Hoje volto 21 anos no tempo, a 1996, quando trabalhava para a Audi AG baseado na Alemanha.

Eu era o representante da área do pós-vendas para toda a América do Sul, viajava visitando os importadores Audi, portanto por todos os 10 países menos as Guianas e Suriname. Estes países eram visitados com frequência, muitas vezes eu saía da Alemanha, outras do Brasil. Era uma vida a bordo dos mais modernos jatos da época, milhagem era o que não faltava (leia mais sobre minha atividade em “Criatividade para o bem”, de 12 de março deste ano).

Nesta história de hoje vou contar como foi um fim de semana na Colômbia, na capital  Bogotá.

Convidado pelo importador a fazer um fim de semana turístico, fiquei muito contente por conhecer um pouco mais de Bogotá, que eu só conhecia entre o hotel onde me hospedava e a importadora Audi local.

O dono da casa, e a esta altura meu anfitrião, convidou-me para conhecer sua fazenda onde cultivava rosas e papoulas para exportação.

Ele me apanhou no hotel com um carro blindado e no trajeto me explicou que sempre fazia caminhos e em horários diferentes de casa para o trabalho. Ele sabia em que país morava — a Farc, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia havia surgido em 1964, era uma organização de cunho marxista-leninista e uma ameaça permanente aos cidadãos.

Enquanto o esperava no hotel, eu passeava pela calçada para conhecer o bairro, a vizinhança, quando em determinado momento percebi que um segurança do hotel me seguia e observava atentamente o que vinha pela rua. Eu não tinha ideia do perigo que estava passando, mas nada me aconteceu até que meu anfitrião chegou.

Fomos direto para sua fazenda nas cercanias de Bogotá, onde além da casa (as duas fotos abaixo) conheci o local onde as flores eram embaladas para exportação.

Fiquei observando o processo de coleta e embalagem das flores. Que processo admirável, havia até contêineres refrigerados aguardando os produtos.

Saímos da fazenda e fomos a um dos locais mais importantes de toda a Colômbia, a famosa mina de sal, a Catedral de Sal na localidade de nome Zipaquirá.

A mina de sal (foto de abertura), ainda ativa, foi construída a 180 metros abaixo do nível da superfície e tem 150 metros de comprimento.

A entrada é impressionante e já no estacionamento existe uma placa de alerta aos visitantes.

A Via Sacra de Jesus estava ali representada por cruzes encravadas na montanha, esculpidas no sal. A temperatura interna da mina era pelo menos 10 ºC inferior à do lado externo, onde havíamos deixado o carro.

A cada passo desta Via Sacra havia uma cruz esculpida no sal e estas mostravam, representado pela sua altura, o caminho de Jesus em direção à morte. As cruzes eram diferenciadas em sua altura porque eram assim enterradas no solo.

A visita é concluída quando se chega a um enorme salão, com uma altura incrível do teto todo trabalhada e paredes gigantescas, e no centro, uma grande bíblia esculpida no sal.

Foi uma visita incrível para mim. Mas as emoções que me eram reservadas ainda estavam por acontecer.

O meu anfitrião tinha um compromisso na capital, era padrinho de batismo de uma sobrinha recém-nascida. Sua esposa estava viajando e ele não sabia o que comprar para marcar este importante evento. Perguntou-me o que comprar.

Como católico, sugeri que comprasse uma lembrança marcante e sugeri uma corretinha em ouro com um pequeno crucifixo. Minha sugestão foi aceita e nos dirigimos ao maior e mais famoso shopping local.

Você está sentado? Agora conto o que aconteceu neste shopping assim que lá entramos.

Olhando as lojas, não muito diferentes das lojas dos shoppings aqui do Brasil, fomos até uma joalheria cujo dono era conhecido do meu anfitrião.

Estávamos próximos da loja quando ouvimos disparos de armas de fogo de grande calibre. Um corre-corre que você pode imaginar. Ninguém sabia de onde vinham os tiros e a ordem era se proteger.

Entramos em uma lanchonete — me lembro como se fosse hoje — com mesas em granito. Viramos algumas mesas para serem uma verdadeira barricada e nós e alguns outros clientes, turistas, nos protegemos dos tiros. Enquanto escondidos ouviam-se mais tiros e pessoas correndo para se protegerem.

Em determinado momento vejo uma moto trail subindo pela escada rolante: era um soldado do exército invadindo o shopping e seguido por outros colegas da mesma unidade.

Passou pela frente da lanchonete um soldado se rastejando e portando uma arma que, sinceramente, não sei qual era, mas tinha um tripé e luneta como vemos nos filmes.

Cerca de meia hora depois algumas vozes ecoavam pelos corredores dizendo “situação controlada, podem circular.” Eram os soldados informando que tudo estava OK. Saímos da lanchonete até que, repentinamente, novamente, mais tiros no andar de baixo. Nova corrida e procuramos novo esconderijo. Entramos em uma loja de moda feminina e nos escondemos atrás do balcão. Mais uns 20 minutos, e agora em definitivo, o perigo havia passado.

O motivo de todo aquele auê?

Aconteceu que o presidente da Colômbia havia resolvido ir à mesma joalheria para onde seguíamos, e com ele todo aparato de segurança. Imagine só que aparato na Colômbia sob ameaça da Farc.

No momento em que ele chegava à joalheria, um bando de seis homens entrava na joalheria e anunciava um assalto.

Que azar tiveram estes bandidos!

Os seguranças do presidente o protegeram e uma troca de tiros teve início, aqueles que ouvimos na primeira saraivada.  Ali dois bandidos já ficaram no chão, se mortos, não sei. Outros quatro fugiram em disparada pelo shopping e daí os demais tiros.

Informados pelo rádio dos seguranças do presidente, os seguranças que estavam do lado de fora do shopping chamaram reforço do exército que em poucos minutos chegaram ao local.

Sim, é verdade, chegaram muito rapidamente e até pela escada rolante subiram com suas motos.

Meu anfitrião tremia como vara verde, não conseguia sequer acender seu cigarro e repetia a seguinte frase em espanhol: “Sou o responsável por você e nada pode lhe acontecer, eu garanto.”

Os quatro bandidos foram presos e levados pelas forças armadas, disseram os seguranças do shopping. Pensava-se em atentado ao presidente, não um assalto à joalheria.

Resumo desta emoção: a criança foi batizada sem o desejado presente. Saímos do shopping e ainda tivemos que pagar pelo estacionamento, você acredita?

Fiquei no hotel e à noite vi na TV o noticiário que obviamente trouxe detalhes do ocorrido, e em seguida liguei  para minha esposa para contar o que havia acontecido. Ela havia visto o fato pela televisão e ficou apavorada quando lhe contei que eu estava em meio a tudo aquilo, ela jamais poderia imaginar.

Em resumo dessa minha história contada hoje: não desejo que ninguém passe por isto.

No domingo, descansei — descanso mais do que merecido! — e na segunda segui para Caracas para mais uma visita.

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

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