Lá vou eu abrir as portas do inferno novamente. Vai ver que faço isso por puro tédio e tempo de sobra para exercitar raciocínio e fazer conta. É que estou há dois meses meio de molho, culpa de uma ruptura de ligamentos do pé bem, bem feia. Já estou na fase de fisioterapia, mas ainda tenho muitas restrições e apesar do meu normalmente ótimo humor tenho lá meus dias meio mais ou menos. Então, vamos lá. Vou aproveitar para criar quem sabe algum inimigo, já que tenho realmente muito poucos — apesar de que às vezes acho que meu fisioterapeuta não gosta muito de mim de tanto que ele me faz sofrer. E, claro, o ortopedista, o rei dos torturadores. Chego no consultório relativamente bem e saio de lá com lágrimas nos olhos. Mas na verdade são meus dois anjos da guarda, que se não fosse por eles não estaria tão inteira depois de tanta coisa que apronto.

Mas vamos lá, já tirando o ferrolho da porta do inferno. Semana passada vi os dados do Infosiga (Sistema de Informações Gerenciais de Acidentes de Trânsito do Estado de São Paulo). Ainda não me debrucei sobre todos os números, pois são divulgados aos poucos, mas o primeiro que me chamou a atenção foi o de morte de ciclistas na capital. No primeiro semestre de 2017 houve 21 casos na cidade de São Paulo, um aumento de nada mais e nada menos do que 75% quando comparado com o mesmo período de 2016, quando foram registrados 12 casos.

O número por si só já é alarmante, mas principalmente quando comparado com o volume de mortes no trânsito como um todo, incluindo carros, caminhões, ônibus, motos e pedestres, que chegou a 482 casos, com elevação de 1,2% no mesmo período (foram 476 nos primeiros seis meses de 2016).

Não vi ainda os números da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e sempre há discrepância, pois usam metodologias e períodos diferentes. Mas vamos comparar maçãs com maçãs. Ou seja, Infosiga com Infosiga. E primeiro semestre com primeiro semestre.

O Infosiga não tece qualquer consideração sobre os motivos, apenas divulga os números. Já o presidente da ONG Ciclocidade, Daniel Guth, disse que o crescimento de mortes se deve à “redução de multas de trânsito na cidade”. Segundo ele, “o aumento dos limites de velocidade nas marginais para 60 km/h, 70 km/h e 90 km/h produz reflexos em toda a cidade no comportamento do motorista, assim como o slogan `acelera`”. Quando questionado sobre uma correlação entre número de acidentes e aumento no número de ciclistas ele afirmou que isso não se verificou nos demais países (não cita exemplos, fontes nem números) e disse que não há números no Brasil sobre a quantidade de praticantes da modalidade.

Vejam, caros leitores, que coloquei as citações entre aspas porque foi assim que o senhor Guth se expressou. Tenho algumas considerações a fazer sobre estes comentários:

• Não houve nenhuma morte de ciclista nas marginais Pinheiros ou Tietê entre janeiro e junho de 2017.

• As velocidades que voltaram aos limites anteriores foram para 90 km/h somente para veículos leves em alguns trechos das duas marginais (não em toda sua extensão). Para veículos pesados foi mantida a máxima de 60 km/h em toda a extensão das duas vias e foi mantida a máxima de 50 km/h na faixa direita da pista local das duas marginais, também em toda sua extensão.

• Em absolutamente nenhuma outra via de toda a cidade de São Paulo houve aumento de um único quilômetro por hora na máxima velocidade permitida. Continuamos com os limites baixíssimos da administração anterior.

• Não foi removido nem desligado nenhum dos quase 1.000 radares que a cidade de São Paulo tem desde o final da administração anterior. E todos eles continuam funcionando com precisão germânica, emitindo multas nas 24 horas do dia, 7 dias por semana.

• Achar que um slogan tem poder de mudar comportamento e até mesmo matar gente é dar às palavras um poder que elas não têm. Mas, dentro da lógica deste senhor o “acelera” teria sido seguido pelos ciclistas também. Ou eles seriam os únicos imunes ao Marketing? Ainda nessa linha de raciocínio, basta fazer uma campanha “Não cometa infrações” e, pronto, cairiam drasticamente ou mesmo zerariam os acidentes de trânsito seja com carros, ciclistas, motos, ônibus ou caminhões, certo? E vou além, proponho uma no âmbito federal: “Não corrompa nem seja corrompido”. Pronto, já viraríamos uma Noruega. Como é que ninguém pensou nisso antes? Simples assim, não? E assaz bisonho.

• Quanto ao número de ciclistas, o que pode ter acontecido de um ano para cá? Temos três possibilidades:

– Ele ter aumentado — aí a elevação no número de acidentes seria um verdadeiro desastre para a causa. Se mais ciclofaixas e ciclovias aumentam o número de usuários e isto provoca mais acidentes, melhor acabar com elas — as faixas segregadas e as bicicletas. E de forma alguma tantas mortes deveriam ser admissíveis, não? Muito menos nessa proporção. Imaginem se continuar crescendo nessas taxas. Melhor todo mundo andar de ônibus, carro, metrô ou a pé que são mais seguros.

– Ele ter ficado estável — então para quê serviu a expansão da malha de ciclovias e ciclofaixas? Apenas para estreitar as vias para ônibus, caminhões e carros e, com isso, aumentar os congestionamentos e piorar a segurança? Para que insistir em querer mais espaço para esse modal se as pessoas não querem pedalar mais?

– Ele ter diminuído – então é melhor parar de pedir mais ciclofaixas e ciclovias, tirar algumas que já existem, analisar melhor quais devem ser mantidas (e se realmente devem ser mantidas) e, por que não, usar esses recursos em outros tipos de mobilidade, talvez coletiva, que beneficia mais pessoas e, normalmente, mais carentes.

Há ciclovias seguras, mas são poucas (Foto: debicicleta.com)

E, por último, se não há números sobre os usuários de bicicleta, faz sentido pedir a expansão da malha de faixas segregadas? Qual seria a extensão adequada para uma população cujo número não se conhece? Por quê ”nem um centímetro a menos” se não se sabe se há ciclistas a mais, a menos ou sequer quantos? Ainda que apareçam esses números, eles deveriam ser realmente sérios e não apurados por contadores automáticos que computam qualquer objeto que passa na frente, como era o que foi instalado na Av Faria Lima, que considerava praticante de corrida (portanto, pedestre) como se ciclista fosse. E, ainda, quantos são ciclistas a passeio e quantos usam o modal para se deslocar a trabalho. Pois por mais simpático e saudável que seja pedalar é para a população que se transporta a trabalho que deve ser dada a prioridade – da mesma forma que a frota de ônibus é reduzida aos finais de semana, não faz sentido empatar ruas e avenidas o tempo todo para ciclistas de final de semana ou que passeiam pelas vias. Pelo menos não numa cidade carente de transportes como São Paulo. Se é para lazer pode-se investir mais nos parques em primeiro lugar. Recursos poucos, prioridades que beneficiem mais gente e mais carente primeiro.

É óbvio que um cicloativista não diria que um maior número de acidentes ou de mortes se deve a que aumentou o número de praticantes, pois seria o mesmo que dar um tiro no pé — ou na sapatilha. Para que pediriam mais ciclovias e ciclofaixas então? Para aumentar o número de óbitos? Mas, por favor, arrume uma desculpa melhor que essas mencionadas ferem minha inteligência…

Aliás, para que fique bem claro, repito. Se mais ciclofaixas e ciclovias não aumentam o número de ciclistas, para quê espremer as vias, aumentar os congestionamentos e piorar o trânsito se sequer servem para isso? E aqui não me refiro apenas aos carros de passeio. Falo também dos veículos de carga e dos ônibus. Sou ferrenha defensora do transporte de passageiros, especialmente numa cidade carente como São Paulo e, claro, de cargas. Afinal, as coisas precisam chegar a milhões de pessoas e é ilusório achar que poderíamos entregar carne ou alface de bicicleta a todos. Tem de ser de caminhão, mesmo, ainda que seja um VUC.

O senhor Guth disse também que “as periferias são os locais com mais ciclistas e menos condições seguras para eles se locomoverem. Por isso concentram mais mortes”. Ora, essa foi uma das maiores críticas feitas por não-cicloativistas à administração anterior, que fez ciclofaixas em bairros residenciais e no centro, locais de maior visibilidade mas de menor utilidade. Se se confirmar que houve mais mortes de ciclistas na periferia, terá sido mais um ponto negativo e mais uma priorização errada dos poucos recursos que havia.

Vamos, agora, voltar à questão das multas. Qual é a correlação entre multas e morte de ciclistas? As de velocidade são praticamente todas por radar, e continuam sendo emitidas. Alguém já foi multado (carro ou ciclista) por não manter distância de 1,5 metro do outro? Aliás, algum ciclista já foi multado por andar na calçada? Atravessar montado? Andar na contramão? Alguma outra coisa daquelas que tanto vemos?

Mortes de ciclistas subiram 75% (Foto: band.uol.com)

Se o maior volume de mortes de ciclistas não tem a ver com um eventual aumento de ciclistas, não houve retirada de ciclofaixas nem ciclovias significativo (os poucos metros que foram apagados foram pintados novamente por cicloativistas), será que aumentou a imprudência dos ciclistas? Qual foi a utilidade de estreitar tantas vias para fazer ciclofaixas e ciclovias se sequer serviram para aumentar o número de usuários? Alguém tem alguma sugestão de por que morreram mais ciclistas, já que o próprio cicloativista não tem um motivo plausível? Se terminamos 2016 com 430 (ou 450, há divergências nos números) quilômetros de ciclofaixas e ciclovias e não foi construído nem mais um centímetro em 2017, se aumentou tanto o índice de morte de ciclistas no primeiro semestre deste ano comparado com o mesmo período do ano passado, numa constatação intuitiva, sem nenhuma fundamentação científica, diria que os ciclistas ficaram mais folgados. Hoje a maioria se comporta como se tudo pudesse. Muitos não param nos sinais, andam na contramão, pelas calçadas, não descem na bicicleta nas travessias quando deveriam, quando devem dividir o espaço com pedestres (como nos baixos do Minhocão) simplesmente buzinam e exigem que os pedestres abram caminho como se eles tivessem a prioridade que não têm. Provavelmente esse seja o principal motivo do aumento no número de acidentes mas, novamente, não tenho estatísticas e, por favor, entendam isto apenas como uma impressão minha. Se alguém tiver outra teoria, aceito sugestões. Mas sérias, por favor, que  bobagens já tive de escutar várias.

Mudando de assunto: Circuito da Hungria: não posso deixar de mencionar a belíssima largada do Giuliano Alesi na GP3. Um espetáculo! Esta pista é uma dos minhas favoritas por ter sido o palco da mais sensacional ultrapassagem de todos os tempos — sim, Piquet sobre Senna em 1986. Mas domingo vi dois dos pilotos pelos quais tenho menos simpatia fazerem as coisas mais legais do dia. Vejam bem, falo em simpatia, não talento, pois ambos tem de sobra, tá? A primeira foi o Hamilton devolver a posição para o Bottas. Não curto muito jogo de equipe mas entendo e existe desde sempre. Mas acho que o sujeito tem que fazer por merecer. O inglês teve sei lá, umas 20-25 voltas para chegar e passar Kimi e/ou Vettel. Não conseguiu? Devolve a posição que ganhou de graça – claro que o Bottas não poderia estar 30 segundos atrás. Óbvio que foi ordem da equipe, não da caixola dele, mas cheguei a pensar que não faria isso. Claro que depois ele faturou em cima, alegando que é pessoa de palavra, etc e tal. Mas valeu. Não gostei do mimado Vettel (que também tem talento de sobra) precisar de escudeiro durante metade da corrida. Se fosse algumas voltas, vá lá, mais meia corrida? Novamente, acho que para jogo de equipe o sujeito tem que fazer por merecer – ou então ser a última prova do campeonato. E a segunda coisa que adorei foi a pintura logo abaixo do pódio, com o meme do Alonso e depois o próprio, sentado na espreguiçadeira tirando sarro dele mesmo. Um barato!

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
(1.958 visualizações, 1 hoje)