Assim como muita gente, passo boa parte do tempo dentro do carro. Hoje nem tanto, é verdade. Já foi mais. Tive épocas em que saía de casa e voltava 14 horas depois – às vezes mais. Passava mais tempo fora de casa do que nela e, claro, era obrigada a carregar muitas coisas. Fazia várias paradas ao longo do dia e da noite, supermercado, tintureiro, sapateiro, floricultura… várias coisas na ida e na volta do trabalho. Ah, as maravilhas do comércio 24-horas! Era freguesa dos pontos de flores do Largo do Arouche, dos supermercados 24-horas, das lojas de material de construção que não fechavam da marginal do Tietê…

Além de trabalhar fora (coisa que faço desde os 16 anos, quando comecei a estagiar, já na faculdade), casei cedo e sempre cuidei pessoalmente da casa. Portanto, várias coisas sempre foram atribuições minhas. O marido ajuda sempre e faz outro tantão de coisas, mas temos uma divisão de tarefas em função do que cada um gosta e sabe fazer melhor. Não é questão de machismo nem de educação. É gosto, mesmo e, claro, habilidade.

Por isso, meu carro sempre foi uma segunda casa. Durante muitos, muitos anos trabalhei à noite e de madrugada, portanto, casaco extra, guarda-chuva e até mesmo meia-calça e sapato extra caso o “titular” molhasse, desfiasse ou quebrasse o salto, eram comuns no porta-mala. Álcool-gel sempre levei no porta-luvas, pois tenho horror de, nas raríssimas vezes que ando com sandália, molhar meus pezinhos numa enchente – como já aconteceu. Aí minha paranoia com contaminação faz com que lave compulsivamente com álcool-gel, na falta de algo mais adequado. Saquinhos plásticos para guardar algum lixinho que possa surgir (papel de bala, folhetos recebidos no sinal) são indispensáveis. Bloquinho de anotações e caneta, sempre.

Obviamente no porta-malas todos os acessórios obrigatórios do carro: estepe, triângulo, ferramentas. Já mencionei aqui a falta que sinto de um estojo de ferramentas que havia recebido de presente de um fabricante de veículos anos atrás com uma linda coleção de itens menos comuns – inclusive umas utilíssimas chaves Philips de diversos tamanhos que usei várias vezes e não apenas no carro. Um prático compressor que já usei para encher pneu e não ficar parada na rua com um pneu furado mas que também foi muito útil para encher balões em festa de aniversário.

Basicamente, acho que é isso. Além, é claro, do meu sapatinho de dirigir, para não marcar meus sapatos de andar mesmo e o salto não escorregar no pedal. Fora isso, nada. E faço questão de organizar sempre meu carro. Nada mais desagradável do que entrar num carro bagunçado.

Compras entram no dia que são feitas e saem no mesmo dia, nas caixas dobráveis que ficam no porta-malas. Não fica nada de um dia para o outro, a não ser que seja de propósito. Nada é “esquecido”.

Carro com papéis no chão? Não no meu. Livros espalhados? Não no meu. Às vezes tem alguma folhinha no tapetinho que entra junto com os sapatos, mas quando chego em casa pego meu aspirador sem fio e passo, rapidinho. Não sou de lavar o carro com muita frequência — falta de tempo, mas principalmente um pouco de preguiça. E eu mesma não lavo. Nada de ficar de camiseta e shortinho para a vizinhança se divertir, não.  No máximo, levo ao posto se fica muito empoeirado ou com sujeira de árvores (as de passarinho eu mesma tiro rapidamente). Mas nunca deixo o carro com aspecto de que participou de um rali e os vidros (e retrovisores) sempre limpinhos pois faço isso no posto, quando abasteço.

Você conseguiria dirigir desse jeito? (Foto: mundogump.com.br)

Recentemente, conversando com uns amigos soube de uma amiga que entrou no carro e achou um cheiro estranho. O marido tinha jogado futebol e esquecido a camiseta suja sei lá quanto tempo. Eu ficaria viúva se minha cara metade fizesse isso. Bom, até parece que ele faria isso. Nem em sonhos!

Algumas amigas com filhos alegam que com crianças é impossível manter o carro limpo. Não tenho filhos, mas acho que eu conseguiria, sim. Meus pais conseguiam… Acho natural ter algum brinquedo no carro ou algum cobertorzinho, e, claro, cadeirinha, mas bolachas embolaradas no chão, quatro chupetas, formigas ou coisas assim… nananinananão. Tenho uma amiga que diz que o carro dela não precisa ser lavado e sim capinado! No de outra apareceu uma barata. Cruzes! Tem algumas em cujos carros acredito possam ser achados animais já extintos ou em vias de sê-lo, como micos-leões-dourados.

Acho estranho quando entro no carro de alguém e preciso esperar que tirem coisas para dar espaço para que eu me sente. Tem gente que tem carro para cinco passageiros mas parece que está pronto para apenas o condutor. Qualquer outro tem de ser acomodado especialmente, retirando-se coisas para isso. E não é algo específico daquele dia, não, é sempre assim.

Às vezes, nas noites de insônia, vejo qualquer coisa para tentar dormir. E sim, já sei que ver televisão não funciona para isso, mas comigo sim. Desde que veja algo que não prenda minha atenção. Então sintonizo algum programa que não quero ver por muito tempo. É o caso de “Acumuladores Compulsivos”. Vixe! Tem cada coisa! Gente que acumula literalmente toneladas de lixo em casa (muitas vezes fora dela também, e nos carros) a ponto de se encontrar bichos mortos e até mumificados. Algo indescritível. É claro que é um transtorno psiquiátrico. Nunca andei num carro assim, mas acho que tem alguns que são aprendizes disso.

Às vezes fico olhando em volta e imaginando o que um psicanalista pensa de um carro assim. Um freudiano diria que isso é uma projeção do relacionamento com o pai? Um lacaniano faria uma interpretação onírica disso? Sei lá, eu vejo como bagunça, mesmo…

Mudando de assunto: falando sobre as velocidades na cidade de São Paulo:

“Devagar p… Você vai nos matar” (Foto: photos-a-la.com.fr)

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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