O automobilismo sempre foi a síntese do que chamam de estado da arte da engenharia. Um carro de corrida representa o que existe de melhor em tecnologia, com soluções desenhadas especialmente para uma única função: fazer o carro ser mais rápido. O empenho dos projetistas e engenheiros para criar máquinas cada vez mais evoluídas, velozes e confiáveis, não deveria ter barreiras, mas não é bem assim que acontece hoje em dia.

O Campeonato Mundial de Resistência da FIA (FIA WEC, World Endurance Championship), é o sucessor natural dos campeonatos de carros esporte dos anos 60 e das corridas de longa duração mais importantes do mundo desde os primórdios do automobilismo, incluindo a 24 Horas de Le Mans. Foi nele que surgiram muitas das maiores criações da engenharia automobilística. Foi nele que o primeiro carro com motor Diesel venceu em Le Mans (Audi R10 TDI, 2006), assim como o primeiro carro híbrido (Porsche 919 Hybrid, 2015). Sem esquecer que foi onde o primeiro freio a disco foi empregado — 1953, Jaguar C-Type, e com vitória. É um verdadeiro laboratório para novas tecnologias.

Há anos digo que o WEC é o campeonato mais equilibrado e justo do mundo, pois permite uma grande liberdade de criação por parte dos fabricantes. Assim nasceram os Audis diesel e híbridos. No passado, o lendário Mazda 787B de motor Wankel rotativo venceu a 24 Horas de 1991 e provou ao mundo que pensar fora da caixa era possível para se vencer corridas. Infelizmente, esta liberdade de criação está sendo encoberta por uma aberração chamada BOP.

Aston Martin vencendo em Le Mans em 2017 (Aston Martin)

O que é o tal do BOP que a FIA está aplicando na categoria? BOP significa balance of performance (balanço de performance), que de forma simples, é nivelar o desempenho dos carros da categoria para que não haja uma diferença grande entre os modelos participantes. Obviamente, este nivelamento é feito por baixo, e se aplica aos carros da categoria GTE.

Este balanço é feito por meio de modificações nos carros para que o tempo de volta, velocidade máxima e aceleração sejam similares entre os competidores. Como o regulamento fala, isto é possível por meio de alterações em dois pontos: peso e potência. Adicionar ou retirar lastro (peso) nos carros, alterar o tamanho do restritor de ar de alimentação do motor, alterar a curva de pressão do turbocompressor, e assim por diante.

Dois representantes da Porsche, o 911 RSR da GTE e o 919 Hybrid  da LMP1 (Porsche)

A definição do que tem que ser feito em cada carro é calculada por meio de um software que considera o desempenho em relação aos demais carros, contabilizando as melhores voltas do total de 60% da distância percorrida pelo carro na corrida, considerando os setores da pista (mais velozes e mais lentos).

Ter um campeonato com carros competitivos e com velocidades similares é o que todos esperam e querem ver, mas manipular diretamente o desempenho dos carros para que isto ocorra, é antinatural. Isto significa proibir os carros mais bem projetados de aproveitarem todo seu potencial porque os outros não vão conseguir acompanhar. É jogar fora o suor, lágrimas e trabalho de quem se dedicou por semanas para conseguir ganhar meio quilo de redução de peso ou cinco cv no motor.

O trabalho feito pelo time da Ferrari e da Ford com os novos motores turbo e chassis mais moderno foi simplesmente degolado pelo BOP. Os Aston Martin de mais de cinco anos de projeto não eram capazes de acompanhar os outros, até mesmo o Corvette com o motor de aspiração natural tinha dificuldade de manter o ritmo comparado com os carros turbo, então o BOP ajuda estes a se manter na disputa.

Não acredito que esta seja a melhor forma de se equilibrar um campeonato. A forma mais eficiente, pode até ser, mas com certeza não nem de longe a mais justa. O desenvolvimento do Ford GT, o carro mais novo entre os competidores da GTE-LM, foi um marco onde milhões de dólares foram gastos com engenharia, testes e desenvolvimento, e não podem extrair o máximo do carro pois o “velho” Aston Martin não acompanha. Não é justo.

O Corvette de motor aspirado é menor que o usado em produção (Plug the Net)

Todos os carros são feitos sob o mesmo regulamento, sob as mesmas regras. Desta forma, todos são capazes de extrair bons resultados, basta ter um bom projeto e muito trabalho duro. A Aston Martin possui opções mais modernas para substituir o Vantage, pelo menos o motor, agora que possuem o V-8 4-litros biturbo que equipa o novo DB11. Se não querem investir em desenvolvimento desta nova configuração, é outra história…

A grande questão é que este tipo de ação vai contra a própria essência do automobilismo, de se criar e pilotar carros ao extremo de sua capacidade. Os melhores pilotos e os melhores carros não mais vencem por mérito. Os melhores carros, frutos de dedicação e excelência em engenharia, não podem ser levados ao limite. É como dirigir um BMW M5 numa Autobahn, uma autoestrada alemã sem limite de velocidade, a 80 km/h.

Eu entendo bem que existe uma preocupação com o controle de gastos do campeonato e com o equilíbrio da disputa entre os carros, mas capar o desempenho depois do carro pronto para que os mais lentos acompanhem, é complicado e injusto. Limitar o orçamento é outro problema que não resolve, pois como controlar os gastos de uma equipe com suporte de fábrica? Limites técnicos já existem, como cilindrada, pesos mínimos, volume do tanque de combustível, e assim por diante. É tudo definido, não é o caso de um projeto ter sido feito algo fora do comum e com isso ter uma grande vantagem, como já ocorreu no passado em casos clássicos como o Chaparral 2J e o Brabham BT46B com os ventiladores para extrair ar debaixo dos carros, ou a suspensão ativa da Williams F-1 nos anos 1990.

Ford GT e Aston Martin Vantage, anos de desenvolvimento separam os projetos (GTE Le Mans)

Como forma de redução de custos, pode-se justamente avaliar a questão de liberar ou alterar a forma de limitação de tamanho de motores, assim alguns competidores não precisam ter unidades exclusivas para corrida, como é o caso do Corvette, que não possui um motor de 5,5 litros aspirado em produção. Assim, não seria preciso investir em um redimensionamento do motor de produção para ser apto a competir. Talvez criar uma regra que o tamanho do motor tem que ser igual ao do carro de produção, ou algo do tipo.

Uma das poucas categorias do automobilismo que permite que seus competidores sejam criativos e inovadores está começando a dar sinais de que tal abertura durará pouco, a começar pelo risco de não haver mais a categoria LMP1 no próximo ano, uma vez que a Porsche anunciou que não participará em 2018. Com isso, apenas a Toyota estaria representando a categoria dos protótipos híbridos, o que teoricamente não deve ocorrer se não tiver outros competidores. Espero que não tentem compensar esta perda com novos regulamentos e novos balanços de performance, pois assim acabam com a pureza do esporte-motor.

Como será o grid do WEC em 2018? (Porsche)

MB

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