Moro no mesmo endereço em São Paulo desde 2002, portanto há 15 anos.

Muita coisa mudou desde então não só no meu bairro, mas na cidade como um todo.

Construção de novas linhas de metrô, modernização da frota de ônibus, nem tanto, mas alguma coisa vem sendo feita e um transporte importante e necessário no meu bairro era a existência de um ponto de táxi.

O edifício onde moro é de esquina, portanto um local ideal para se ter este desejado ponto de táxi, pelo menos desejado por mim e minha esposa porque eu viajava muito e o deslocamento casa-aeroporto sempre era feito por esse meio. E não é que em um determinado dia chegou uma carta-pesquisa da Prefeitura com perguntas a respeito da liberação de um ponto aqui na nossa região e a esquina escolhida tinha sido a nossa?

Minha esposa, que era síndica, tomou a providência de perguntar aos condôminos se eles teriam algo contra termos na esquina da nossa casa um ponto de táxi.

Os táxis, em número de cinco, ficariam no lado direito da rua, que é de mão única, permitindo que os passageiros tivessem acesso às portas dianteira ou traseira pela calçada do lado do direito, o que lhes daria total segurança ao embarcarem.

Nossa surpresa foi a resposta dada pela maioria dos condôminos. Foram contra alegando a possível formação de um ponto de pessoas indesejáveis, ponto de jogo do bicho, conversas em tom alto e até o uso de palavrões, etc.

Fomos voto vencido. Eu só via vantagens e uma das mais importantes seria os taxistas se acostumarem com os moradores do edifício, seus hábitos e costumes e a qualquer movimento diferente do dia a dia ser razão para um alerta à policia. Eles seriam involuntariamente, quando no ponto, nosso suporte à segurança.

A resposta foi dada à Prefeitura que devido ao nosso posicionamento negativo, questionou o síndico do edifício do outro lado da rua. Os condôminos daquele edifício tiveram a visão que eu tinha e aprovaram a instalação do ponto de táxi daquele lado. O único inconveniente seria o cuidado dos passageiros ao entrar no táxi, se utilizadas as portas do lado direito, o do fluxo do trânsito.

E assim foi feito. O ponto de táxi instalado, os motoristas a postos, e tudo transcorria normalmente até que em determinado momento, quando eu seguia com um destes motoristas para o aeroporto, contei-lhe sobre a pesquisa da Prefeitura e o resultado, dizendo-lhe, sem outra intenção, que os únicos a aprovarem o ponto do outro lado tinham sido eu e minha esposa. É claro que este motorista espalhou a notícia aos seus colegas e eu passei a ser amigo de todos eles.

Nas várias viagens que fiz, pelas conversas de bordo eles ficaram sabendo da minha atividade profissional junto a diferentes marcas de automóveis e com isto trocávamos ideia sobre defeitos, qualidades dos carros, características técnicas etc., e sempre em uma conversa agradável entre cliente e prestador de serviço.

Não tinha preferência por carro ou motorista, pegava aquele que “era o da vez”, mas um deles se destacava por sua ruindade ao volante. Mas como era ruim!

Nunca fui “forte” quando carona, meu labirinto sempre sofria e enjoar era muito fácil.

Freadas bruscas, aceleradas idem, curvas feitas em etapas que são aquelas onde o motorista luta contra o volante sempre me deixavam em más condições físicas, bem pior do que o balançar dos aviões.

Por questões éticas não vou mencionar o nome ou qualquer outro dado que possa identificar este “piloto” profissional do volante, mas em um determinado dia, depois de sofrer muito em suas mãos, pensei cá com meus botões: vou ter que ensinar este taxista como ele deve dirigir, de forma econômica, segura e agradável para o passageiro. Me enchi de coragem e fui adiante.

Este dia chegou, o destino era o aeroporto de Congonhas e no trajeto fui fazendo e de forma muito educada, minhas críticas com relação à sua forma de dirigir e ainda lhe expliquei o que significava “pé gago”. Ele deu risada e perguntou se ele era um pé gago. A nossa amizade acumulada ao longo dos anos em que ele me servia permitiram este tipo de conversa.

No meio do trajeto lhe pedi que me deixasse dirigir e assim poderia mostrar a forma como ele “castigava” o carro e por consequência do passageiro, e com certeza trazia também prejuízos para o seu bolso.

Sentei-me ao volante e ele ao meu lado calado e até espantado com a minha iniciativa.

Arranquei como ele o fazia, não usei o freio propositalmente quando avistei a primeira lombada (muitas pelo bairro), freei bem em cima para que a cabeça dele se projetasse para frente (logicamente estávamos de cinto atado).

Enquanto dirigia e lhe explicava a melhor forma de dirigir, tirava e colocava o pé no acelerador fazendo com que ele ficasse desconfortável e disse isto é ser “pé gago” acelera e tira o pé, acelera e tira o pé.

Chegamos a Congonhas, parei bem antes do local de desembarque porque, afinal, minha CNH categoria B não permitia dirigir táxis, mas antes deixei algumas recomendações, tais como as que seguem abaixo. Não dê arrancadas, gasta mais combustível e pneus sem nenhuma necessidade.

• Não freie forte próximo a lombadas; além do desconforto para o passageiro há maior consumo de pneus, pastilhas e disco de freio
• Procure passar pelas lombadas em velocidade compatível com altura delas
• Procure manter uma velocidade constante, olhe sempre para frente e siga o fluxo normal do trânsito sem ficar acelerando e desacelerando sem necessidade; com isso vai poupar combustível
• Não fique mudando de faixas sem necessidade, e quando o fizer use a seta indicativa antes da manobra
• Não deixe o seu pé esquerdo apoiado sobre o pedal da embreagem
• Tire a fivela reguladora da folga do cinto de segurança, isto é um acessório que deveria ser proibido de ser fabricado/vendido; é a sua própria segurança que está em jogo, é melhor amassar um pouco a camisa do que (muito) o seu rosto e tórax caso um acidente aconteça.

Bem, você deve estar achando que fui longe demais. Nada disto, hoje tenho um amigo taxista, ele dirige de forma muito melhor e confessou estar muito agradecido pela minha preocupação com seu desempenho e seu bolso. Disse estar seguindo à risca minhas recomendações e me é imensamente grato pela demonstração de amizade.

Hoje saio com ele com muito prazer e de forma 100% segura e confortável e nem por isto pago mais. Valeu a minha iniciativa, e se você puder ou tiver a oportunidade, faça o mesmo.

Mas, cuidado, o taxista poderá não entender o seu propósito de dirigir o carro dele.

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

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