Porto Alegre, 19h00. Apesar do nome “avenida”, o engarrafamento é acentuado quando as três faixas se tornam duas na Av. Assis Brasil, praticamente da largura do que na autoescola chamariam de uma via  coletora aquela que é, talvez, a artéria mais importante do coração da Zona Norte — à minha esquerda corre lentamente o fluxo do corredor de ônibus que leva até o terminal Triângulo, e é a cada quarteirão mais próximo dele que o trânsito começa a dar sinais de terceira ou quarta marchas. Isso tudo é uma ilustração do tempo e espaço em que acontece o nosso incidente. Três quadras.

Eu, conduzindo pela faixa da esquerda há alguns quilômetros, vou prevendo minha conversão à direita para sair da Assis Brasil, mas dar a seta não será o bastante. À direita segue, irredutível, um imenso ônibus intermunicipal, como um lutador de sumô preparado para segurar qualquer ataque. Não o faz intencionalmente, ao contrário de certos outros tipos de ônibus, mas tudo indica que dali não sairá até chegar à Freeway. Faltam, agora, duas quadras até minha curva. Estou cercado tão perto de casa, quase dá para ver — diria o almirante em Dunquerque.

Eu ali, entre primeira e segunda, freio e embreagem.

Detesto cortar o trânsito como quem anda pela via mais rápida para trapacear no jogo. Me consomem aqueles instantes de aproximação, lenta, da rua a que preciso chegar, desde já sob a culpa e arrependimento por não ter me posicionado mais cedo. O ônibus abriu frente, mas surge atrás o predador do asfalto — vermelho, um táxi. GNV vs. gasolina, talvez eu não consiga. As duas faixas tornam-se três,  mais à frente quatro, os motores rosnam com a promessa de liberdade.  Uma quadra.

É agora. Se não conseguir entrar na primeira ainda posso seguir para a segunda à direita. Tenho duas chances, então. Dou seta. Conhecendo o motor, a 2000 rpm já tenho 90% do torque total, preciso acelerar vigorosamente a segunda marcha e passar apenas para a terceira na posição final. Não é o momento de economizar combustível. Sim, o retrovisor. Vejo o táxi e ele não reage, o predador está manso.

Compensando na aceleração, há espaço. Entre ele e o ônibus,  elegantemente é ali que preciso entrar, 2000 rpm, 2500, rosnam os três cilindros a 3000.

Cortando o trânsito não vinha eu, mas o motoqueiro, ligeiro entre os carros, um ponto brilhante no retrovisor, pode ser que eu consiga evitar o acidente, mas já estou quase entre as duas faixas. Abort mission, abort mission. Esquerda brusca, passar terceira, retomar, em 1,5 s todos a salvo, mas ele não salva o espelho. Assustado, segue ao meu lado, berra o que no Jornal Nacional chamariam de “palavras de ordem”, acelera e dá um soco no retrovisor, contorcendo aquele mesmo espelho que ajudou a salvá-lo — contraditório. Enfim, segunda à direita. Às vezes batemos em anjos.

Fernando Nectoux
Porto Alegre – RS

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