Hoje vou contar uma preocupação que me acompanhou por mais de 250 quilômetros.

Minha família é dividida entre cariocas e paulistas, eu sou de São Paulo e minha mulher e seus familiares, do Rio de Janeiro. As oportunidades de nos encontrarmos, a família praticamente toda, tinham que ser aproveitadas. Conosco nada é diferente da maioria das famílias que moram em cidades ou estados diferentes. As principais festas do ano são sempre divididas entre os familiares; e quando vêm os netos, mais ainda.

“O Natal será aqui”, aí a outra família diz “OK, mas o Ano Novo será aqui”, e assim vai-se vivendo fazendo rodízio entre famílias e os locais das comemorações.

Um tio da minha mulher e também nosso padrinho de casamento ia completar 70 anos e não queria fazê-lo no Rio de Janeiro, de onde era natural. Militar da Marinha com patente de almirante, precisaria convidar muita gente para comemorar esta importante data. Estou falando de 1986.

Conseguimos convencê-lo e sua esposa a virem comemorar seu aniversário em família aqui em São Paulo, e também de fazermos um almoço na cidade de Piracicaba, distante 180 quilômetros de São Paulo, onde morava seu sobrinho, irmão da minha mulher, sua esposa e as três filhas do casal, nossas sobrinhas.

E assim, na véspera do seu aniversário, o casal veio a São Paulo, fomos ao aeroporto de Congonhas buscá-los e os acomodamos em nossa casa no bairro Alto da Boa Vista, cedendo-lhes inclusive nosso quarto para seu maior conforto. Eu e minha mulher dormimos com nossos filhos.

Seu aniversário, no sábado, foi comemorado à noite em casa e  no domingo iríamos a Piracicaba, onde haveria o almoço com toda a família junta — 12 pessoas, contando minha sogra, viúva, e cunhada do aniversariante, que morava conosco.

Aqui de São Paulo seríamos cinco adultos e duas crianças, e aí um problema que me martelou a semana toda: como acomodar todos em um carro de porte médio?

Nessa época eu trabalhava na Volkswagen e poderia facilmente pegar uma Kombi, sobraria espaço, mas pensei em proporcionar um pouco mais de conforto para o aniversariante e sua mulher, já que não era viagem tão curta considerando a ida e a volta.

Tive a ideia de arranjar um carro que acomodasse nós sete e parti à caça de um, o que não foi tão difícil como eu imaginava, apesar de não existir então as facilidades que temos hoje, com locadoras que até vans alugam, e com motorista, se necessário. Consegui com um amigo um Chevrolet Veraneio emprestado, que não era tão novo, mas atendia à nossa necessidade de espaço (a foto do Veraneio é meramente ilustrativa, visto eu não ter uma deste que usei).

Fui buscar o carro quinta-feira, tudo parecia estar em ordem, conferi documentos, pressão dos pneus, enchi o tanque, etc., tudo para fazer uma viagem tranquila e segura.

Domingo pela manhã, um bom café matinal ainda comemorando o aniversário da véspera e todos prontos para seguirmos para Piracicaba e encontrar os outros membros da família. Ainda bem que não tínhamos cachorro e papagaio, e os bichos que havia em casa, os ramsters dos meninos, ficaram em casa.

Pé na estrada, ou melhor, Veraneio na estrada. Na frente os homens, eu dirigindo e o tio setentão ao lado, e atrás minha mulher, minha sogra e a tia. As crianças foram no amplo porta-malas — hoje condenável, sei disso, mas não tanto naquele tempo.

Uma parada no primeiro posto de gasolina da rodovia Castello Branco para uma esticada das pernas, as minhas principalmente, e um cafezinho muito oportuno.

Depois de uns quinze minutos continuamos em direção a Piracicaba pegando depois a Rodovia do Açúcar, a SP-308.

Foi então que começou o meu martírio: um forte cheiro de gasolina chegava ao interior do Veraneio. O que seria todos perguntam, e a resposta só viria depois de parar no acostamento, abrir o capô do motor e tentar identificar a origem do cheiro, realmente muito forte. Com o motor desligado não notei nada errado visualmente, então pedi ao tio para colocá-lo em funcionamento. As mulheres já faziam sua programação e pensavam na rota de fuga em caso de incêndio, primeiro as crianças etc., etc.

Com o motor funcionando identifiquei que o vazamento de combustível tinha sua origem no eixo da borboleta do carburador e/ou na junta entre o corpo e a tampa. Naquele tempo não havia socorro na rodovia como hoje.

Com muito medo de um incêndio seguimos viagem até chegarmos a Piracicaba. Lá chegando, a festa do reencontro da família era interrompida por tosses de intoxicação devido ao forte cheiro de gasolina, mesmo que tivéssemos baixado todos os vidros.

Enquanto a família se confraternizava eu procurava uma oficina para tentar reparar o tal vazamento. Mas domingo seria muito difícil, e depois de rodar a cidade que eu não sabia ser tão grande, voltei para casa, uma vez que estava chegando a hora do almoço.

O dia foi curto para tanta conversa e eu só pensava na volta. Embora à noite a temperatura estivesse a meu favor, o risco de incêndio continuava. Gasolina caindo perto do coletor de escapamento é sempre um risco.

Falamos em voltar na segunda e achar um mecânico para fazer o reparo, mas não daria certo porque os tios haviam marcado o voo de volta para o Rio de Janeiro na segunda logo depois do almoço.

Sugeri irmos de noite mesmo, com temperatura mais baixa, e supus que chegaríamos bem em casa.

Sinceramente, foram os 180 quilômetros mais difíceis e ansiosos que eu já dirigi na vida. A família no carro, frio lá fora, vidros baixados e o cheiro da gasolina dentro do carro. Foi terrível.

Fizemos umas três paradas para descanso e renovação do ar dos pulmões e finalmente por volta das 10 da noite chegamos a São Paulo. Imediatamente ligamos para Piracicaba para dar a notícia de que estávamos em casa e seguros.

Não sei se o aniversário foi bem comemorado, mas de uma coisa eu tenho certeza: aquela brincadeira do passeio de bugue no Nordeste, quando o bugueiro pergunta se quer com ou sem emoção, eu juro que não perguntei a ninguém, mas seguramente  esta viagem a Piracicaba foi emocionante e. por isso, inesquecível.

Na segunda-feira mandei consertar o carro, o devolvi-o a seu proprietário e agradeci sua gentileza, mas nada comentei a respeito. Afinal, o reparo já tinha sido feito.

Lembramos, minha mulher e eu, desta viagem com tristeza, porque os tios e minha sogra não estão mais conosco, mas seguramente estão lá em cima comentando esta aventura.

RB

Nota: Esta coluna completou 1 ano hoje e agradeço ao leitor ou leitora a leitura. A primeira foi Rabo quente esfriado.

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

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