Com grande espírito de equipe e um esforço quase sobre-humano, a Porsche venceu a  85ª 24 Horas em Le Mans domingo último. Os neozelandeses Earl Bamber e Brendon Hartley, mais o alemão Timo Bernhard alcançaram a vitória e garantiram o 19º triunfo da Porsche na classificação geral. Foi a terceira vitória consecutiva do 919 Hybrid (foto de momento em que o 919 Hybrid nº 2 recebia a bandeira quadriculada).

Um esforço comparável com o que ocorreu há 40 anos (veja quadro no final), quando o belga Jacky Ickx, o alemão Jürgen Barth e o americano Hurley Haywood deram uma reviravolta com um Porsche 936 (protótipo) e saíram da 42ª posição para chegarem à vitória.

A 85ª edição da maior e mais dura corrida de automóveis do mundo começou com vantagem para a Toyota e seus três TS050 Hybrid, que fez 1-2 na classificação, e um inesperado atraso para o Porsche 919 Hybrid nº2, que felizmente venceu.  Às 18h30 (hora de Le Mans), o 919 de Bamber/Hartley/Bernhard teve de ir ao boxe, onde demorou uma hora e cinco minutos para trocar o motor elétrico que aciona o eixo dianteiro. O carro retornou a corrida às 19h35  na 56ª colocação — última dos carros que estavam na pista — 18 voltas atrás do líder.

O começa da batalha (Foto: Porsche)

Durante a noite, a forte concorrência japonesa sofreu perdas. O Toyota parou nº 8 parou no boxes para longos reparos, o nº 7 parou na pista devido a um problema de embreagem, e o nº 9 teve  sofreu um acidente e abandonou. À 00h45, o Porsche 919 Hybrid nº 1 assumiu a liderança. Na sequência, a Porsche pagou novamente o preço de uma corrida extenuante. Com 11 horas e nove minutos de corrida ocorreu uma falha no motor do nº 1, queda da pressão de óleo, e o carro teve que abandonar. Após uma grande desempenho,em que lideraram por mais de dez horas, os sonhos do suíço Neel Jani, do alemão André Lotterer e do inglês Nick Tandy chegaram ao fim.

Parada programada (Foto: Porsche)

O momento para os caçadores havia começado. O Porsche 919 Hybrid nº 2 era o melhor colocado na LMP1 e estava no encalço dos LMP2 líderes. Às 12h50 locais, na 330ª volta, Bernhard voltou a ficar na mesma volta do líder. Na 347ª assumiu a liderança e a bandeira quadriculada lhe foi exibida 20 voltas mais tarde, coroando-o vencedor na classificação geral.

Momento gratificante (Foto: Porsche)

A corrida em números

  • A equipe vencedora do carro nº2 completou 367 voltas (5.001,23 km) a uma velocidade média de 208,2 km/h.
  • O carro nº 2 assumiu a liderança geral da corrida com 20 voltas para o final.
  • Quem teve o maior número de voltas na liderança foi o Porsche nº1 de Neel Jan , André Lotterer  e Nick Tandy. Ele ficou na frente desde a 155ª volta até a 318ª (00h45 até 11h09 de corrida). Além disso, liderou mais duas voltas no começo da corrida devido a períodos de parada nos boxes. No total, o carro nº 1 liderou durante 166 voltas.
  • No momento do problema no motor do carro º 1, ele liderava a corrida por uma margem de 13 voltas o segundo colocado.
  • Durante as 24 horas, a corrida teve três intervenções do carro de segurança (15 voltas) e 27 bandeiras amarelas localizadas, durante as quais os pilotos tinham que reduzir a velocidade para 80 km/h.
  • Apenas 246 das 367 voltas da corrida (67%) foram realizadas com a pista em bandeira verde completa.
  • O carro vencedor entrou nos boxes  29 vezes, uma vez para pagar uma penalidade de passagem lenta e incluindo a longa parada para a troca do motor elétrico. O tempo total nos boxes foi de 1h38min521s.
  • Os vencedores  usaram dez jogos de pneus slicks e o carro foi reabastecido 28 vezes.
  • A velocidade máxima mais alta durante a corrida do Porsche 919 Hybrid vencedor foi mediada oficialmente em 334,9 km/h (Timo Bernhard na 338ª volta).
  • A distância mais longa feita com um jogo de pneus foi de 43 voltas — da 124ª à 167ª volta — com Earl Bamber ao volante.
  • O segundo maior ritmo foi no final da corrida, com o alemão Timo Bernhard ao volante, da 325ª à última volta, a 367ª.
  • Bernhard pilotou a maior parte da distância. Ele fez 159 voltas no total, Hartley esteve no carro por 106 voltas e Bamber, por 102.
  • Antes da corrida, o peso de Timo Bernhard — incluindo macacão e capacete — era de 65,0 kg. Após a corrida, a balança marcava 63,8 kg.
  • A parada completa nos boxes mais rápida feita pela Porsche, que inclui uma mudança de pneus e pilotos, foi de 1m22,343s.
    • A parada mais rápida para o reabastecimento (tanque cheio) foi feita em 1m4,342s, às 22h14.
    • Os pilotos tinham 0,9 litro de bebida a bordo para cada turno; a garrafa era trocada em cada parada de reabastecimento.
    • 11 películas foram removidas do para-brisa do carro vencedor, para sempre obter a melhor visibilidade possível.
  • A temperatura ambiente mais alta foi de 31,5 ºC pouco antes das 15 horas locais,  o final da prova. Durante a noite caiu até 19 ºC. A temperatura da pista atingiu seu pico no sábado, com 39 ºC; a mais baixa chegou a 27 ºC.
    • 25,2 gigabytes de dados do carro número 2 foram transmitidos para os boxes durante as 24 horas.
  • Depois de três das nove rodadas do Campeonato Mundial de Resistência da FIA (WEC), com os pontos duplos em Le Mans, a Porsche agora lidera o campeonato de fabricantess com 111 pontos; a Toyota é a segunda com 74,5. No campeonato mundial de pilotos, o trio Bamber/Bernhard/Hartley marcou 83 pontos e está liderando com uma margem de 21 pontos. Já  Jani/ Lotterer/Tandy estão em 5º, com 28 pontos.

 

No espelho retrovisor: Jacky Ickx relembra 1977

Há 40 anos, a Porsche também conseguiu o que parecia impossível. É assim que o belga Jacky Ickx, 72 anos, vencedor de Le Mans seis vezes na classificação geral, relembra: “Após três horas eu e o Henri Pescarolo estávamos fora da corrida. Nosso 935 2,1-L turbo tinha quebrado, mas a Porsche mandou eu me juntar a Jürgen Barth e Hurley Haywood no 936 (foto ao lado, Wikipedia). Mas eles também vinham tendo problemas e estávamos em 42º lugar. Ainda não consigo colocar na minha cabeça o que aconteceu depois. Foi um estado eufórico. Dirigi toda a noite o mais rápido que eu podia, sempre no limite, na chuva e no nevoeiro. Eu  aumentava o ritmo a cada volta — 42º, 35º, 28º, 20º, nono, sexto, quinto. Todos sentiram que podíamos conseguir o inimaginável. Jürgen e Hurley dirigiram mais rápido do que nunca e os mecânicos fizeram um trabalho incrível. Na verdade, eu não me senti cansado. Em seguida, assumimos a liderança. No domingo da manhã eu estava totalmente esgotado. No final, Jürgen levou o 936 através da linha de chegada com apenas cinco cilindros. Eu não teria conseguido. Há muitas histórias fantásticas sobre muitas corridas, mas 1977 se destaca. Essa foi uma coisa única na vida. Corridas como essa fizeram da Porsche uma lenda.”

 

BS

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Sobre o Autor

Bob Sharp
Editor-Chefe

Um dos ícones do jornalismo especializado em veículos. Seu conhecimento sobre o mundo do automóvel é ímpar. História, técnica, fabricação, mercado, esporte; seja qual for o aspecto, sempre é proveitoso ler o que o Bob tem a dizer. Faz avaliações precisas e esclarecedoras de lançamentos, conta interessantes histórias vividas por ele, muitas delas nas pistas, já que foi um bem sucedido piloto profissional por 25 anos, e aborda questões quotidianas sobre o cidadão motorizado. É o editor-chefe e revisor das postagens de todos os editores.

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