Nesta Parte 3 vamos continuar a descrever este megaevento. Acredito que esta matéria certamente está despertando em muitos a vontade de participar de eventos como este, mas por enquanto vamos descobrindo como HO17 foi e conhecendo alguns dos carros que fizeram o show acontecer.

Carros veteranos com carrocerias especiais usando a mecânica do Fusca

Nomes como Hebmüller, Rometsch, Dannenhauer & Stauss não são muito conhecidos nos dias de hoje, mas já fizeram história no passado. Todos são nomes de antigos fabricantes de carrocerias especiais que, no caso, criaram, dentre outras, carrocerias únicas e lindas montadas sobre chassi de Fuscas.

A praça em volta da igreja de Santa Maria, durante o evento, é o local reservado para as raridades Volkswagen especiais.

A praça em volta da igreja de Santa Maria que é o lugar para ir ver as maiores raridades (Fonte: Google Maps)

Este panorama mostra o clima da Kirschenplatz (praça da igreja) da igreja de Santa Maria, cedinho, com chuva e com os carros chegando para mais um dia de evento:

Vista panorâmica da Kirschenplatz (Foto: Ighör Tóht)

Muitos cabriolés Hebmüller dispostos lado a lado, de maneira que é possível se ver vários ao mesmo tempo. Lembro que foram montados somente uns 690 destes carros entre 1949 e 1951 (antes da empresa falir em consequência de um incêndio devastador), dos quais se estima terem sobrevivido cerca de 120.

(Foto: Ighör Tóht)

(Foto: Ighör Tóht)

Também apareceram no evento carros com carrocerias especiais das Firmas Rometsch e Dannenhauer & Stauss. Estas empresas compravam Fuscas nas concessionárias, tiravam a carroceria original e montavam seus carros especiais. As carrocerias de alumínio eram conformadas artesanalmente sobre estruturas de madeira. Alguns carros expostos estavam em estado original, não restaurado, e mesmo assim apresentavam um charme todo especial.

Os Dannenhauer & Stauss eram manufaturados em Stuttgart e apareceram a partir de 1951; tinham uma aparência calcada no Porsche. Estima-se que tenham sido manufaturados entre 85 e 135 carros, dos quais restaram apenas 18. Apesar dos carros serem fornecidos com a mecânica standard do Fusca de época, muitos proprietários ou envenenavam os motores, ou mandavam instalar motores Porsche. Em HO17 apareceram vários Dannenhauer & Stauss que ficaram expostos no Marktplatz:

Três Dannenhauer & Stauss, sendo que o terceiro da direita para a esquerda é o mais antigo que ainda tinha o para-brisa bipartido, e os irmãozinhos à direita na foto são mais modernos (Foto: Ighör Tóht)

Estes Dannenhauer & Stauss têm um perfil muito elegante (Foto: Ighör Tóht)

O carro abaixo carro chamou muita atenção, é um Dannenhauer & Stauss “Denorex” – parece, mas não é…. Trata se de uma construção atual feita pelo artesão Edwin Jerspers da incrível oficina Metal Master Seppe, de Antuérpia na Bélgica. Ele inicialmente fez uma réplica de um conversível, e, a partir deste ele decidiu realizar este bólido, com para-lamas abaulados, capota rígida com teto solar e um scoop na tampa do motor para entrada de ar.  Portanto, não se trata de uma réplica, mas de uma construção nova baseada no Dannenhauer & Stauss; o resultado é incrível.

(Foto: Ighör Tóht)

(Foto: Nico D’Haene)

A Karosserie Friedrich Rometsch, era sediada em Berlim, foi fundada em 1924 por Friedrich Rometsch, aproveitando, os tempos que os carros eram só para as classes mais abastadas. Havia o costume de comprar um chassi completo com um motor e, em seguida, empregar um carrozziere para manufaturar uma carroceria personalizada e finalizar um carro exclusivo.

Mais tarde, quando apareceram os Fuscas para uso civil, ela passou a manufaturar carros usando a sua mecânica, porém sem receber a aprovação de Wolfsburg para o uso de componentes Volkswagen. Mesmo assim, segundo a AutoBild, foram fabricados 300 carros Rometsch com mecânica Volkswagen.

Em 1951, o engenheiro Johannes Beeskow deu o seu nome ao carro baseado no Fusca que desenvolveu: Rometsch Beeskow Kabrio; cujo apelido é “carro banana” devido à sua forma alongada. Este carro era produzido nas versões cabriolé e cupê.

Em HO17 compareceram 3 Rometsch Beeskow, conforme mostram as fotos abaixo:

(Foto: Ighór Tóht)

(Fotos: Ighör Tóht)

 

E os outros 2 Rometsch Beeskow estão abaixo:

E em 1957 apareceu o Rometsch Lawrence, também disponível como hard top ou cabriolé, desenvolvido por Bert Lawrence. Em HO17 compareceram dois Rometsch Lawrence, um restaurado e outro em estado original sem restauração:

Rometsch Lawrence restaurado (Foto: DEWEZEIT)

O Rometsch Lawrence não restaurado chamou muita atenção:

O Rometsch Lawrence não restaurado (Foto: DEWEZEIT)

Mais fotos desse Rometsch Lawrence (Fotos: Alexander Fischer):

No dia 3 de outubro de 2015 a Coleção Grundmann foi ampliada com a inauguração de um museu adicional dedicado aos carros Rometsch. Seguem duas fotos para mostrar como era feita a estrutura de madeira sobre a qual eram aplicadas as chapas conformadas manualmente para formar a carroceria dos carros:

Aliás, a Rometsch esteve ligada ao Fusca desde o princípio, pois, além de ter colaborado na fase dos protótipos, foi esta empresa que manufaturou as carrocerias dos KdF pré-série, de 1938 até o início da produção em Wolfsburg. Foi também desta empresa o projeto e execução do Fusca estendido 18 centímetros, de quatro portas, para serviço de táxi em Berlim (onde havia uma exigência para que todos os táxis tivessem 4 portas).

Mas, como a Rometsch não tinha o beneplácito da Volkswagen para a fabricação de seus carros, quando o Karmann Ghia foi lançado a venda de peças para a Rometsch foi interrompida e até a venda de carros completos para funcionários da Rometsch foi “verboten” – proibida.

Os carros especiais que compareceram ao evento não se restringiram aos citados até agora – que são considerados os mais emblemáticos. Havia mais carros representantes de outras construções especiais como este Enzmann 506 Spider (escrito com „i“ mesmo):

Enzmann 506 Spider (Foto: Ighör Tóht)

O Enzmann 506 Spider foi construído pelo suíço Emil Enzmann. Dependendo da fonte de pesquisa, de 1956 a 1965, foram construídos entre 80 e 100 unidades.   Em 1953, o médico rural suíço e desenhista por hobby Dr. Emil Enzmann projetou um carro esportivo aberto. Seu design foi inspirado no Porsche 550 Spyder. A carroceria, um monobloco feito de compósito de fibra de vidro (FRP), foi aparafusada em um chassi de Fusca. O carro não tem portas, tanto para reduzir o peso, quanto para simplificar a construção do carro.

O Enzmann Spider foi apresentado em Lausanne em 1956. Depois foi apresentado no no Salão de Frankfurt de 1957, onde recebeu a denominação adicional “506”, que foi o número do seu box no salão. Havia três modelos: Spider, Cabriolet e Hardtop.

Tempos depois, a partir de 2010, Karl Enzmann e Werner Schreiber, filho e genro de Emil, reergueram a empresa que passou a produzir novas edições destes carros idênticas aos originais.

Mas… o sucesso do Karmann Ghia, fabricado pela Karmann, de Osnabrück, para a Volkswagen, e o corte do fornecimento de peças Volkswagen para os carrozzieri, causou o fim dos carros da Rometsch, Dannenhauer, que hoje em dia contam como sendo das maiores raridades ligadas ao Fusca.

Por falar em Karmann Ghia, uma curiosidade: a Karmann fabricou cerca de 1.098 carros na Suíça, devem ter sobrevivido uns 20 carros, três dos quais compareceram ao evento de Hessisch Oldendorf.

Outro carro baseado no Fusca que apareceu em HO17 foi a transformação do Fusca em furgão de carga, versão que, apesar de estar nos planos de Porsche para o aproveitamento da mecânica do Fusca para veículos de transporte, não chegou a ser fabricada em série. Somente alguns carrozzieri e algumas oficinas fizeram esta alteração em pequena escala, se bem que a transformação abaixo foi muito bem-feita:

 

Kübelwagens

Considerando a época dos carros veteranos, em boa parte a produção de veículos militares teve a hegemonia, com 14.276 Schwimmwagens e 50.788 Kübelwagens, ao passo que foram produzidos somente 1.124 KdFs entre 578 Sedans e 546 versões militares até o fim da II Guerra Mundial. Estamos falando de carros produzidos até 1945 e que a maioria deles sucumbiu no conflito, o que demonstra a raridade dos veículos que sobreviveram até hoje.

A maioria dos Kübelwagens e dos Schwimmwagens, bem como os KdF dedicados para o serviço militar, ficou concentrada na praça da igreja, disputando espaço com as demais raridades principais do evento. As vagas não eram fixas para carros específicos, assim, dependendo do dia e da hora, havia uma rotatividade e isto fazia o espaço ter várias raridades diferentes expostas.

Alguns exemplares de Kübelwagen que participaram do evento:

Em uma das esquinas, devidamente acomodado sobre trilhos, estava um Kübelwagen adaptado para andar sobre trilhos de uma maneira bastante simples, uma interessante curiosidade:

(Foto: Nico D’Haene)

Um descendente especial

Por falar em Kübelwagen, compareceram ao evento vários de seus descendentes diretos: o Tipo 181, apelidado de “A Coisa” (The Thing) nos EUA. Estes jipes 4×2 foram fabricados de 1968 a 1983, na Alemanha e no México (pena que o Brasil não recebeu estes carros, teria sido uma maneira de se ter um conversível barato). Em HO17 estes carros fizeram parte do bloco dos “modernos”, mas que igualmente têm seus fiéis adeptos:

 

Durante a redação desta parte da matéria eu percebi que há material para a Parte 4, não prevista! Sim, é um evento muito cheio de detalhes que espero estejam sendo de seu interesse. Os trabalhos de pesquisa para dar as informações que complementam a matéria seguem a pleno vapor, pois a meta é que você tenha dados sobre, por exemplo, os carros especiais que foram apresentados acima. Assim quando você for a um evento destes já vai saber do que se trata.

Navegador entre as partes da matéria “Hessisch Oldendorf 2017”:
Parte 1
Parte 2
Parte 4 Final

 

 

 

AG

Agradeço à parceria com Ighör Tóht que, com suas fotos e informações, permitiu a elaboração desta matéria.
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OBS.: em 23/07/2017 atualizada a quantidade de Karmann Guias montados na Suíça.
A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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