Passei por uma experiência muito interessante, voar de helicóptero, que compartilho com o leitor ou leitora.

Estou em 1990, mais precisamente em fevereiro.

Durante muito tempo acompanhei a decolagem e pouso do helicóptero Bell 206 Jet Ranger da Volkswagen, no heliponto, uma vez que meu escritório ficava nesta rota e o barulho de sua turbina e rotor principal em embatendo contra o ar eram inconfundíveis.

Falava comigo mesmo, um dia destes ainda vou voar nesta máquina maravilhosa.

Eu era o gerente da Oficina de Assistência Técnica, aquela mesma fotografada em tomada aérea vendo-se os Santanas Executivos formando as letras OAT – EX, tendo sido usado para obter aquela imagens o helicóptero com o qual eu sonhava um dia voar.

O comandante responsável por aquela máquina era Cláudio Finatti, com quem tive o prazer de estar terça-feira passada no almoço que organizo semestralmente para reunir os velhos companheiros da Ala Zero, entre os quais o Bob Sharp.

E não é que o dia de eu ter a primeira experiência de voar de helicóptero havia chegado?

O Finatti, na época piloto-funcionário da Volkswagen, perguntou se eu teria uma hora de tempo para voar com ele até o CAL, o Centro Administrativo da Autolatina, um edifício alugado que ficava na rua Prof. Manoelito de Ornellas, em Santo Amaro, zona sul de São Paulo. Olhei minha agenda e confirmei a presença, ele voaria até lá e voltaria em seguida para São Bernardo do Campo.  Encontrei-me com o Finatti no heliponto, um bonito gramado, muito bem sinalizado conforme normas  do então DAC (Departamento de Aviação Civil, hoje Anac), obrigatório para homologação.

Na foto de abertura estão, da esquerda para a direita, eu, Cláudio Finatti com as mãos nos ombros dos meus filhos Maurício, 12 (à esquerda dele) e Marcelo (10), e Peter Pietsch (chefe da oficina de assistência técnica, a OAT). O motor estava ligado por no comando estava o piloto Sérgio Brock (veja boxe).

Aí começou meu nervosismo. sentei-me na posição do carona nos helicópteros, na esquerda (ao contrário nos aviões). O comando era duplo, porém o Cláudio, prudentemente, removia a grande alavanca do cíclico do rotor principal quando levava passageiro (à sua esquerda), é perigoso movimentá-la sem conhecimento.

Falamos sobre a minha primeiras vez, coloquei o fone de ouvido para facilitar a comunicação e segui rigorosamente todas as instruções e orientações tais como seria a decolagem, qual a rota que seguiríamos, tempo de voo e local do pouso.

O que me tranquilizou foi a observação que ele fez antes de decolarmos:  “Como esta é sua primeira viagem, vou respeitar todas as normas de segurança, como sempre faço, mas serei mais aplicado com eventuais manobras que podem ser feitas, mas não necessárias executá-las neste momento”.

Deu-me um exemplo: “Ao decolar posso após alcançar uma determinada altitude, baixar o nariz do helicóptero e sair com um pouco mais de velocidade, mas a impressão de ver o chão não é nada agradável”. E assim decolamos conforme padrão de “marinheiro de primeira viagem a bordo”.

A chegada ao edifício da Autolatina foi emocionante, ele tem 18 andares e a descida se faz no heliponto localizado no topo do prédio, que do alto parece minúsculo. A impressão que dá é que se vai bater no prédio, o coração bate mais forte, mas tudo acaba bem.

O Cláudio desliga o motor, freia o rotor principal para parar logo de girar, desembarca e entrega os documentos motivo desta viagem. Em 20 minutos estava de volta e nos preparamos para decolar e voltar à fábrica.

Tenho de registrar uma emocionante sensação pela qual passei: a de que haviam-me tirado o chão no momento da decolagem do alto do edifício. Literalmente o chão saiu debaixo dos meus pés! Que sensação desagradável para quem não tem experiência, o momento de deixar o heliponto no alto do edifício e, de repente, abrir-se um enorme espaço inesperado logo abaixo de você — cerca de 60 metros —em fração de segundos. Dá aquele frio na barriga! Mas o voo seguia normalmente e aos poucos fui me recompondo daquele susto.

Durante o voo conversamos bastante sobre vários assuntos e um deles foi o meu comentário de que morava muito próximo da Autolatina, no bairro Alto da Boa Vista. Perguntou se gostaria de ver minha casa do alto, com o que concordei imediatamente, seria mais uma emoção. E assim ele fez, dei as orientações, se é que posso falar desta forma, para chegar à minha casa.

A foto abaixo mostra minha casa vista do alto, nem sei como a foto não saiu toda tremida. A câmera era boa, não existia celular à época.

A minha casa, a mais comprida, bem no centro da foto

Chegamos à fábrica dentro do horário previsto — quer dizer, antes de baixar aquela neblina que cobre a região quase que diariamente.

TRAGÉDIA

Além do Cláudio Finatti, outro piloto, mais jovem, Sérgio Brock, 36 anos,  alternava no comando dos voos rotineiros do Jet Ranger. No dia 23 de março de 1989, por volta de 4 horas da tarde, ele decolou da fábrica para levar o diretor de Manufatura da Autolatina, o alemão Gerd von Briel, ao CAL. Numa daquelas tardes em que a neblina se abate sobre a região de São Bernardo do Campo, o compromisso de von Briel de atender a uma reunião superou o bom senso de decolar naquelas condições. Quando o Sérgio percebeu que com aquela neblina continuar o voo seria arriscado, decidiu abortar a viagem e fazer um pouso de emergência ainda bem perto da fábrica. Quase ao tocar o solo, no terreno de um depósito  de aço industrial, o rotor de cauda atingiu um guindaste próximo ao galpão, seguindo-se queda e incêndio violento. Ambos pereceram instantaneamente. Foi um choque para todos nós, especialmente para seu colega e chefe Cláudio Finatti. Após sua morte, a família de Sérgio Brock enviou este santinho a todos que o conheceram, que guardo com muito carinho e saudade.

 

O “troco”

Anos depois, num evento no autódromo de Interlagos, quem encontro por lá? Isto mesmo, o comandante Cláudio Finatti. Ele havia trazido um diretor que acompanharia os preparativos para um teste de condução que seria realizado no dia seguinte para os titulares (donos ou diretores) de concessionárias.

Terminado o trabalho, o diretor e o pessoal que organizava o evento se reuniu e sabíamos que esta reunião seria demorada.

A pista estava liberada para nosso uso e eu, sedento para dar umas voltas, não via a hora de andar nela.

O Cláudio conversava numa roda de amigos e lhe perguntei: “Vamos dar uma volta?”

Meu carro era uma perua Audi RS2 Avant, igual à que Ayrton Senna teve ao se tornar importador oficial Audi pela Senna Import. Era meu carro de serviço no tempo em que fui “emprestado” para a Audi A.G. A “peruinha”, derivada do Audi 80,  era preparada pela Porsche, o motor era um cinco-cilindros 2,2-L, turbo, de 315 cv de potência. Este meu tinha que ser diferente: eu havia trazido da Alemanha, adquirido na oficina que preparava os carros de turismo da família Schumacher, um chip que lhe dava mais 45 cv, ou seja, meu carrinho de tração integral, freios Brembo também Porsche  com as pinças vermelhas e inscrição com letras padrão da marca, em branco, muito visíveis, era uma coisa terrível de rápido: zero a 100 km/h em 4,2 s e 262 km/h de velocidade máxima.

Só para ilustrar, a minha “peruinha” era igual a essa, só que preta (Foto: Road & Track)

O Cláudio me disse:

— Ronaldo, nunca andei neste autódromo!
— Eu nunca tinha voado de helicóptero e o fiz, com você, pela primeira vez, lembra? — respondi-lhe de pronto —  Venha, entre aqui no meu carro e prometo que será um passeio — disse-lhe, para tranquilizá-lo.

Saímos do boxe, devidamente amarrados ao cinto de segurança, os pneus estavam calibrados para poder rodar com mais segurança e assim seguimos.

Fui narrando as minhas atitudes, velocidade passeio, tomadas de curva muito comportadas, freios acionados com boa antecedência à curva e a primeira volta seria completada em breve.

Perguntei ao Cláudio como ele estava se sentindo, que me respondeu, emocionado, que não sabia ser assim, impressionante. Perguntou-me se poderíamos dar mais uma volta, ao que respondi com um sonoro “Siiiiimmm!”

Perguntei-lhe se poderia andar um pouco mais rápido, mas bem longe de atingir alta velocidade e prometi me comportar — assim como ele o fez quando voei pela primeira vez de helicóptero.

Demos ao todo cinco voltas e em cada uma ele me autorizava a andar mais rápido.

Só uma certeza eu tenho, ele adorou assim como eu adorei meu primeiro voo de helicóptero.

Se já éramos amigos, ficamos muito mais e esta amizade se preserva até hoje, eu me aposentei das competições, ele se aposentou da aviação, mas temos nos encontrado constantemente e matado saudades dos bons tempos.

Isto sim é que é mútua confiança!

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

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