Compartilho com o leitor ou leitora um trecho do livro “Jim Clark at the wheel”, sua autobiografia, que já comentei parte aqui no AE. É do Capítulo 10, “Minha filosofia nas corridas”:

“Até pilotos experientes ficam perplexos com a maneira de outro usar uma linha de aproximação de uma dada curva de um dado circuito. Lembro-me de quando testava o o Cortina-Lotus (foto de abertura) em Silverstone no molhado, Colin Chapman, que provavelmente correu mais em Silverstone do que eu, quis ver o que aconteceria com o comportamento do carro se fosse adicionado algum peso no eixo traseiro. A melhor maneira de descobrir era Colin andar na pista comigo, eu dirigindo em regime de corrida. Assim, ele entrou no carro,  no banco traseiro.

Claro, andei bem rápido e estava me divertindo, me atirando com tudo nas curvas da maneira que os Cortinas aceitam e tudo dar certo. Após duas voltas Colin, segurando-se como podia, berrou lá de trás dizendo que eu fazia as curvas em Silverstone de modo estranho, e perguntei-lhe o que ele queria dizer com isso, pois era a minha maneira de pilotar. Ele então explicou que ele entrava nas curvas muito depois de mim e que seu traçado era completamente diferente do meu. Metade do tempo ele achou que eu ia bater em uma mureta ou no barranco no lado externo da pista.

Isso mostra como dois pilotos podem pensar diferente sobre como dirigir determinado carro. Mesmo que possa haver um traçado teoricamente correto para cada curva, depende do tipo de carro que se esteja dirigindo usarmos esse traçado ou algo mais adequado ao carro quanto às suas características, em que a teoria pode não ser verdadeira.

Todavia, pode haver verdade no que Colin diz, pois eu tenho tendência de entrar nas curvas mais cedo do que a maioria das pessoas. Com isso quero dizer que com os carros de hoje adentra-se mais às curvas antes de virar o volante para contorná-las. Desse modo pode-se terminar toda a frenagem em linha reta, como todos aconselham, antes de pôr o carro para efetuar a curva. Mas eu prefiro entrar na curva mais cedo, e até com os freios aplicados ainda, para posicionar o carro para a curva. Desse modo eu crio uma tangência falsa porque aplico potência antes e procuro escorregar o carro passando por essa tangência e continuar com essa atitude até ficar pronto para a próxima reta.

Isso me lembra o que acho ser o mais importante para se aprender numa corrida — como frear. Chega a assustar quando se descobre que se pode frear muito mais tarde do que se imagina e em qualquer tipo de corrida a frenagem é mais importante do que muitos pensam. Considera-se que deixar para frear no último momento é importante, e concordo. Mas eu diria que onde se tira o pé do freio também importa. Depende muito do carro que se esteja dirigindo.

Muitas vezes, quando quero fazer uma curva mais rapidamente, eu não necessariamente deixo para frear mais tarde do que o habitual, mas posso não aplicar os freios com a mesma intensidade e tirar o pé mais cedo. A armadilha é deixar a frenagem para muito tarde dentro da curva, freando no último momento. Pode-se chegar mais rápido a ela, mas há então uma tendência psicológica de se frear mais forte do que o necessário, freando demais o carro.

Acontece muito, um piloto estar no calor da corrida e dar uma volta muito rápida. Seu boxe então lhe pede para aliviar o ritmo e o piloto fica surpreso com o fato de estar tão rápido quanto antes. O motivo é ele estar antes freando mais que o necessário, reduzindo a velocidade mais do que precisava.

Eu estava falando sobre essa questão de frenagem com um grande amigo, Jackie Stewart, um jovem piloto escocês que considero ser extremamente hábil. Jackie tem grande experiência, já correu de Marcos e Jaguar E-Type e, mais recentemente, de Cooper Monaco e Tojeir0-Buick, da Ecurie Ecosse. Em 1964 ele correrá com o Tojeiro e também contra mim num Cortina-Lotus. Ele é um piloto de habilidade acima da média. Conversávamos sobre frenagem e os erros que ele estava cometendo. Ele disse que por duas vezes teve problema nos esses em Snertetton ao confundir os pedais do Cooper Monaco com os do Tojeiro.

Quando estava dirigindo o Cooper apertou por engano o acelerador em vez do freio. Perguntei-lhe se houve consequências, se houve algum risco, e quando ele me disse que não, eu disse que ele estava procurando frear quando não precisava. Estivesse ele dando tudo e andando no limite, cometer tal erro, o que lhe levaria a sair da pista, mostra que ele estava usando os freios desnecessariamente.” (Continua outro dia).

BS

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Sobre o Autor

Bob Sharp
Editor-Chefe

Um dos ícones do jornalismo especializado em veículos. Seu conhecimento sobre o mundo do automóvel é ímpar. História, técnica, fabricação, mercado, esporte; seja qual for o aspecto, sempre é proveitoso ler o que o Bob tem a dizer. Faz avaliações precisas e esclarecedoras de lançamentos, conta interessantes histórias vividas por ele, muitas delas nas pistas, já que foi um bem sucedido piloto profissional por 25 anos, e aborda questões quotidianas sobre o cidadão motorizado. É o editor-chefe e revisor das postagens de todos os editores.

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