocupação foi dotá-lo de uma proteção contra furto. Isso consegui com um estratagema simples que inventei, camuflado no condensador da ignição. Eu o ligava abrindo a tampa do motor.

Em 1972, mudei-me para Salvador e morei numa vila militar em Itapoan. As casas não tinham garagem e ocasionais ladrões visitavam os carros, à noite, para roubar acessórios e ferramentas. Naquele tempo alarmes não existiam.

Botei a cabeça pra pensar… Uma buzina, ligada às portas, deve dar certo… Foi o que fiz. Instalei-a no compartimento do motor, com o interruptor de energia na base e o fio “terra” conectado à iluminação do teto… Com o sistema ativado, ao abrir-se as portas, a buzina era acionada.

Na mesma semana, tive que viajar, mas instruí a minha mulher para ligá-la quando fosse dormir. Ela o fez e às quatro da manhã o alarme soou!

A mulher acordou assustada, acendeu as luzes, pegou uma arma e um imprevisível pandemônio tomou conta da casa. A empregada também despertou e as duas zanzavam sem direção e sem coragem de abrir a porta…

Minha mulher, trêmula de medo, segurava o revólver, que também tremia, perguntando à auxiliar: Maria, eu atiro pra cima? “Não dona, senão a bala pode cair”… A mulher insistia: Maria, eu atiro pra baixo? “Não faça isso, patroa… a bala pode voltar!…

Enquanto persistia a dúvida com respeito à errática trajetória do projétil, a situação foi agravada por três crianças pequenas que também acordaram e, encolhidas, berravam de susto, sem saber por quê…  Felizmente, nenhum tiro foi deflagrado.

Nesse meio tempo, o ladrão deve ter dado no pé… O “alarme” interno da casa foi superior em decibéis ao similar automotivo, improvisado e que, fora de dúvida, mostrou-se eficaz.

Quando cheguei, ouvi tudo com interesse e atenção. O caminho era mesmo por ali…  Resolvi melhorar as instalações com microinterruptores, usados em microfones, como sensores de vidros, para acionar o sistema. O Fusca só faltava falar…

Até a segurança antifurto aperfeiçoei, usando uma válvula solenoide elétrica, para corte de combustível, oriunda da sucata de um avião “Netuno”, de patrulha marítima. O carro só faltava voar… E só não o fez porque o projeto não previa a instalação de flapes, ailerons e profundores… Mas o Fusca sempre foi aerodinâmico, leve e sensível no acelerar…

Esse Fusca, portanto, foi um precursor. Hoje, está aposentado no interior. Nunca bateu, nem de ninguém apanhou. Está como novo, brilhante, ágil e vivaz. Com ele, guardei uma experiência incomum de quase trinta anos de justo partilhar. Nesse caso, veículo e condutor se confundem numa personalidade única, indivisível e integrada.

Quem já teve um Fusca, por tantos anos, sabe desse mistério homem-máquina. Mas, do veículo em si, não é tão importante falar. Antes é preciso ouvi-lo… Porque Fuscas antigos têm vida própria. E, nas horas cheias e vagas, falam todas as línguas do mundo!

 


 

AG

A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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