Conversa de bêbado muitas vezes rende boas piadas. Conversa de amigos em torno de umas garrafas de cerveja, jogando conversa fora, então, muitas vezes rende bons desafios — nem sempre cumpridos quando se recobra a sobriedade. Mas imaginem, caros leitores, desafio de mecânicos depois de ter tomado umas cervejas? Só podia dar em algo muito, muito louco. E foi o que aconteceu num dia de 2011 quando dois amigos neozelandeses, Garry Orton e Guy Griffith, estavam tomando umas cervejas na cidade de Nelson.

Um resolveu lançar a proposta: que tal quebrarmos o recorde mundial de velocidade com carros? Por que não? Mas parecia muito fácil. Aí um deles teve a ideia de fazer isso com motores abaixo de 1.000 cm³. “Claro, por que não?”, disse outro.” Mas só isso seria muito fácil, óbvio. Como apaixonado por carro e cerveja deixam qualquer um meio sem noção por princípio, por que não fazer isso com um carro com mais de 50 anos de uso? “Claro!”, disse o outro. Pronto! Tudo teria ficado por isso mesmo se eles estivessem muito bêbados, o que parece que não era o caso. Tanto que no dia seguinte começaram a trabalhar no projeto. Eram só algumas cervejas.

E assim nasceu o Projeto 64 Mini Cooper, numa roda de cerveja entre amigos que tiveram uma ideia meio louca mas que foram em frente, ao contrário da maioria das ideias meio loucas que surgem nas rodas de cerveja entre amigos.

O valente carrinho no museu de Nelson (Foto: autora)

Orton e Griffith eram amigos desde os anos 1980 quando se conheceram justamente em Nelson por causa da paixão por carros e em 2001 ficaram sócios na restauração e manutenção de carros clássicos e na direção de equipes de competição.

Lembrei de tudo isto arrumando as fotos das minhas férias, que pelo andar da carruagem terminarei lá por 2021. Nem sei por que não escrevi antes esta história, pois quando meu amigo que mora lá (justamente em Nelson) me contou e fiquei sabendo dos detalhes no museu onde está o carro, fiquei fascinada. Ah, sim, já sei por quê. Porque outras coisas atropelaram minhas ideias e acabou ficando para trás. Mas foi bom ter relembrado esta divertida história. E mais um parêntese de outra coisa que soube quando estive por lá.

Na região de Nelson planta-se muito lúpulo e é um dos lugares onde há o maior número de cervejarias artesanais do mundo. Não sei ao certo quantas são, mas de fato são muitas. E os neozelandeses realmente apreciam essa bebida. Estive em algumas e a variedade é impressionante. Como não sou apreciadora da bebida não sirvo como parâmetro e meu paladar não tem o menor treinamento — portanto provei várias, de umas desgostei menos do que de outras mas, novamente, não sou apreciadora de cerveja. Mas quem é diz que a qualidade é muito boa. E ver tantos campos de lúpulo é algo raro em qualquer lugar do mundo. Pronto, fim do momento cultural.

O projeto foi totalmente bancado por recursos privados, patrocínios e levantamento de fundos — a maioria obtidos pela própria a equipe. Ela incluía Garry Grant, Bryan Hartley, Nelson Hartley, Larry Mulholland, Chris Jones and Mike Wilson, além de Garry Orton e Guy Griffith.

O carro usado no Projeto 64 — um verdadeiro orgulho kiwi, como se autodenominam os neozelandeses – é um Morris Mini Cooper 970 S 1964, com motor de 970 cm³ do qual somente foram fabricadas 963 unidades no Reino Unido, embora tenham sido produzidos mais de 5 milhões de Minis de todos os tipos até o ano 2000. O modelo usado no Projeto 64 tem partes de um Morris Mini 850 azul 1964, velho e enferrujado, garimpado pelo próprio Larry Mulholland na cidade neozelandesa de Christchurch.

O Mini em Bonneville (Foto: project64mini.com)

Várias adaptações foram feitas e em várias oficinas e cidades da Nova Zelândia de forma a adequar o veículo aos requisitos da Southern California Timing Association (SCTA), a organizadora do evento, incluindo a substituição do cabeçote original por um de motocicleta BMW K 1200R, de duplo-comando e 4 válvulas por cilindro, injeção de combustível, mais a adição de um turbocompressor IHI com interresfriador. O motor modificado — aumentado para 998 cm³ — produzia aproximadamente 300 cv com gasolina e 332 cv com metanol. O câmbio era manual de 4 marchas.

O turbocompressor foi essencial devido à altitude de Bonneville, 1.286 metros, que com o aumento do calor o fator altitude passaria a equivaler a 2.100 metros.

A superfície de sal da pista também faz com que dirigir seja algo diferente de qualquer outra pista onde eles tivessem treinado. Solução? Um piloto de ponta: Nelson Hartley, que, apesar de jovem tem longa experiência no kart, na Fórmula Holden, Fórmula Ford, Toyota e outras categorias — embora mais novo e menos conhecido que seu irmão Brendon Hartley, que chegou a correr na Fórmula 1 e em várias outras categorias, e continua na ativa — venceu a recente 24 Horas de Le Mans com o Porsche 919 Hybrid, junto com o compatriota Earl Bamber e o alemão Timo Bernhard.

E lá foram os kiwis. Já em 2012 eles estabeleceram o recorde de 235,922 km/h no SCTA Speed Week de Bonneville Salt Flats, em Utah, nos Estados Unidos com o Mini Cooper 970 S 1964 Mk1 preparado por eles, concorrendo na classe de motores 751 a 1.000 cm³. O recorde para essa classe era de 215 km/h, um Suzuki.

Mas não pararam por aí. Como ouviram de outros participantes, quem prova o sal de Bonneville volta sempre. Bem que tentaram em 2015, mas houve cancelamento da prova devido às chuvas. Mas em 2016 lá estavam os neozelandeses novamente com seu possante.

Eles tentaram bater novamente o próprio recorde e queriam atingir 281 km/h. Para isso, mudaram de categoria. Abandonaram a  I/BGALT e passaram para a I/BFALT, mas os ventos não permitiram a quebra do recorde. Ainda assim, o valente carrinho bateu o próprio recorde e o da categoria e chegou a 254,339 km/h.

Numa terceira tentativa de bater o recorde, na categoria I/BFCC, o carro alcançou incríveis  267,225km/h na classificação, mas o motor quebrou na segunda passagem — problema de mancais do virabrequim (só são três) — e teve que abandonar a prova. Embora não tenha completado o percurso de ida e volta, o número está lá, para orgulho da equipe: 267,225 km/h.

A equipe em Utah com bandeira neozelandesa (Foto: nzmotorracing.co.nz)

Hoje o Mini tem um lugar de destaque no lindo museu WOW, o Museu Nacional de Arte Wearable (“usável” ) e Carros Clássicos que combina roupas que são algo entre esculturas vestíveis (ou de destaques de escolas de samba, porém interessantíssimas) e, sim, carros e motos clássicas, justamente na cidade de Nelson, onde toda a ideia surgiu.

De vez em quando os jornais locais voltam a falar que o grupo pode participar de Bonneville 2018, mas eu vi o carro no museu em maio de 2017 e não sei se daria tempo de prepará-lo para outra prova. Pelo menos não esse mesmo. Mas pelo visto esse grupinho adora um desafio, então eu não diria que é impossível que façam qualquer coisa.

Mudando de assunto: quem aguenta outro final de corrida como o GP de Fórmula 1 da Alemanha? Proibida para cardíacos. Vettel fritou os pneus ( e acho que o cérebro) tentando evitar que Bottas o ultrapassasse e pagou caro. Como vocês sabem, tenho uma quedinha pelos finlandeses no automobilismo, mas Bottas e Kimi fizeram por merecer o pódio. E Ricciardo deu mais um show. Enfim, valeu a pena acordar cedo.

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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