No mundo automobilístico há agora uma polêmica muito grande sobre diesel, e na Europa a grande pergunta é: O motor Diesel vai morrer quando?

Dentro das grandes empresas automobilísticas a pergunta é: quantos anos mais vamos continuar a desenvolver o motor Diesel?

Por que estão nessa posição agora? Pelo que sei temos três motivos principais:

  1. Carros diesel proibidos nas cidades grandes
  2. O renascer do carro elétrico.
  3. O Dieselgate com da Volkswagen.

Vamos por partes.

  1. Nas capitais principais da Europa como Berlim, Londres e Paris, há planos para proibir o uso de carro a diesel. Sem dúvida, o gás NOx (os óxidos de nitrogênio) faz mal para o sistema respiratório das pessoas e o motor Diesel emite muito NOx, mesmo com catalisador e outros sistemas para reduzir emissões. E pelo que sabemos, o proibição vai acontecer, carros diesel mesmo ser proibidos. Parece mesmo que nesse jogo os lobbyistas do petróleo estão perdendo agora. A pergunta é: quando?

No dia 17 de janeiro 2017 a cidade de Oslo proibiu o uso de carro a diesel, mas só naquele dia mesmo. No próximo inverno pode ficar assim de novo, caso a  qualidade do ar fique muito ruim em relação à  perspectiva deles. Alguém que use carro a diesel vai ser multado num dia assim. Escaneamento automático de placa já existe.

Na cidade de Berlim proibir carro a combustão não é novidade. No começo dos anos 1900 já era parecido, carro com motor a combustível era proibido. E se alguém quisesse chamar um táxi? (carro particular era uma raridade na Europa na época) Tinha duas opções. Carro com cavalo, ou carro com motor elétrico. Na cidade de Hamburgo carro a combustão também era proibido, e lá havia a empresa Hedag (Hamburger Elektrishe Droschken Aktien Gesellschaft) que fazia táxis elétricos.

O Hedag (Foto: autor)

Na cidade de Pequim, China, tem gente pobre morando no meio da cidade. Como eles não tem dinheiro pra viajar, tinha gente ali que nunca viu o sol num céu claro! Nunca na vida. Por causa da poluição. Houve alguns períodos em era proibido poluir em Pequim, e nesse tempo as pessoas viram a diferença, e aprenderam. Com certeza motor Diesel não é o problema principal, mas isso não importa, e, bom, o diesel não é. Muitos chineses na cidade ficam bravos quando veem qualquer coisa que queima algo.

Entre 2010 e 2015 foram vendidos um milhão de veiculos elétricos no mundo inteiro. Entre 2015 e 2017 foi mais um milhão. A maior parte das vendas é na China. Todos fabricantes chineses tem pelo menos um BEV (battery electric vehicle) no portfólio deles, todos.

BAIC EC180, o carro mais vendido na China em março passado (BAIC Motors)

 

  1. No ano de 1900 a pergunta era: um carro sem cavalo, como vai ser motorizado? Motor de combustão interna (ICE)? Motor elétrico? ou motor a vapor, de combustão externa (ECE)?

Agora, mais de 100 anos depois se pode rir um pouco sobre isso, mas naquele ano não. Havia um desenvolvimento forte na área para diminuir o tempo de espera para o motor a vapor “pegar”, e no fim desse desenvolvimento havia motores a vapor que andavam depois de só 40 segundos de aquecimento! Isso com “flash boiler” e “spark ignited burner”. A marca Stanley Steamer (a vapor) vendia mais carros do que as marcas com motor de combustão interna no ano de 1900.

No ano 1906 o carro a vapor Stanley Rocket bateu o recorde de velocidade para carros; velocidade, 205.5 km/h! (Wikipedia)

No mesmo ano, 1900, a empresa Electric Vehicle Company com a principal marca Columbia, estava no primeiro lugar nas vendas de carros no EUA. Um carro elétrico era bem mais fácil de ligar  e usar, sem barulho, sem fumaça. Como hoje, os carros elétricos eram pesados e com autonomia limitada.  Na cidade de Chicago havia uma pequena rede elétrica da empresa Woods, onde se podia carregar a bateria no carro fora de casa.

Na década de 1910 o motor a combustível ganhou. Mesmo que fosse sujo, barulhento e com um líquido a bordo que era tóxico e que também pegava fogo muito fácil. O transporte desse líquido perigoso também era complicado, pois não tinha como transportar fácil como a eletricidade num fio. Com o desenvolvimento forte do motor a combustível na área de qualidade, usabilidade — com invenção do motor de partida elétrico —  e principalmente preço acessível, o mercado decidiu que o motor a combustível era a melhor opção.

Em 2008 chegou o Tesla Roadster. Em 2011, o Nissan Leaf.  Em 2013, o Tesla Model S. O mundo viu que o carro elétrico poderia ser possível de novo. Agora TODAS marcas principais no mundo estão desenvolvendo carros elétricos. Eles irão fazer isso só para jogar dinheiro fora?

 

  1. No ano 2000 os carros estavam bem no caminho de virar um computador com rodas. Poucos anos depois já tinha sensores para “tudo”, e com computadores mais fortes ficou fácil registrar tudo que acontece com o carro. Se o carro está rodando num teste de emissões, isso dá para sentir, e neste momento se pode priorizar emissões baixas e não consumo baixo, que num motor Diesel é coisa complicada de obter ao mesmo tempo. Volkswagen fez isso, e agora temos a palavra nova: Dieselgate.

Então, num carro com motor Diesel, ter emissões baixas de NOx aumenta o consumo. O consumidor de carro quer consumo baixo. Gente sem carro quer ar limpo. Ministérios sentem a força do povo. Onde políticos têm medo do povo, tem desenvolvimento. Onde o povo sente medo dos políticos, tem regressão. Assim, países desenvolvidos têm regulamentos sobre emissões de poluentes dos carros.

No EUA os limites de emissão dos “carros normais” são iguais para motor Diesel, gasolina ou álcool, tanto faz. Assim fica muito difícil para o motor Diesel, e é preciso fazer redução das emissões com pós-tratamento, filtros e catalisadores.

Na Europa  há níveis separados entre gasolina e diesel. Também tem limites para não emitir CO2 demais e não apenas  NOx, HC, NMHC (hidrocarbonetos não metano), CO e PM (material particulado). O relação entre CO2 e consumo de combustível também é linear e assim o governo europeu está reduzindo o nível permitido de CO2. Em 2020 a frota tem que chegar no consumo médio de 98 gramas CO2/km, e por volta de 75 gramas em 2025. Isso é praticamente impossível sem eletrificação da frota.

O povo que usa carro acha bom, assim os carros novos consomem menos. O povo sem carro acha bom porque emitem menos. Todo mundo ganha. Mas com os limites tão baixos que virão é supercomplicado chegar nesses níveis com motor a combustível. Mas, se coloca uma bateria no carro, vem a  zero emissão, “fácil”. Pelo menos zero do escapamento e nos centros das cidades grandes.

Então nas empresas grandes como Volkswagen, Mercedes e BMW perguntam: por que continuamos a gastar milhões desenvolvendo esse motor Diesel que não tem futuro?

E agora, no Brasil, vamos começar a permitir carro a diesel em carros de passageiros?

Para o consumidor um carro diesel tem seu lado bom. O consumo de energia sem dúvida é menor, fica na área de uns 20% menos do que um motor a gasolina. Por que isso?

Primeiro, pelo volume. O diesel contem 10% mais de energia do que a gasolina. Assim o consumo por volume fica menor.

Em segundo lugar, num motor diesel a taxa de compressão é mais alta e isso também aumenta a eficiência.

O terceiro motivo de ter menos consumo é que o motor diesel aspira o ar sem “freio” na entrada. Num uso normal, o motor a gasolina ou álcool sempre tem a borboleta semifechada (ou semiaberta) no duto de aspiração do motor. Isso reduz a eficiência com as perdas por bombeamento. Isso o motor diesel não tem, e se injeta uma quantidade de diesel que se precisa no momento, a quantidade de ar fica como fica, decidido pelas rotações e a pressão do turbo.

Que mais é bom no motor Diesel? Ele é forte nas rotações baixas por causa da taxa de compressão mais alta, e praticamente todos motores Diesel modernos têm turbocompressor. Gostoso de dirigir para quem gosta de alta potência nas baixas rotações; chato para alguém que gosta de usar rotações mais altas.

Com esse consumo menor, se o tanque fica no mesmo tamanho da versão de gasolina (nem sempre é assim) a autonomia fica maior. Há uns meses eu peguei emprestado um novo Volvo XC90 D5. Dirigi 1.000 km e usei 70 litros de diesel. Pouco, considerando o tamanho e peso do carro. Um carro menor a diesel como um Volvo V40 D3 ou qualquer um Audi 2,0 TDI, poderia ter gasto uns 45 litros nesta viagem.

O meu Audi A2 particular de 2002 com motor 1,4-litro a gasolina teria gasto uns 55 litros. Agora um maior e novo Audi A4 com motor gasolina bem mais desenvolvido, o 2,0 TFSI, consumiria o mesmo que o A2, mesmo sendo maior e mais pesado.

Meu A2 no posto, gasolina (foto do autor)

Outro efeito interessante de haver veículos gasolina e diesel misturados no mercado é que muita gente enche o tanque com o combustível errado! Sim, isso acontece na Suécia mais ou menos  20 mil vezes por ano, com apenas 1,5 milhão de carros a diesel. Um solução para evitar esse problema existe em alguns carros novos e caros. Eles têm uma peça no bocal para prevenir que uma pistola de gasolina com menor diâmetro entre no bocal de abastecimento.

Bocal para não colocar gasolina no carro diesel (Foto: Google)

Então, sei que há algumas vantagens para o motor Diesel, principalmente para alguém que dirige muito fazendo viagens longas. Mas em minha opinião deve ser bastante esquisito abrir o mercado brasileiro para o Diesel. Se respirar o ar nas cidades brasileiras não é nada agradável, por que piorar o ar mais ainda com diesel? Não é melhor tentar melhorar a qualidade da ar do que dar um passo para trás nessa área?

Pelo que entendo, a posição no Brasil agora deve ter relação com a produção de gasolina. De cada volume de óleo cru, o processo de refino fornece uma variedade de derivados de petróleo. O volume de gasolina obtido pode ficar na região de 25%. Fazer mais gasolina é possível, mas fica mais caro, pois se tem que usar craqueamento hidrogênico, por exemplo. Com certeza as empresas petrolíferas querem ter processos produtivos ao máximo e isso fica mais fácil com um uso mais balanceado entre gasolina e diesel. Só aumentar vendas de carros a gasolina sem aumentar vendas de carros diesel é um problema para a  indústria do petróleo. Ou, pelo preço da gasolina para o consumidor, é fácil perceber que não fazem nada de graça.

Na Suécia o preço de gasolina e diesel é mais ou menos igual, os dois na área de  equivalente a R$ 4,50 por litro. Sem impostos o preço ia ser na casa de R$ 1,30 por litro. Bastante barato, e por isso temos governos para limitar danos colaterais como ar poluído. E se políticos têm medo de gente querendo o melhor para o mundo, vamos ter desenvolvimento, lembra? Então, queimar petróleo traz poluição e por isso há impostos para diminuir o uso, e ter dinheiro para os efeitos colaterais. Isso é igual como o tabaco que também polui e provoca doenças,  e por isso muitos países aplicam imposto extra nos cigarros. Açúcar também tem muitos efeitos colaterais,  e assim vários países no mundo estão começando a colocar imposto nos refrigerantes. Tudo isso é normal, cada um tem que pagar pelos seus danos.

Como o uso de carro elétrico em geral está diminuindo a poluição, vários países oferecem redução dos impostos para esse tipo de carro. Na Europa vejo um cenário onde haverá menos e menos carros vendidos com motores diesel. Pelo que entendo agora, só carro caro e grande vai continuar a ser oferecido com motor Diesel. O nível de quilometragem necessário para se ter um melhor negócio de um diesel vai ser aumentado muito e tudo fica nas mãos dos governos. Impostos pelos danos colaterais vão decidir tudo e como vejo o desenvolvimento agora, toda Europa vai para a  vantagem de gasolina junto com a hibridização e carros elétricos puros, os BEV, também. Parece que a história esta se repetindo como era no EUA no começo dos anos 1900. Vamos ter uma frota de carros muito misturados de novo.

Aqui para nós autoentusiastas, esse desenvolvimento é bom? Para mim acho muito interessante. Na garagem eu gostaria ter um carro de cada tipo, se tivesse espaço e dinheiro. Mas… ainda não sei onde se encontra um carro moderno de vapor. Alguém sabe?

HJ

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