Ultimamente temos visto diversos grupos com reivindicações próprias. Grupos nem sempre representativos ou realmente numerosos, mas na maioria das vezes barulhentos. Autoproclamam-se “coletivos”— aliás, essa palavra vai para uma lista de termos que gostaria de abolir pelo excesso de uso, modismo e inutilidade junto com “empoderamento”, “disruptivo” entre outros.

Ai de quem vai contra os interesses deles. É taxado de terríveis palavrões. Adjetivos que na maioria das vezes sequer se aplicam e nem entram no contexto. Na verdade, são usados por esses grupos contra qualquer um que contraria seus interesses. Pregam o diálogo, mas o que mais dizem é “não toleraremos… ” isto ou aquilo. Ué, e a história do diálogo? Acho que diálogo para alguns pressupõe dizer para eles “sim, senhor”.

E a que vem toda esta história? A Prefeitura de São Paulo está revendo a política de ciclovias e ciclofaixas. Até aí, nenhuma surpresa. Já em 2016 o então candidato havia anunciado isso aos quatro ventos como plataforma de campanha — e se elegeu com mais de 50% dos votos já no primeiro turno. Após seis meses de estudos, de ouvir diversos envolvidos, como associações de bairros, vereadores (que encaminharam 350 pedidos de mudanças), a equipe da Prefeitura começou a detalhar um plano. Já o fato de haver um plano por si só parece alvissareiro, pois antes acordava-se com uma ciclofaixa à porta sem mais nem menos. Surgiu assim uma em Pinheiros que começava depois de uma esquina e terminava antes da esquina seguinte. No meu imaginário, deve ter sido feita para atender a dois amigos exclusivamente. Assim, um podia ir pedalando até a casa do outro sem ser incomodado.

Sem entrar na questão do plano, que ainda não conheço em detalhes e que não vem ao assunto desta vez, algumas ciclofaixas foram apagadas. Algumas definitivamente, outras temporariamente, para recapeamento das vias. Pois bem, o que fizeram alguns, vá lá, “coletivos’? Pintaram, por conta própria, as faixas. Esse foi o caso da  ciclofaixa da rua Doutor Fausto de Almeida Prado Penteado, (600 metros, entre a avenida Doutor Alberto Penteado e a rotatória da avenida Amarilis) no Morumbi, que desapareceu com o recapeamento da rua. Eu passo por lá com muita frequência e acho um absurdo ter ciclofaixa ali. Está muito próxima do clube Paineiras do Morumby, um dos maiores da cidade, que tem aulas de todo tipo, milhares de sócios que param os carros do lado de fora pois não cabem dentro do clube, é em subida, mão dupla, estacionamento permitido apenas de um lado e com a ciclofaixa obriga o carro que circula por qualquer uma das faixas a andar com meio veículo na contramão em qualquer sentido que o faça, pois é impossível ter estacionamento (ainda que de um lado só) e ciclofaixa do outro). E nunca, nunquinha, vi um único ciclista passar por lá. E ando pelo menos quatro vezes por semana por aquela rua, em diversos horários. Meu marido outro tanto, assim como vários membros da família e ninguém jamais cruzou com alguém pedalando.

Simpáticas, as bicicletas, não? (Foto:g1.com.br)

Os cicloativistas saíram dizendo que não admitiriam “nenhum centímetro a menos”. E pintaram as ciclofaixas. Ainda assim, a Prefeitura depois do recapeamento voltou a colocar toda a sinalização vertical de ciclofaixa.

Também foi pintada amadoristicamente a ciclofaixa de 140 metros (sim, isso mesmo, baita ciclofaixa) da rua Silva Pinto, no Bom Retiro, cuja remoção já foi pedida (implorada seria mais adequado) pelos comerciantes diversas vezes, pois viram suas vendas minguarem desde a implantação. Os cicloativistas dizem que quem anda de bicicleta também faz compras, mas o fato é que são muitíssimos menos clientes e que os caminhões e furgões de entrega não conseguem parar (não dá para entregar de bicicleta, né?) .

Cheguei a ver algumas pessoas elogiando a iniciativa de pintar as ciclofaixas por conta própria sob o argumento de que “é melhor fazer algo do que ficar reclamando”. Os cicloativistas chamam de “ação cidadã”. Como assim, cidadã? A cidade não é de todos? Ou de apenas alguns, que decidem o que fazer, assim, por conta própria, e impõem suas agendas? Ora, fazer algo, nesse caso, seria reclamar com os vereadores, o prefeito, o secretário de Transportes (que, por sinal, vai todo dia trabalhar de bicicleta. Nem o secretário anterior fazia isso, assim como o prefeito anterior também não)… mas pegar lata de tinta e sair pintando rua? Sempre ouvi dizer que no Brasil o problema é que as pessoas não entendem a diferença entre público e privado. E parece ser este o caso. Como alguém “se apropria” da rua e decide o que deve ser feito? Ainda que ali houvesse antes uma ciclofaixa, cabe ao poder público restaurá-la ou não. Nunca ao cidadão.

Pintura parece deveras amadora (Foto:vadebike.com.br)

Sempre briguei pelos meus direitos. E se não concordo com uma lei, brigo para que ela mude. Mas não a descumpro. Se acho que uma determinada rua deveria ser de mão dupla brigo com a CET. Mas não ando na contramão por isso.

Imaginem, caros leitores, se um “coletivo” de usuários de ônibus (e aí sim, seria um coletivo, hehehe) decidisse que essa ciclofaixa seria mais útil como corredor de ônibus e pintasse uma faixa exclusiva para isso? De fato, muita mais gente se beneficiaria. A bicicleta é um transporte que por mais simpático que seja é extremamente egoísta: é privado e individual. Transporta uma pessoa por vez. O ônibus é público e coletivo. Transporta fácil 80 pessoas por vez. Então, qual teria que ter prioridade?

E ai poderia vir um grupo de taxistas e pintar um ponto de táxi? E assim por diante, cada grupo de olho em seu próprio interesse? Por óbvio, não.

Engraçado que as pessoas que pintaram a ciclofaixa são aquelas que nas rodas de chope  criticam a classe média que fecha ruas com cancela, “vedando o acesso do público”, “privatizando o espaço público” e outros argumentos assim em nome da segurança de suas casas e famílias  — que e exatamente o que eles fazem quando se apropriam de uma faixa do leito carroçável.

Parece bem óbvio que a pintura amadora não segue as normas nem a legislação em vigor. De cara, diria que os dizeres “nem um centímetro a menos” não estão previstos no Código de Trânsito Brasileiro. A tinta será adequada para evitar derrapagens? Será durável? (bem, a a da administração antenior sabemos que não era). Segue as normas técnicas?

Engraçado é que na gestão anterior, em 14 de maio de 2016 a própria Prefeitura retirou uma ciclofaixa que passava diante de uma escola particular, o Madre Cabrini, a pedido da escola, e nenhum cicloativista estrilou “nem um centímetro a menos”. Ela era tão absurda como várias que temos, mas não houve nenhuma manifestação. Ninguém deitou na rua para impedir a retirada. Estranho, não?

Mudando de assunto: Curto muito a Stock Car, especialmente a Corrida do Milhão. Mas fico muito frustrada quando a televisão corta a transmissão logo depois da bandeirada. Nada de pódio, entrevistas, comemorações, nada. Mesma coisa em outras categorias, às vezes até na Fórmula 1. Ufa!

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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